(J. M. Machado de Assis, artigo publicado em A Marmota, Rio de Janeiro, 1858)
quinta-feira, 29 de dezembro de 2016
Nosso pensamento, Machado de Assis
(J. M. Machado de Assis, artigo publicado em A Marmota, Rio de Janeiro, 1858)
sexta-feira, 4 de novembro de 2016
A luta política
Veja o desenho do cartaz. Ele é de uma das escolas ocupadas, não faço ideia de qual e isso também não importa para o meu ponto. A questão é: qual a premissa maior do desenho? A premissa é de que a canoa, que representa o futuro (sim, o futuro!, por que não?), mas também nós poderíamos dizer que bem pode representar todo o ensino, o sistema educacional como um todo (pois ninguém discorda que sem sistema educacional não há futuro, pelo menos não a imensa maioria das pessoas), está afundando. Essa é a premissa maior. A premissa menor é a de que os jovens tiram a água que entra na canoa, lutam pelo futuro do ensino. São eles, os jovens, os nossos salvadores.
Como que se vence a luta política? Impondo a todos, como se fosse um imperativo categórico, de forma a não restar dúvidas ou margens sequer para tal, que a premissa maior é verdadeira. Feito isso, a guerra se vence sozinha. "Você" que "é contra a ocupação", automaticamente e quase sempre sem sequer se dar conta, a si próprio se coloca no lugar do conformista, aquele que xinga os salvadores do futuro de "vagabundos", que só quer "assistir sua aulinha". Que ser desprezível e mesquinho, não é mesmo?
Quem define as premissas, possui um poder descomunal sobre os rumos de qualquer debate.
O que digo é válido para qualquer situação, qualquer debate público. E não se vence, nunca, jamais!, luta política nenhuma sem compreender muito bem o funcionamento desse mecanismo de comunicação. Por que um simples cartaz deveria chamar nossa atenção? Porque a luta política é, antes de tudo, uma guerra de comunicação, a imposição de narrativas, visões de mundo. E eu não uso o verbo impor atoa, porque não se discute, não se debate o teor das premissas, excerto, é claro!, esotericamente, internamente nos grupos, partidos políticos aspirantes ao poder. Ao público (captador do discurso exotérico), se incumbe tão somente a missão de impor as narrativas, premissas, visões de mundo dos salvadores, iluminados.
Quando grupos de estudantes, minorias, barulhentas e organizadas, invadem escolas e universidades provocando toda sorte de transtornos sociais e ainda assim conseguem com que o público se refira às invasões como "ocupações", é realmente o anuncio da vitória de uma luta política, a luta se legitima politicamente, é uma demonstração de força, de poder. Como exatamente isso acontece e por que acontece é tema para ser tratado em outra oportunidade, mas é evidente que minorias organizadas e barulhentas sempre levarão vantagens sobre maiorias amorfas, disformes, dispersas e desorganizadas.
domingo, 23 de outubro de 2016
Felicidade e personalidade
domingo, 16 de outubro de 2016
A felicidade
sábado, 8 de outubro de 2016
Apartidário e apolíticos
Da tolerância e do respeito
Ser virtuoso e melhor é justamente saber identificar o que é merecedor de respeito e tolerância. Muitas opiniões eu não respeito, mas tolero, porém isso não significa que eu vá tolerar todas as opiniões. Existem opiniões tão nefastas, tão horrendas que tolerá-las é um acinte, uma indignidade, algo talvez tão nefasto e horrendo quanto a própria opinião emitida. É preciso muito bom senso e prudencia para sabe quando se deve reagir e reagir na devida proporção, sem exceder limites. Eu sempre penso nisso e eu sempre soube disso, ainda que, quando mais jovem, não soubesse colocar em palavras exatamente como estou colocando agora, algo que, se bem observado, não é difícil de entender (o senso comum da mídia é complica bastante essa questão). Algumas vezes eu reagir de forma desproporcional à ofensa e me arrependo. Noutra vezes, sequer reagir e também me arrependo. Agir com justiça é dar a cada um o que lhe é devido, nem mais nem menos. A coisa que eu mais abomino são sujeitos pusilânimes. É disso que se trata a Filosofia, é disso que se trata em se ser sábio, embora não só disso.
sábado, 1 de outubro de 2016
Formas e maneiras de amar
Geralmente isso é dito por pessoas que afirmam lutar contra a discriminação no caso das relações ditas amorosas entre homossexuais (caso do Marcelo Freixo). Mas se existe o amor hétero ou homossexual, definitivamente não há uma diferença formal entre eles, logo não faz sentido a distinção em formas ou maneiras de amar. Sem dúvidas, há uma evidente diferença na manifestação do afeto entre os seres nesses dois casos. Porém, também, como escrevi não faz muito tempo, o amor não se confunde com a expressão romântica, o que é um traço muito característicos do romantismo, a coisa que mais se vê nos filmes, novelas, livros, seriados, músicas etc. etc. etc. O amor romântico é egoísta precisamente por isso, e, precisamente por isso, é também uma negação do próprio amor. O amor, penso, é bem menos complicado; é um identificar-se, como quando Cristo anuncia: ama o teu próximo como a ti mesmo; e, ainda, quando diz: amai-vos uns aos outros como eu vos amei. A medida do amor, portanto, é o Eu, um Eu sem medidas, para parafrasear Santo Agostinho, isto é, um Eu divino, um Eu necessário, não um eu egoísta. Dizia C.S. Lewis que se você tem a atitude correta diante de Deus, inevitavelmente terá a atitude correta diante do próximo. Essa é a régua!
Amar, portanto, é se identificar (porque nós nos identificamos com Deus é que é possível amá-Lo e essa é uma verdade cristã, um diferencial do cristianismo, por exemplo, em relação ao hinduísmo, onde os sujeitos estão lá, amando um deus com cabeça de elefante; o Deus cristão é humanos demais, transborda humanidade e, exatamente por isso, cumprir com o primeiro mandamento da Lei é mais fácil do seria, sem a revelação do evangelho. O Deus dos judeus era impessoal, vingativo e, também os homens, talvez por isso, fossem tão insensíveis, Mc 10:5). Por que, por exemplo, uma das manifestações mais notórias de ódio é o terrorismo? Porque, justamente, é quase sempre uma das manifestações mais notórias de diferenças entre os seres, de distinção, de intolerância. O sujeito que veste um colete de explosivos e se explode é incapaz de se identificar minimamente que seja com as suas vítimas. É assim, de maneira geral, com os assassinos — os assassinos, como dizia Nelson Rodrigues, são anti-homens, se sentem deuses, seres superiores a todos e principalmente às suas vítimas. Por que, também, eu quase sempre acho uma frescura sem tamanho esse negócio de amor pelos animais? O ser humano só consegue amar aqueles animais que mais se identificam e se relacionam com ele. Ninguém ama o porco espinho, ninguém ama o tatu — excerto o tatu bola, porque é engraçado, mas o tatu tradicional, aquele bicho estranho com um nariz e língua soberbos, ninguém ama! Amamos cachorros e gatos porque em nós despertam empatia (empatia significa sentir de forma parecida), mas o mesmo sentir não é possível com toda a animália, esta muitas vezes distante de nós, hostil.
sábado, 17 de setembro de 2016
Meritocracia
Isso não significa que, evidentemente, algum bom soldado não possa chegar ao posto de general por méritos próprios, porém o mérito só poderá ser avaliado no campo puramente subjetivo e individual, nunca, jamais! coletivo, em sociedade.
Jamais viveremos numa sociedade realmente meritocrática simplesmente porque isso é impossível.
A vida é injusta e desigual. A má notícia é que sempre será.
domingo, 11 de setembro de 2016
Cristianismo e Islamismo: religião pública e religião privada
Quando um muçulmano morre em nome de Allah, ele está dando um testemunho público de fé com a certeza de que será recompensado por Deus no paraíso. Já o cristão não poderia ter essa mesma certeza porque a religião cristã se importa menos com o que fazem os cristãos publicamente. A absorvição do pecados, por exemplo, dada por um padre no ato da confissão, é uma GRAÇA DIVINA que SÓ pode ser alcançada pelo arrependimento sincero do fiel devoto, uma graça portanto de natureza puramente subjetiva, intima, interior. Tanto que não importa a vida que levou o cristão se nos últimos segundos ele se arrepender de tudo que fez. Não existe pecado que a Igreja não possa dar a absorvição.
domingo, 28 de agosto de 2016
Ditadura em 64?
Se não fosse por Geisel e Figueredo, não teria havido diretas em 85! Eu até posso achar que Geisel e o Figueredo fizeram um montão besteiras no plano técnico, econômico, administrativo, mas nunca, jamais político! Sem falar que Geisel apoiou o Tancredo em 85, foi um grande patriota, nesse sentido, colocou o Brasil acima dos interesses pessoais que tinha. Por que ninguém tem coragem de dizer isso? O politicamente correto e a espiral do silêncio é promotora de brutal injustiça histórica!
quinta-feira, 18 de agosto de 2016
Considerações breves sobre o amor
Quem ama, sempre cuida, se preocupa, independentemente do outro. Pois bem, cuidar e se preocupar é sofrer! É a mãe que cuida do filho com algum problema e que sofre horrores por amor. É a mulher cujo o marido foi para a guerra e ela fica aqui, sofrendo de tanta preocupação e também saudade, angustiada por não saber se ele volta. É uma relação de proporcionalidade quase exata, me parece. Amor sem sofrimento não é amor! Às vezes vejo mulheres (e também homens, mas mais mulheres) dizerem que vão se separar porque "não felizes". Sempre pergunto com certa ironia: "Você queria ser feliz, é? Não foi o padre quem disse: "Na alegria, na tristeza, na saúde, na doença até que a morte os separe"? Achou que era brincadeira? Que o padre tirava onda?" Aquilo lá não acontece assim há 2000 anos atoa...
Essas coisas não me parecem tão complicadas, tanto que eu realmente não compreendo bem pessoas que tem as mais malucas dúvidas sobre o amor. Uma vez perguntei para um amigo: "Mas você ama ela?" Ele respondeu: "Não sei!" Retruquei de imediato: "Oxente! E quem é que sabe?" "Mas você se preocupa com ela?, você gosta de estar de com ela?, sofre quando não está? Você cuida dela?", perguntei. Ele respondeu que sim para todas as questão. Então qual era a razão da maldita dúvida? Nem ele e muito menos eu sabemos... Quem conhece a si mesmo é sempre mais sábio! A Igreja admite o divórcio, desde que não haja amor. Só não dá é para você chegar lá em Roma dizendo: "Santo Padre, eu achei que amava o pau mole do meu marido, mas agora eu quero o divórcio!" Tem gente que vive exigindo que a Igreja se "adapte ao mundo". No dia que ela fizer isso (e não vai fazer!), eu deixo de ser católico. Adaptar-se às veleidades do mundo é se corromper, é inevitavelmente deixar de existir.
sábado, 6 de agosto de 2016
Padrões de beleza
Tudo que pinta de novo, pinta no rabo do povo, como dizia um certo filósofo.
sexta-feira, 5 de agosto de 2016
A estabilidade do ser
"Nasce o Sol, e não dura mais que um dia...
(...)
Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?"
Eu odeio nas mulheres (e não só nas mulheres, para falar a verdade, mas acontece que elas são sempre o principal foco da minha atenção) quando mudam de cabelo o tempo todo ou o jeito de se vestirem por causa da moda ou outra idiotice do gênero (coisa que não está propriamente em falta no mundo). O nosso corpo é a primeira impressão de quem somos, da nossa personalidade, é o templo do Espírito, como se diz na bíblia. Amar já é difícil e eu fico ainda me questionando como é possível amar uma pessoa que nem ela mesma sabe quem é, que nem ela mesma se interessa por saber quem é... Eu vou amar quem, afinal? Cada hora uma versão diferente? Não tem amor que chegue! Eu não sou contrário à mudança, é claro! (e eu detesto ter que explicar o óbvio também), mas quando a mudança não se justifica, em sua finalidade e essência, ela se tornar uma incongruência ontológica, passa a integrar na forma vazia da mudança pura o conjunto da personalidade, que também se esvazia, se futiliza. A parte que eu mais gosto de Alice no País das Maravilhas é quando a Lagarta pergunta: "Quem é você?", e a pequena Alice responde: "Já nem sei, senhor. Mudei tantas vezes desde hoje de manhã." É um drama real e Alice é de uma sabedoria socrática!
"Metamorfoses ambulantes" nunca são nem lagarta nem borboleta, já que falamos de lagartas... Na verdade, não são nada. Ou, na melhor das hipóteses, são um casulo de expectativas.
quarta-feira, 27 de julho de 2016
Michel Houellebecq e Submissão
Em Submissão, o que o Michel Houellebecq faz é mostrar (na verdade o livro é todo uma insinuação) que, ao contrário do que possa parecer, não é o terrorismo, mas o tal "islã pacífico" que põe em risco nosso modo de vida e que, com ações e articulações políticas das mais indecentes e não raras vezes contrárias à própria fé do Profeta (justificadas pelo fim ideal a que visam na própria doutrina islâmica, pois o islã não tem lá tantas preocupações com quanto a parecer hipócrita), o islã "moderado" se beneficia como nenhum outro grupo, herdando todo o capital político, que o estado de letargia que o avançar do politicamente correto no meio cultural provoca.
O terrorismo é parte da estratégia, é a ponta de lança, que desvia o foco, pelo horror dos ataques. A mídia é absolutamente incapaz de avaliar a situação porque é a principal responsável por disseminar o discurso, é parte — talvez inconsciente, talvez não — da estratégia, a classe jornalística inteira é marcada por uma ignorância enciclopédica, uma incapacidade atroz de analisar o quadro geral.
Sobre questões menores, eu ainda não sou capaz de fornecer explicações que pessoalmente me satisfaçam, venho estudando o assunto. Por exemplo: a colaboração de terroristas para a estratégia geral do islã moderado é consciente? Ou o terrorismo é um cão raivoso que os "moderados" têm sob controle apenas muito parcialmente? Me parece ser afirmativa a segunda questão. De onde vem o dinheiro que financia grupos terroristas? Para mim, esta é um tanto óbvia: vem principalmente de alas consideradas moderadas do islã, talvez as chamadas petromonarquias árabes a que Houellebecq fala, até porque esses grupos terroristas, até onde sei, sobrevivem principalmente da venda de petróleo no mercado negro (alguém precisaria fornecê-lo e comprá-lo...).
Houellebecq tira um tremendo sarro das feministas quando imagina um mundo de mulheres submissas (islã significa submissão, donde se tira o título do livro), aos 15 anos tendo de se casarem com homens asquerosos muito mais velhos, "no limite da higiene", reduzidas a objetos sexuais de fazer um homem decente vomitar (foi nos mercados árabes que a indústria do sexo encontrou o seu oásis), condicionadas, desde a infância, para essa condição de degradação humana sem limites. A mensagem é clara: as mulheres, no Ocidente, não fazem ideia do flagelo que é o islã, muito especialmente as francesas por quem François se envolve. Tudo isso transpassado pela crítica mais ou menos justa das mulheres ao patriarcado da sociedade ocidental cristã. O autor é um gozador terrible, mas o perigo da questão demográfica na França é absolutamente real e apavorante.
Essa é uma das mensagens ocultas do livro. É evidente que iam chamar Houellebecq de machista, mas sendo o livro inteiro uma denúncia, como poderia o autor, que é quem está fazendo a denúncia, ser machista? Ele denunciaria o próprio machismo? Somente um crítico no limite do analfabetismo funcional para supor semelhante coisa! Aliás, consiste exatamente em parecer que não faz nada demais a genial arte burlesca do insulto que Houellebecq soube desenvolver tão bem. Seu estilo é ótimo!
Machista? Talvez até seja, em algum sentido de sua vida íntima, mas para o livro isso não importa em absolutamente nada! A intenção, na acusação dos críticos, é claramente um apelo ao chavão para inibir o grande público dessas temíveis 250 páginas (estratégia essa absolutamente fracassada, dado o imenso sucesso da obra mundo a fora). Houellebecq não é François, nem nenhum outro personagem, embora, como em todos os casos, seja também todos eles. François é um professor universitário e na última página do livro, o autor admite que nunca pisou numa universidade! O livro é também uma feroz sátira da vida acadêmica, onde o autor apenas demonstra desprezo pela academia e nada mais. Houellebecq é um homem-bomba. Só. É um louvável (embora com cara de maluco) e dos mais atuantes combatentes na guerra cultural em que vivemos. Seu livro já nasceu clássico!
Filosofia e culturalismo
Alguém que procure entender os fenômenos culturais precisa, antes, se despir o máximo possível dos valores culturais em si mesmo, na tentativa de olhar os edifícios culturais existentes desde cima. A cultura é todo um mundo, uma visão de mundo.
A filosofia, definida como o amor à sabedoria, não tem, portanto, como fugir do rótulo de acultural. Da mesma forma, o filósofo não pode ser, num primeiro momento, nem moralista e nem imoral, mas sim amoral, tendo em vista a sua natureza de indivíduo comprometido não com um conjunto determinado de valores, nem mesmo valores religiosos, mas com a busca da verdade.
O sujeito olhar a cultura islâmica, por exemplo, do ponto de vista de um pequeno burguês, nascido e criado num ocidente edificado sob valores culturais tipicamente cristãos e, mais atualmente, laicos, é um erro metodológico dos mais crassos.
domingo, 10 de julho de 2016
Kant e os limites do conhecimento
Um exemplo é você dizer que "um quadrado tem quatro lados". Esse é um exemplo de conhecimento puro, a priori, no entendimento de Kant independente da experiência. Esse conhecimento é necessário porque é inconcebível um quadrado de outra maneira e é universal pela mesma razão, quero dizer, nenhum quadrado que de fato exista pode prescindir de ter quatro lados na sua composição formal. Porém, para que pudéssemos afirmar, como na frase, que um quadrado tem quatro lados, teríamos que, necessariamente, já ter "experimentado" um quadrado ao menos uma vez na vida, experimentado no sentido de ver, por exemplo. É por isso que coloquei o independente entre aspas também, pois no final das contas, ele não é tão independente assim e todo o conhecimento puro seria, portanto, dependente da experiencia de alguma maneira e na principal de todas, isto é, na que condiciona a existência da coisa.
Percebam, no entanto, que a frase "um quadrado tem quatro lados" nada acrescenta ao conceito de quadrado, quero dizer, o predicado já está contido no sujeito e é por isso que se diz que o conhecimento puro é um conhecimento meramente formal, que não avança, que é estático, nada tira e nada acrescenta aos seres e às coisas.
A proposta primeira de Kant é investigar os limites do conhecimento, até onde o conhecimento pode ir. O conjunto de Kant me parece recheado de contradições e acho que já expus algumas das minhas razões para pensar assim. 1º) É contraditório falar de um conhecimento que surge independente da experiência quando, sem um mínimo de suporte que seja na experiência ele não poderia sequer existir. 2º) E é contraditório dizer também que é possível acessar ao conhecimento da coisa quando o conhecimento se dá de tal forma analítica que beira à redundância e ao tautológico.
E por que eu falei da visão que as religiões tradicionais tem da existência? Por que todas elas, indistintamente dialogam com planos de realidade que, no arcabouço teórico de Kant, seriam absolutamente inacessíveis pela via do conhecimento e, portanto, são falsos! Para corroborar o que eu digo eu chamo a atenção para o fato de que aquilo a que Kant se refere como sendo metafísica é algo completamente díspar da metafísica tradicional. Ele criou uma outra coisa e deu a ela o nome de metafísica. É um falso silogismo.
sexta-feira, 8 de julho de 2016
C.S. Lewis e a Abolição do Homem
segunda-feira, 4 de julho de 2016
Economia, cultura e religião
sábado, 11 de junho de 2016
Vitória militar, política e a História.
Se isso é verdade, como que os alemães, 20 anos depois, tinham a mais poderosa das forças aéreas do mundo e, com tanta força, foram capazes de impor novamente tanto terror? Aquilo não foi a paz e nem a vitória, foi um armistício de 20 anos. Não houve uma primeira e uma segunda guerra, mas uma guerra só. Eu poderia explicar, mas, por ora, vamos deixar só a pulga atrás da orelha. Os Aliados não venceram em 18! Os americano sim, venceram, de fato, a guerra contra o Império Japonês em 45. Sabem como? Com duas bombas atômicas! Não jogaram nenhuma bomba atômica no Vietnã e perderam também, porque logo após a "vitória", a desocupação, os vietcongues tomaram o país. Até hoje os americanos dizem que venceram a guerra, fazem uma propaganda danada, choram e expõem os seus heróis mutilados, mas que raio de vitória foi essa? A guerra se passou no Vietnã e os vietnamitas sabem bem quem de fato venceu.
Eu poderia dar vários outros exemplos, como o Iraque, mas que tal um exemplo nacional? O Brasil venceu a Guerra do Paraguai. Por quê? Porque soube, àquele momento, impor sua narrativa dos fatos e, desde então, nunca mais houve conflitos do Brasil com nenhum outro país do continente. Nenhum outro país do continente nega a liderança que o Estado brasileiro exerce na região. A vitória não se deu com o fim do conflito armado, a vitória se deu com a imposição da narrativa histórica! Essa é uma tese que eu tenho e que posso provar com uma imensa facilidade, com diversos exemplos, desde a Antiguidade. Por exemplo: os Romanos derrotaram os cartaginenses? Sim, mas a vitória demorou quase um século e meio e, ao final, os romanos tiveram que aniquilar Cartago, pois não havia jeito de submeter o povo, tiveram que destruí-lo! Maquiavel já alertava para o fato de que os homens se vingam das ofensas leves, mas que nada podem fazer quanto às graves.
Os generais até podem entender da arte da guerra, mas são os estadistas quem de fato aplanam o caminho para a paz ou para a própria guerra em que os generais darão a vida. No primeiro caso, foi assim com Winston Churchill; no segundo, foi assim com Adolf Hitler.
Mas nada disso responde uma pergunta crucial: que seria, então, um estadista?
terça-feira, 7 de junho de 2016
A definição de Deus
segunda-feira, 6 de junho de 2016
Monteiro Lobato por Abreu Sodré e o mal da justiça humana
(Roberto Abreu Sodré, No Espelho do Tempo, Meio Século de Política, 1995, p. 51)
domingo, 5 de junho de 2016
Política: história, religião, moral e cultura
Quando esse negócio começou? Eu ainda não sei bem, mas me parece que está na gênese do chamado Estado Moderno, o Estado como grande Leviatã, aquele que produz o homem artificial, o homem que não é mais produto do gênio divino, o homem como uma obra de arte a ser acabada. A origem remonta os fins do século XIV. Maquiavel, por exemplo, ao que me parece, foi o primeiro a perceber algo muito importante: quem controla a moral, controla a política, controla cultura e, certamente até por isso, a Igreja passou a ser a inimiga numero um de todos os governantes desde então. Mas a Igreja não controlava a moral, pois a moral era dada pelas próprias bases cristãs do Ocidente, isto é, pelo Cristianismo propriamente dito e a prova maior disso foi que com a Reforma Protestante, muito dessa base cristã continuou a existir mesmo sem a Igreja Católica. É por isso que em Max Weber é possível se falar de uma ética protestante do capitalismo, que na verdade não é protestante, mas propriamente cristã, que dá origem ao Estado e à economia liberal (A Riqueza das Nações não é a principal obra de Smith, mas, sim, A Teoria dos Sentimentos Morais). A pré-história do liberalismo econômico, com todos os seus méritos, pode ser facilmente rastreada em autores cristãos, escolásticos e, mais precisamente, da Escola de Salamanca, no chamado "Seculo de Ouro Espanhol", com autores como o padre jesuíta Juan de Mariana.
Desde a Renascença, a Igreja Católica não mais perdeu o posto de bode expiatório de todos os males da humanidade, passando a existir, para alguns, apenas como um posto de resistência ao moralismo modernista em todas as suas vertentes, cujo mais atual é o chamado politicamente correto.
sexta-feira, 3 de junho de 2016
A questão do recrudescimento de penas como política pública (esboço)
Isso não é política de segurança pública, é demagogia pura e simples. São pessoas pensando com o figado, sedentas por sangue e vingança. Não é solução. Nunca será. A classe política tenta surfar nessa onda para ver se consegue uns votinhos a mais na eleição seguinte.
A luta feminista
O Boko-Haram tem como prática recorrente o sequestro de meninas, na África, como forma de dominação. As coitadas são escravizadas e passam o resto da miserável vida delas sendo estupradas. O Boko-Haram afirma que a educação ocidental, cristã ou, como eles preferem, "não-islâmica", é um pecado.
Eu sou absolutamente favorável à luta feminista, em certo sentido, eu só não entendo porque o discurso feminista parte sempre de uma criminalização dos valores judaico-cristãos nos quais se baseiam toda a Civilização do Ocidente. Se eu fosse mulher, certamente procuraria ingressar na luta feminista, por direitos, mas, até por isso mesmo, me voltaria, primeiramente, contra o feminismo radical, que desvirtua o movimento que pode, sim, ser absolutamente legítimo e necessário. Em que outra sociedade as mulheres foram tão valorizadas? Existe o machismo? Sim, é claro que sim. É legítima a luta contra o machismo? Sim, é claro que sim também. Mas em que consiste o machismo, odiento e ainda existente na sociedade Ocidental? Seria, mesmo, uma boa tática tentar minar as bases sociais do Ocidente para combater o machismo? Descartar a criança junto com a água suja?
quinta-feira, 2 de junho de 2016
Ser distinto
(Trecho do livro Os Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister, de J. W. Goethe)
sexta-feira, 13 de maio de 2016
Ciro Gomes e a Lei Rouanet
segunda-feira, 9 de maio de 2016
Renúncia
Tentar curtir sem queixa o mal que te crucia:
O mundo é sem piedade e até riria
Da tua inconsolável amargura.
Só a dor enobrece e é grande e é pura.
Aprende a amá-la que a amarás um dia.
Então ela será tua alegria,
E será ela só tua ventura...
A vida é vã como a sombra que passa
Sofre sereno e de alma sombranceira
Sem um grito sequer tua desgraça.
Encerra em ti tua tristeza inteira
E pede humildemente a Deus que a faça
Tua doce e constante companheira...
Manuel Bandeira
domingo, 8 de maio de 2016
Sobre a caridade
(Dt 6, 5)
De todas as coisas, só uma é de fato bela: a caridade. O cristianismo é isso, é a religião da caridade, é a religião do outro que sofre. Por mais que se busque em todas as outras religiões do mundo (vide a Enciclopédia de Religião e Ética), não se encontrará semelhante conceito ou valor. Em nenhuma! O que importa para nós é entender a razão, o porquê. Por que é assim? É assim porque o mundo é feio e malvado. E não será jamais bonito e bom, pois se algum dia viesse a ser, não haveria razão nenhuma para nós nos compadecermos, como nos compadecemos, com aqueles que sofrem e que ainda vão sofrer, inevitavelmente vão sofrer.
As pessoas precisam entender isso muito bem para serem cristãs: este mundo não tem solução. Não há como esperar pelo melhor. Temos, isso sim, que nos preparar para o sofrimento, para o pior, para a dor e buscar, por isso mesmo! -- porque o sofrimento e a dor são a regra deste mundo --, ajudar ao próximo, como quem ajuda a um companheiro que se encontra na mesmíssima canoa furada e que nos fará companhia, quando a canoa afundar, até o estuário do rio.
Odeiem as demagogias, políticas e discursos que prometem soluções ainda que de longuíssimo prazo e por mais evanescentes que sejam. Preparem suas vidas e suas almas para a Vida Eterna, para estarem na presença de Deus e, assim e só assim, tudo terá valido a pena. A vida do cristão e por conseguinte dos filósofos e sábios, é uma constante preparação a morte. A oração da Ave Maria, o Pai-Nosso, o nosso bê-a-bá, clamamos, suplicamos pela estadia no Reino de Deus e não pelo destino comum de todos os corpos putrefatos entre os cascalhos.
Ser cristão é aprender a morrer e ansiar pela hora da morte como Santo Agostinho ansiou. Não encarem a morte com tristeza: encarem-na com alegria! Quem sabe que existe um Deus bom e justo e que nele pode confiar, nada tem a temer. Todo medo, qualquer dos medos que se tenha, é um sinal eminente de fraqueza na Fé, de desesperança em Deus. Os repreenda e faça em sinal de fé! Se tiver medo de qualquer coisa, qualquer coisa!, faça! Não é fácil, eu sei, mas uma vida grandiosa depende de tentarmos, pelo menos. Tenham confiança em Deus da mesma forma que têm quando entram num elevador. Ninguém entra num elevador se duvidar, por menor que seja a dúvida, que ele possa despencar. Quem encara a morte com triste e lamento, não é bom cristão: pais que perderam os filhos, filhos que perderam os pais, irmãos que perderam irmãos... Enterrem-nos! A vida só pertence a Deus.
A religião não é um conforto, algo que console, um anestésico, uma boia que você deva se agarrar para não morrer afogado. Você vai morrer afogado de qualquer maneira! A questão também não é o fato inquestionável de que você vai morrer. (Você achou que fosse acontecer o quê? Virar uma borboleta?) Olhe para os seus pais: eles irão morre! Pais, olhem para os seus filhos: eles também vão morrer! O natural é que os pais morram primeiros, mas quem é que sabe? Pais: eduquem seus filhos para o céu! Filhos: queiram estar no céu com seus pais!
Para essas dores, as dores da vida, não existem remédios, apenas alguns subterfúgios malignos que prometem aliviá-las. Não vão aliviar! As dores da vida não têm remédio porque não são doença, mas, sim, sintomas, sintomas de uma vida afastada de Deus. Se dói, é porque ainda se sente. E se se sente é porque sua alma ainda está presa a este mundo. Presa a esta vida de merda porque você não está preparado para a morte, não está preparado para se encontrar na presença de Deus, não é digno de Deus.
Tornem-se dignos! Sejam dignos! A vida depende disso.
sexta-feira, 29 de abril de 2016
O liberal, a eficiência e a caridade
sábado, 23 de abril de 2016
A instabilidade das coisas do mundo
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.
Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?
Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.
Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.
Gregório de Matos
sexta-feira, 22 de abril de 2016
Impressões sobre a filosofia de José Ortega y Gasset
Diz o Ortega que o homem não tem natureza, tem história. Isso significa que aquela perene questão filosófica sobre a natureza humana não faz tanto sentido ao final de contas. A pegunta "que sou?" se depreende dos fatos narrados sistematicamente sobre a própria história de vida, e a verdade, na vida, consiste em manter-se fiel à própria história, ao próprio ponto de vista, a perspectiva absolutamente única e unicamente (!) verdadeira com que a encaramos. A liberdade do homem se justifica, por exemplo, pelo fato de que carece o homem de identidade constitutiva, por ser, ser inconcluso. Para Deus, um ser perfeito, a liberdade seria algo absolutamente inútil, despropositada, pois Deus nada precisa escolher, nada precisa ser. Deus é aquele que é, enquanto o homem, imperfeito, que arrasta pela vida os sinais de seu fracasso e de sua miséria, ainda busca o ser que parece sempre inatingível, como no rio da vida de que falava Heráclito.
A critica de Ortega aos utopistas é muito contundente. Ele diz que a única perspectiva falsa é a que se pretende única e que a perspectiva do utopista não é sequer uma perspectiva, pois esta pressupõe estar-se a observar numa certa localização espacial, presente também no tempo. Erra o utopista porque o seu credo não se situa, nem no passado, nem no futuro, sendo essa a razão de sempre incorrerem em trágicos erros, por não se manterem fieis ao seu ponto vista.
Ortega é um magnânimo pensador!
segunda-feira, 11 de abril de 2016
Os idiotas da objetividade, por Nelson Rodrigues
Mas tinha a compensação da glória. Quem redigia um atropelamento julgava-se um estilista. E a própria vaidade o remunerava. Cada qual era um pavão enfático. Escrevia na véspera e no dia seguinte via-se impresso, sem o retoque de uma vírgula. Havia uma volúpia autoral inenarrável. E nenhum estilo era profanado por uma emenda, jamais.
Durante várias gerações foi assim e sempre assim. De repente, explodiu o copy desk. Houve um impacto medonho. Qualquer um na redação, seja repórter de setor ou editorialista, tem uma sagrada vaidade estilística. E o copy desk não respeitava ninguém. Se lá aparecesse um Proust, seria reescrito do mesmo jeito. Sim, o copy desk instalou-se como a figura demoníaca da redação.
Falei no demônio e pode parecer que foi o Príncipe das Trevas que criou a nova moda. Não, o abominável Pai da Mentira não é o autor do copy desk. Quem o lançou e promoveu foi Pompeu de Sousa. Era ainda o Diário Carioca, do Senador, do Danton. Não quero ser injusto, mesmo porque o Pompeu é meu amigo. Ele teve um pretexto, digamos assim, histórico, para tentar a inovação.
Havia na imprensa uma massa de analfabetos. Saíam as coisas mais incríveis. Lembro-me de que alguém, num crime passional, terminou assim a matéria: — “E nem um goivinho ornava a cova
dela”. Dirão vocês que esse fecho de ouro é puramente folclórico. Não sei se é e talvez seja. Mas saía coisa parecida. E o Pompeu trouxe para cá o que se fazia nos Estados Unidos — o copy desk.
Começava a nova imprensa. Primeiro, foi só o Diário Carioca; pouco depois, os outros, por imitação, o acompanharam. Rapidamente, os nossos jornais foram atacados de uma doença grave: — a objetividade. Daí para o “idiota da objetividade” seria um passo. Certa vez, encontrei-me com o Moacir Werneck de Castro. Gosto muito dele e o saudei com a mais larga e cálida efusão. E o Moacir, com seu perfil de lord Byron, disse para mim, risonhamente: — “Eu sou um idiota da objetividade”.
Também Roberto Campos, mais tarde, em discurso, diria: — “Eu sou um idiota da objetividade”. Na verdade, tanto Roberto como Moacir são dois líricos. Eis o que eu queria dizer: — o idiota da objetividade inunda as mesas de redação e seu autor foi, mais uma vez, Pompeu de Sousa. Aliás, devo dizer que o copy desk e o idiota da objetividade são gêmeos e um explica o outro.
E toda a imprensa passou a usar a palavra “objetividade” como um simples brinquedo auditivo. A crônica esportiva via times e jogadores “objetivos”. Equipes e jogadores eram condenados por falta de objetividade. Um exemplo da nova linguagem foi o atentado de Toneleros. Toda a nação tremeu. Era óbvio que o crime trazia, em seu ventre, uma tragédia nacional. Podia ser até a guerra civil. Em menos de 24 horas o Brasil se preparou para matar ou para morrer.
E como noticiou o Diário Carioca o acontecimento? Era uma catástrofe. O jornal deu-lhe esse tom de catástrofe? Não e nunca. O Diário Carioca nada concedeu à emoção nem ao espanto. Podia ter posto na manchete, e ao menos na manchete, um ponto de exclamação. Foi de uma casta, exemplar objetividade. Tom estrita e secamente informativo. Tratou o drama histórico como se fosse o atropelamento do Zezinho, ali da esquina.
Era, repito, a implacável objetividade. E, depois, Getúlio deu um tiro no peito. Ali estava o Brasil, novamente, cara a cara com a guerra civil. E que fez o Diário Carioca? A aragem da tragédia soprou nas suas páginas? Jamais. No princípio do século, mataram o rei e o príncipe herdeiro de Portugal. (Segundo me diz o luso Álvaro Nascimento, o rei tinha o olho perdidamente azul.) Aqui, o nosso Correio da Manhã abria cinco manchetes. Os tipos enormes eram um soco visual. E rezava a quinta manchete: “HORRÍVEL EMOÇÃO!”. Vejam vocês: — “HORRÍVEL EMOÇÃO!”.
O Diário Carioca não pingou uma lágrima sobre o corpo de Getúlio. Era a monstruosa e alienada objetividade. As duas coisas pareciam não ter nenhuma conexão: — o fato e a sua cobertura. Estava um povo inteiro a se desgrenhar, a chorar lágrimas de pedra. E a reportagem, sem entranhas, ignorava a pavorosa emoção popular. Outro exemplo seria ainda o assassinato de Kennedy.
Na velha imprensa as manchetes choravam com o leitor. A partir do copy desk, sumiu a emoção dos títulos e subtítulos. E que pobre cadáver foi Kennedy na primeira página, por exemplo, do Jornal do Brasil. A manchete humilhava a catástrofe. O mesmo e impessoal tom informativo. Estava lá o cadáver ainda quente. Uma bala arrancara o seu queixo forte, plástico, vital. Nenhum espanto da manchete. Havia um abismo entre o Jornal do Brasil e a tragédia, entre o Jornal do Brasil e a cara mutilada. Pode-se falar na desumanização da manchete.
O Jornal do Brasil, sob o reinado do copy desk, lembra-me aquela página célebre de ficção. Era uma lavadeira que se viu, de repente, no meio de uma baderna horrorosa. Tiro e bordoada em quantidade. A lavadeira veio espiar a briga. Lá adiante, numa colina, viu um baixinho olhando por um binóculo. Ali estava Napoleão e ali estava Waterloo. Mas a santa mulher ignorou um e outro; e veio para dentro ensaboar a sua roupa suja. Eis o que eu queria dizer: — a primeira página do Jornal do Brasil tem a mesma alienação da lavadeira diante dos napoleões e das batalhas.
E o pior é que, pouco a pouco, o copy desk vem fazendo do leitor um outro idiota da objetividade. A aridez de um se transmite ao outro. Eu me pergunto se, um dia, não seremos nós 80 milhões de copy desks? Oitenta milhões de impotentes do sentimento. Ontem, falava eu do pânico de um médico famoso. Segundo o clínico, a juventude está desinteressada do amor ou por outra: — esquece antes de amar, sente tédio antes do desejo. Juventude copy desk, talvez.
Dirá alguém que o jovem é capaz de um sentimento forte. Tem vida ideológica, ódio político. Não sei se contei que vi, um dia, um rapaz dizer que dava um tiro no Roberto Campos. Mas o ódio político não é um sentimento, uma paixão, nem mesmo ódio. É uma pura, vil, obtusa palavra de ordem.
(Publicado no jornal O Globo em 22 de fevereiro de 1968)
Política e princípios
domingo, 10 de abril de 2016
O conceito de liberdade
Esse é um problema filosófico sério! A utilidade de uma coisa, como a da liberdade, não compreende a essência, a definição, o conceito. É justo o contrário! A definição, o conceito é que compreende a finalidade e, inclusive, o além. O mesmo vale para qualquer outra coisa. A religião, por exemplo, o que é religião? O mestre Miguel Reale tem uma frase que eu gosto muitíssimo: "Na arvore do conhecimento, os conceitos se equivalem aos frutos maduros". Eu tenho uma definição de liberdade! Liberdade é a ausência de necessidade ou, melhor dizendo, a contingencia de ser. O ser humano, por tanto, é livre para tudo que a NECESSIDADE não lhe impõe. Necessidades fisiológicas, por exemplo, tolhem a liberdade dos indivíduos. A própria estrutura da realidade cerceia a liberdade em inumeráveis casos. Por exemplo: eu não sou "livre" para pular da janela do apartamento em que moro (que a propósito se situa no 8º andar). Nem "livre" para tomar de canudinhos um frasco de veneno. Liberdade ilimitada, portanto, não apenas é uma estupidez, mas uma impossibilidade, pela própria contingência de ser.
Muitos diriam que eu sou sim livre para me matar, tomando o frasco de veneno ou pulando da janela. Mas que raio de liberdade seria essa que vai contra a necessidade mais elementar dos seres que é a de se manterem vivos? Muitos podem ainda dizer que o meu conceito é, portanto, insuficiente. Ok, pois que apresente outra definição capaz de apreender todo o fenômeno concreto do ser de ser livre. Se matar é uma negação da liberdade, pois manter-se vivo é necessário ao ser humano inclusive para que este possa vivenciar a liberdade. Mas não seria possível abdicar da liberdade? Bem, para isso supõe-se a liberdade e, mais ainda, supõe-se a empresa consciente de um indivíduo livre e que este indivíduo decida, pois em caso contrário, teríamos ai uma boa justificativa para a escravidão, a dominação do homem pelo homem, por exemplo, não é? É muito perigoso esse pensamento! Não significa, toda via, que não possa ser verdadeiro. Será que um homem não poderia, por exemplo, sujeitar-se à morte, como por uma pessoa amada? Sim, mas por que faria? A resposta é uma só: por necessidade, não por nenhuma outra razão. A morte também pode ser necessária em alguns casos, como aliás é no maior de todos os casos: a vida.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016
Sobre o conceito de cultura e o relativismo cultural
Cultura também deriva de culto, já que citamos os "homens cultos". O problema é que cultuar alguma coisa exige, antes, um senso de importância bastante elevado. Deus, por exemplo, é digno de culto, no sentido que determina o primeiro mandamento da Lei: o de amá-lO acima de todas as coisas. O culto a Deus, para aquele que nEle crê, é claro!, é o mais importante. Porem outras coisas também são dignas de culto, mas, para bem cultuá-las, é preciso um sentido de hierarquia (como cultivar belas flores entre ervas daninhas?). Eu não posso prestar culto ao samba da mesma forma que presto culto à música clássica. Se eu não tenho o sentido de que o melhor dos sambas ainda é pior que a 9ª Sinfonia de Beethoven, é sinal de que a coisa vai muito mal. Essa falta de sentido é que acaba com tudo. Por isso o homem culto é um paspalho, não por ser culto, é claro!, mas por cultuar uma série de coisas e expressões das mais baixas e muitas vezes até vis. Em suma: uma cultura de merda!
(O grande problema da cultura, penso eu, é também parte do problema da virtude na modernidade. Escrevi sobre esse problema no post anterior.)
Outro empecilho à boa cultura é o relativismo estético e moral. Se cultuar exige um senso de hierarquia, é necessário haver valores objetivos a se determinar para que possamos seguir em frente ou, no caldeirão da mediocridade, tudo tende a se nivelar por baixo. O relativismo cultural elimina todas as expectativas de um futuro grandioso, abortando a capacidade criativa do espírito, pois esta sequer tem a chance de se desenvolver. Nossa única esperança é a de nos envolver em misérias sem fim.
terça-feira, 16 de fevereiro de 2016
A questão da virtude na Filosofia Moderna
Aristóteles começa assim sua Ética: "Toda arte e toda investigação, bem como toda ação e toda escolha, visam a um bem qualquer; e por isso foi dito, não sem razão, que o bem é aquilo a que todas as coisas tendem."
Não é absolutamente óbvio, será que não está, sem nenhuma sobra de dúvidas, subentendido na primeira frase (!) que, para o Filósofo, antes das artes e das investigações, das ações e das escolhas, importa muito mais a questão do bem? Ou é isso ou eu não sei ler! Aliás, não há o que discutir, o primeiro livro da Ética a Nicômaco tratará apenas dessa questão e somente a partir do segundo livro é que o Estagirita irá se debruçar sobre questão da natureza dos atos.
Quando Descartes, o fundador da filosofia moderna, diz, por exemplo, "penso, logo existo", o eu, isto é, o eu que pensa, pois eu penso, permanece inalterado ao fim da sentença, é um clássico non sequitur. Se EU penso e se por EU pensar EU existo, então a conclusão não segue à premissa pelo fato de que o EU já estava subentendido desde o começo, isto é: o Eu pensa! Onde foi parar a tal da "dúvida metódica" de René Descartes principalmente nessa questão do Eu? O edifício filosófico em que se assenta sua filosofia se esvai, some como fumaça no ar!
Antes do pensar, interessa o Eu, pois é o Eu quem pensa, como ele mesmo afirma. E, para esse problema, pelo que conheço da filosofia de Descartes, ele incrivelmente não apresenta nenhuma solução! Que diabos se passa com os filósofos modernos? Não faço ideia. Como uma mente tão genial como a de Descartes pôde ter deixado passar um problema tão, tão tolo e evidente que salta aos olhos do observador atento? Podem me chamar de arcaico, se quiserem, eu apenas me interesso em estar certo e acho que estou. Na realidade, o que digo não foi primeiramente notado por mim, mas outros muito maiores do que eu.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016
A Filosofia e o conhecimento da realidade
E os filósofos, os únicos que entendem a realidade, como ensina Giovanni Reale, "são importantes não só pelo que dizem, mas pelas tradições que geram e põem em movimento: algumas de suas posições favorecem o nascimento de algumas ideias, mas, juntas, impedem o nascimento de outras. Portanto, os filósofos são importantes quer pelo que dizem, quer pelo que evitam que se diga".
Ao contemplar o todo, eles mudam necessariamente todas as perspectivas usuais, mudam a visão do significado da vida do homem e impõem uma nova hierarquia de valores. Em resumo, a verdade infunde uma enorme energia moral. Foi com base nessa energia moral que Platão, por exemplo, quis construir o seu Estado ideal e o Ocidente apenas pôde ser grande pela força do espírito de homens como Aristóteles, sendo que entrou em declínio justamente com o advento de uma nova perspectiva do problema lógico, impulsionado principalmente pela crítica kantiana e a dialética de Hegel.
Entender que tudo que permanece se constrói apenas pela força do espírito e das ideias que dele emanam é elementar e nada se entende sem levar isso em consideração. Se você não compreende tamanha obviedade, está perdido no mundo da lua! Acompanhe as discussões públicas, o progresso científico e técnico pelo qual passamos nos dois últimos séculos. Nada surge do nada. A modernidade é soberba e fadada ao fracasso porque se recurso a olhar para trás.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2016
Fé e Ciência Moderna
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016
Mircea Eliade: ser homem
(Trecho do livro Historia de las Creencias Religiosas, Vol. 1, Mircea Eliade, Ed. Paidós)
Comentários e estudos de história da Reforma Anglicana
"Se eu tivesse servido a Deus com metade da diligencia com que servi ao Rei, Deus não me teria deixado a morrer aqui."
O Cardeal Wolsey, depois de ter feito de tudo (inclusive usando de artifícios indevidos) para que a Igreja reconhecesse a relação concubinária do Rei Henrique VIII acabou, quando não obteve sucesso na empreitada, morrendo na mais absoluta desgraça.
O que aconteceu com a Inglaterra no século XV e XVI é muito impressionante, mas também o momento foi tempestuoso e controverso para a própria Igreja Católica. O Renascimento, como um todo, me parece um período de declínio civilizacional. Roma feriu profundamente o sentimento nacionalista do povo ingleses ao decidir manter sua posição inalterada no caso do Rei Henrique VIII e de sua Rainha Catarina de Aragão. Os ingleses haviam visto a maneira escandalosamente arbitrária com que agiu o Papa Alexandre VI, Rodrigo Bórgia, no caso do divorcio do Rei da França, Luís XII. Luís XII de França era, inclusive, concunhado de Henrique VIII. Sem dúvidas as ações de Rodrigo contribuíram e muito para que a imagem da Igreja acabasse abalada, em menor e maior grau a depender de onde fosse, em todos os reinos da Europa. [Rodrigo Bórgia merece um estudo posterior mais aprofundado.] Eu realmente não sei o que pensar e quanto mais leio mais confuso acabo ficando (eu já havia experimentado sentimento parecido ao estudar o renascimento italiano, principalmente a partir da obra do Jacob Burckhardt). Não sei se gosto, não sei se desgosto do Cardeal Wolsey, por exemplo. Tem momentos que eu acho que o entendo, pois ele viu na anulação do casamento do rei uma chance de salvar a fé católica na Inglaterra, mas tem vezes que defendê-lo é impossível.
Que demônio também não foi aquela tal de Ana Bolena! A amante de Henrique VIII, pivô de toda a confusão, é uma das mulheres mais impressionantes da história. Até na hora de morrer foi capaz de causar os piores sentimentos em toda a corte. Naquela época, por exemplo, os carrascos usavam machados nas execuções, o condenado ou condenada, como no caso, colocava a cabeça inclinada sobre uma espécie de tora e então dali, com um único golpe desferido na nuca, a cabeça rolava para frente, como se pode imaginar. Ana, ciente do procedimento, enviou uma carta ao rei pedindo um carrasco francês, que usava espada em vez de machado porque, segundo ela mesma, uma rainha jamais abaixava a cabeça para os seus súditos. Imagino a reação de toda a corte que dela, definitivamente, já não tinha o melhor juízo. O rei, impressionado com o pedido, acabou acatando (certamente, ele ainda conservava algum tipo de afeto por ela). (O filme A Outra, que conta a história de Ana, interpretada pela linda Natalie Portman, é bem mais ou menos e mais para menos, eu diria, pois tem uma porção de erros tolos, mas ainda sim vale a pena assistir. Foi baseado num livro de uma tal Philippa Gregory. Um ponto, em particular, de que eu não gostei no filme é justamente quando Ana se coloca diante do carrasco toda se tremendo. Eu não consigo imaginá-la tremendo e em prantos nem mesmo na hora final! Existem relatos de que ela, inclusive, teria olhado nos olhos do carrasco, indicado o pescoço com as mãos com grande delicadeza e, serenamente, dito: "É pequeno, muito pequeno, não é verdade?" Naquela época, as mulheres nobres e casadas ocultavam, algumas mais e outras menos, o pescoço, não sei ao certo o motivo, talvez por modismo ou mesmo por puro recato. Isso é engraçado particularmente no caso de Ana, que foi acusada até de incesto, por se relacionar intimamente com o próprio irmão. Definitivamente, eu acho que ela morreu sem derramar uma única lágrima.)
Já sobre São Thomas More o que exatamente eu posso dizer? Deus do céu! Que grande homem! Descobri um novo modelo de ser humano que sem dúvida nenhuma vou levar para o resto da minha vida. Quem me dera um dia poder ser tão brilhante quanto ele foi, ser um pai e um marido como ele foi, ter um quinto do seu vigor moral, da sua fé, da sua força e, enfim, de tudo. Além de tudo, ele é um grande padroeiro, me parece, de nós advogados e futuros advogados. (Tem um filme sobre São Thomas More que é muito, muito bom: A Man for all Seasons, que eu traduziria como "Um homem de todas as épocas" ou, talvez, "estações", mas a empresa que distribuiu o filme no Brasil preferiu "O homem que não vendeu sua alma", titulo que eu não gostei muito. São Thomas More morre como um mártir católico, defensor intransigente de sua fé. No filme, diversos momentos são intensamente comoventes. Descobri também que tem uma série sobre esse período da dinastia de Henrique VIII que se chama The Tudors, mas eu ainda não assisti. É projeto para as férias.)
Na história da reforma anglicana, sem dúvidas, um capitulo fundamental é a mudança da coroa da Dinastia Tudors para a Casa de Stuart, marcado pela União das Coroas no reinado de Jaime VI e I, Rei da Inglaterra, Escócia e Irlanda. Após a fundação da Igreja da Inglaterra, a disposição ou configuração da igreja se manteve praticamente inalterada. Foi assim durante todo o período de regência da Dinastia Tudors. A igreja era, talvez possamos dizer, católica em praticamente tudo e apenas não reconhecia a autoridade do Bispo de Roma, havia rompido relações com a Santa Sé. Com James VI e I, a coisa muda. Isabel I de Inglaterra, filha de Henrique VIII e Ana Bolena, por não ter herdeiros, é a última soberana Tudors, assumindo o trono o Rei da Escócia, Jaime VI, que ao unir as coroas viria a ser também Jaime VI e I. A Escócia de Jaime é também o berço da vertente calvinista do protestantismo inglês, levada para lá por um certo John Knox, que foi discípulo do próprio João Calvino em Genebra e também um precursor do chamado presbiterianismo. Prescindo, ainda, de maiores conhecimentos acerca da formação e das ideias que povoaram o espírito de Jaime, mas creio poder afirmar que foi somente sobre o seu reinado que teve início uma onda de reformas na igreja inglesa. Os protestantes, de maneira em geral, exigiam reformas, mudanças na instituição da igreja nacional e esta acabou em muitos pontos por responder aos anseios. Católicos Romanos foram perseguidos e disputas sangrentas se iniciaram entre os próprios protestantes. Alguns, mais radicais, viriam a fugir da perseguição da parte de seus irmãos também protestantes, buscando, a maioria, refugio na colonia inglesa na América, todos profundamente contrariados com a monarquia absolutista. A bíblia do Rei Jaime é desse período e foi imposta pelo monarca. Era e pretendia ser, em certa medida, uma afirmação da identidade nacional, já que o novo cânon não mais era escrito em latim, mas em língua vulgar, corrente em todos os domínios do rei: o inglês. O tradutor do texto sagrado, o pastor William Tyndale, pretendia que "todo menino de arado" tivesse acesso ao texto, sem o auxílio de nenhum sacerdote pra ajudá-lo a entender. Era um revolta contra o clero. Com a morte de Jaime, quem assume o trono é seu filho, Carlos I. Carlos, pouco após ascender ao trono, firmou casamento com uma princesa católica, Henriqueta Maria de França, o que não foi bem visto por parte da corte composta por protestante radicais também chamados de puritanos, que também gozavam de considerável prestígio na política local. No âmbito externo, a Europa estava em guerra e, com a guerra, a situação financeira se agravou. É preciso destacar que também o apoio do rei à França e ao Reino da Suécia católica, que lutava contra nações protestantes, foi mal visto pelo parlamento, que chegou a classificar a guerra de "cruzada católica". Católicos e protestantes luteranos firmaram acordo, mas os calvinistas não se deram por satisfeitos.
Os ânimos na Inglaterra foram se tornando cada vez mais difíceis de acalmar. Carlos I ainda tentou instaurar uma tirania, passando por cima do parlamento. Ao mesmo tempo, irrompeu um conflito militar no seio da Igreja da Escócia e da Irlanda, conhecido como Guerra dos Bispos. Na Irlanda, Carlo I nomeou um governador que, logo em um dos seus primeiros atos, confiscou as propriedades dos cristãos católicos locais. O resultado foi uma rebelião em outubro de 1641. No memento mais conturbado, os católicos tentaram um golpe, mas o golpe acabou frustado e o resultado foi um horrendo massacre católico contra colonos escoceses e ingleses.
A luta entre católicos e protestantes levaram a Inglaterra a uma Guerra Civil em 1642. Dos lados da batalha estavam católicos irlandeses, os ingleses leais ao rei, protestantes escoceses e as tropas do parlamento sob o comado puritano. Os protestantes venceram e aboliram a monarquia em 1649, passando a Inglaterra a ser uma república governada pelo pastor puritano protestante Oliver Cromwell, que se autodeclarou Lord Protetor da Inglaterra.
Originalmente escrito em 03/12/2015
sexta-feira, 29 de janeiro de 2016
Reflexão inicial sobre a origem das grandes religiões universais
Qual seria, então, a origem? Não vem ao caso. O que afirmo é que, sem nenhuma dúvida, qualquer tentativa de explicar uma grande religião, como o cristianismo, por exemplo, ou o judaísmo, o budismo, o islamismo, por algum desses elementos, fatalmente incorrerá em muitos becos sem saída, impossibilidades mesmas (que faça o leitor sua própria experiência!).
Cada religião, evidentemente, tem suas justificativas, mas essas justificativas não são aceitáveis de um ponto de vista separado do meramente religioso em questão, como, para a constituição de uma espécie de "ciência das religiões", seria absolutamente fundamental. A biologia, por exemplo, enquanto ciência, não fundamenta suas razões em conhecimentos próprios da biologia, assim como nenhum outro campo de conhecimento científico moderno. Como exemplo, jamais poderá nos dizer um biólogo o que seja vida, uma vez que a vida, em todas as suas formas, é objeto de estudo próprio da biologia. E se aceitarmos a definição de Kant de que a geometria é o estudo de todas as formas possíveis de espaço, também jamais poderá nos dizer o geômetra o que seja, enfim, espaço. É um problema de pressupostos bastante elementar. Tal "ciência das religiões", em sentido moderno, jamais existirá, pois, para existir, seus promotores terão que antes nos prover de boa solução para esse imbróglio que, em caso de não ser solucionado, minará os alicerceares e pressupostos do pretenso campo de saber científico.
Tomemos o caso dos muçulmanos como exemplo, que nos fornecem como justificativa para a origem de sua fé, um evento: o evento da revelação do corão ao profeta Maomé ou Muhammad, pelo Anjo Gabriel. O judaísmo: também por um evento surpreendente: Moisés recebendo de Deus a tábua da Lei no alto do Monte Sinai. O cristianismo: a anunciação de Jesus, o Messias (este já revelado por Deus como vindouro a uma longuíssima tradição de profetas), por um anjo à Virgem Maria e a São José. Estou persuadido, embora admita a possibilidade de estar errado, que não é possível analisar tais questões desde fora, com o mínimo de isenção. É certo que jamais haverá acordo entre as grandes religiões: jamais veremos os judeus admitirem voluntariamente (podem até serem forçados a isso!) que há apenas um Deus e que Maomé é seu Profeta. Nem veremos os budistas orarem o credo cristão. Que história é essa de que eu creio em Deus-Pai, todo poderoso, criador do céu e da terra e em Jesus Cristo seu único filho, Nosso Senhor? Não vai acontecer. Na esfera individual, certamente, ninguém duvidará nem jamais duvidou da possibilidade, mas as duas religiões são, elas sim, inconciliáveis. Mesmo que um budista passe, a partir de agora, a orar de acordo com o credo cristão, rechaçará o seu passado budista por inteiro.
Só é possível "conhecer" às religiões comparando-as (e existe uma disciplina absolutamente válida de estudo de religiões comparadas), aceitando uma delas e rechaçando todas as outras ou ainda renegando a todas, sem distinção. A visão do estudioso será sempre, de todas as formas, enviesada, comprometida de alguma maneira e disso não vejo como fugir.
Quanto à constituição da tal estrutura das grandes religiões que citamos no começo, essa merece posterior digressão.
segunda-feira, 25 de janeiro de 2016
As fases e os períodos da história da filosofia antiga
Nesse arco de tempo, podemos distinguir os seguintes períodos:
1) O período naturalista, que, como já dissemos, caracterizou-se pelo problema da physis e do cosmos e que, entre os séculos VI e V, viu sucederem-se os jônicos, os pitagóricos, os eleatas, pluralistas e os físicos ecléticos.
2) O período chamado de humanistas, que, em parte, coincide com a última fase da história naturalista e com a sua dissolução, tendo como protagonistas os sofistas e, sobretudo, Sócrates, que pela primeira vez procura determinar a essência do homem.
3) O momento das grandes sínteses de Platão e Aristóteles, que coincide com o século IV a.C., caracterizando-se sobretudo pela descoberta do supra-sensível [Metafísica] e pela explicitação e formulação orgânica de vários problemas da filosofia.
4) Segue-se o período caracterizado pelas escolas helênicas, que vai da grande conquista de Alexandre Magno até o fim da era pagã e que, além do florescimento do cinismo, vê surgirem também os grandes movimentos do epicurismo, do estoicismo, do ceticismo e a posterior difusão do ecletismo.
5) O período religioso do pensamento veteropagão, como já acenamos, desenvolve-se quase inteiramente na época cristã, caracterizando-se sobretudo por um grandiosos renascimento do platonismo que iria culminar com o movimento neoplatônico. O reflorescimento das outras escolas seria condicionado de vários modos pelo mesmo platonismo.
6) Nesse período nasce e desenvolve-se o pensamento cristão, que tenta formular racionalmente o dogma da nova religião e defini-lo à luz da razão, com categorias derivadas dos filósofos gregos.
A primeira tentativa de síntese entre o Antigo Testamento e o pensamento grego foi utilizada por Fílon, o Hebreu, em Alexandria, mas sem prosseguimento. A vitória dos cristãos irá impor sobretudo um repensamento da mensagem evangélica à luz das categorias da razão. Esse momento do pensamento antigo, porém, não constitui um coroamento do pensamento dos gregos, assinalando muito mais o começo da crise e a suspensão do modo de pensar do gregos e preparando assim a civilização medieval e as bases daquilo que viria a ser o pensamento cristão "europeu". Desse modo, mesmo levando em conta os laços que esse momento do pensamento tem com a última fase do pensamento pagão que se desenvolve contemporaneamente, ele deve ser estudado em separado, precisamente como pensamento véterocristão, sendo considerado atentamente, nas novas instâncias que ele instaura, como premissa e fundação do pensamento e da filosofia medievais."
(Trecho do livro História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média, Giovanni Reale e Dário Antiseri, Ed. Paulus, 1990, p. 25-26)
domingo, 17 de janeiro de 2016
O vício essencial da Filosofia Moderna à luz da Filosofia Cristã
Quando se afirma, como fazia Kant, que a verdade é pura emanação da mente, e as leis da natureza, formas internas do nosso entendimento; quando se atribui ao pensamento humano o poder de criar a realidade dos seres, fazendo o objeto inteligível produto exclusivo do «eu» pessoal, como opina Fichte; quando, avançando um passo mais, se quer fundir em um elemento comum essências contraditórias, identificando em um princípio absoluto naturezas distintas, como desejava Schelling, ou coroando essa série de negações com uma negação definitiva, se nos propõe a idéia hegeliana como síntese suprema da ciência, espécie de zona neutra, onde se confundem o ser e o não ser, a potência e o ato, o efeito e a causa; quando se admite «a priori» um princípio gerador das coisas, fonte de toda a verdade, que tudo explica e produz deste o átomo até Deus, chame-se esse princípio Inconsciente (Hartmann), Vontade (Schopenhauer), Atividade (Wundt), Idéia — Força (Fouillée), Esforço Vital (Bergson), ou como se quiser; quando se afirma tudo isso, parece que se estabelece diversidade de princípios, quando em rigor é idêntico o fundamento comum, a origem dessas aberrações monstruosas. No fundo dessas doutrinas palpita o mesmo pensamento. A filosofia, do «eu» erigindo-se em mestra do gênero humano, a razão individual emancipada de toda autoridade, o verbo interior do nosso espírito suplantando o Verbo divino, o orgulho do homem usurpando a Deus suas prerrogativas e excelências. Todos os que proclamam a emancipação do pensamento e negam a Jesus Cristo o direito de reinar sobre as inteligências, partem de uma premissa errônea. Crêem que a razão é causa da verdade, regra do dever, quando pelo contrário, a verdade preexiste nas coisas como uma irradiação da mente divina que as concebe e procria.
9. A razão não cria a verdade, descobre-a; a verdade não é uma concepção livre do entendimento nem produção espontânea do espírito; a razão investiga, busca o que é, não o que pode ser; inquire a realidade que é causa da verdade em nós. «O ser mesmo das coisas, diz o doutor Angélico, causa a verdade no entendimento». A verdade é reprodução, reflexo do exterior; os objetos que existem fora de nossa alma despertam a atividade natural da potência cognoscitiva e constituem a medida da verdade que encerram seus atos.
«Está impressa, Senhor, sobre nós, dizia Davi, a luz de teu rosto».
Esta luz não pode operar sem o concurso do objeto que a determina e atua. Nosso entendimento é uma atividade potencial que necessita ser excitada pelo influxo dos fantasmas sensíveis; é como um espelho em que se refletem os objetos com perfeita fidelidade, sem acrescentar-lhes nem tirar coisa nenhuma. Essa atividade intelectual não é como a de Deus. Esta é essencial, que engendra a inteligibilidade dos seres; criadora que produz a verdade eterna, cuja luz, depois de iluminar com clarão infinito os seios misteriosos da Trindade beatíssima, reverbera palidamente nas criaturas; soberana, onde têm sua origem os possíveis, que sem sair de si mesma contém a plenitude do ser com todas as suas perfeições.
A verdade ontológica é a realidade das coisas, «id quod est», como diz Santo Agostinho; e esta verdade essencial possuem as coisas por sua conformidade com o entendimento divino que as criou. A verdade lógica ou formal deriva da anterior; é como diz Santo Tomás, a adequação do entendimento com a coisa; e ainda que esta verdade resida no entendimento, depende também do objeto, porque essa relação que medeia entre ambos não é arbitrária; as coisas são o que são, independentemente do sujeito pensante, e ainda dado que este desaparecesse, a verdade das coisas subsistiria, porque são essencialmente verdadeiras no entendimento divino, no qual têm seu princípio e sua razão, sua norma e sua medida, seu ser e sua existência. Assim como a visão sensível se verifica com submissão a leis invariáveis, independentes de nossa vontade, assim também a visão intelectual se produz obedecendo a leis fixas e constantes. O olho é livre para olhar ou não um objeto visível; porém, uma vez que o contemplou, se o encontra convenientemente iluminado e situado a devida distância, a visão se verifica necessariamente. O olhar não cria nem influi na realidade; percebe-a e a reproduz tal qual aparece no exterior. Do mesmo modo a razão se move num círculo vastíssimo, voa por regiões imensas; porém ela não fez esses mundos nem pode modificá-los à sua vontade; reflete unicamente a luz que os ilumina, o esplendor que irradia o Verbo de Deus sobre os objetos, os quais de um modo intencional, porém positivo e eficaz, determinem nossa mente ao conhecimento dos mesmos.
A verdade se nos impõe de uma maneira irresistível; é objetiva, não mera emanação de nossas faculdades.
Daí se infere quão irracionalmente procedem aqueles que defendem como um dogma a liberdade de pensar, eximindo o entendimento de toda lei na investigação da verdade. O livre pensamento é um absurdo que nos rebaixa ao nível dos brutos, porque nega a mesma razão que não pode conhecer a verdade sem sujeitar-se a leis imutáveis, cuja infração leva consigo o erro.
A idéia não se engendra sem o fantasma sensível; assim como o coração não é independente do bem que o cativa e atrai, tampouco o entendimento da verdade que o ilustra. Um pensamento livre é um absurdo, uma contradição; tudo na natureza tem suas regras e suas leis; e não as terá o pensamento que é a causa mais nobre e excelsa no homem? Nossa potência intelectual pode receber em si todas as formas, é uma participação da luz divina, porém, finita e limitada, e, portanto dependente de Deus. Por íntimas que sejam as analogias do Verbo teológico e do Verbo filosófico, distinguem-se ambos pela diversidade de natureza a que devem sua origem.
Deus, compreendendo sua essência, forma e produz em si mesmo uma concepção inegável, que é seu Verbo. Do mesmo modo que quando nós pensamos ou concebemos um objeto, formamos uma concepção da coisa pensada, e esse é nosso verbo. Porém entende de uma maneira muito mais perfeita que o homem, e daqui nasce a superioridade do seu Verbo sobre o nosso.
Deus conhece a realidade vendo-se a si mesmo como realidade infinita e perfeitíssima; e como em Deus o entender é a substância do sujeito inteligente, Deus entendendo-se a si mesmo, diz Santo Tomás, produz uma concepção em que Ele mesmo se repete. A produção do Verbo em Deus é uma geração verdadeira, e o Verbo pelo mesmo fato que é Verbo, é realmente uma hipóstase subsistente, seu Filho, igual ao Pai, em que está representado o existente e o possível, por quem foram feitas todas as coisas, as visíveis e invisíveis.
A produção do verbo no homem é uma geração imperfeita, porque nem o entender em nós é nossa substância, nem a concepção engendrada pela mente é uma reprodução substancial do sujeito pensante, senão uma forma ideal, um fenômeno intencional do espírito. Nosso verbo é semelhante, não idêntico ao verbo divino, imagem do objeto entendido, nem sempre representação inteligível dele, como sucede no Verbo divino, cuja idéia procede unicamente do Pai.
10. A distância que separa os dois verbos é imensa, a mesma que separa a inteligência finita e a infinita. O Verbo é a imagem adequada e perfeita da ciência perfeitíssima de Deus, é o mesmo pensamento divino compreendendo a essência própria e suas perfeições infinitas. O verbo humano é a expressão ou imagem das coisas que em ato entendemos, não das que podem ser entendidas, muitas delas impenetráveis aos olhos do homem. O Verbo divino como imagem perfeita e adequada da substância do Pai, é Deus mesmo, a verdade mesma ideal e real, a fonte de toda entidade. O verbo humano sendo imagem de uma realidade finita e imperfeita, é por necessidade, finito e imperfeito, verdade participada; não é causa das coisas nem medida do ser, mas deve ser medido por elas para determinar-se ao ato e engendrar mentalmente a visão da verdade real. Não é um original, mas uma cópia maculada, pálido reflexo do sol que fulgura na mente do Altíssimo engendrando o Verbo divino desde toda a eternidade. Este verbo augusto é substancial, incriado, Deus de Deus, luz de luz, pensamento que esgota a inteligibilidade dos seres pela absoluta compreensão dos mesmos; o verbo humano é acidental, criado, circunscrito a uma esfera determinada, distinta da potência que o engendra.
Aquele procede sempre por intuição, é esplendor sagrado que deslumbra e subjuga, nossa inteligência; esta procede por demonstração, deduz ou induz com submissão às leis do espaço e do tempo, desce dos princípios às conclusões ou ascende dos fatos ao conhecimento dos princípios universais por uma multiplicidade de atos que declara sua imperfeição intrínseca. Não conhece senão abstrata e indeterminadamente; logo não pode ser princípio de verdade, nem origem da sabedoria humana, o que é próprio somente de Deus, do Verbo encarnado, que se chama Jesus Cristo.
Basta o que ficou dito para destruir pela sua base o criticismo kantiano, ponto de partida da filosofia moderna, em que as inteligências modernas beberam o vírus da impiedade. Se o verbo filosófico é por si uma entidade finita e imperfeita, uma luz débil e trêmula que reflete parcialmente a verdade oculta nos fenômenos sensíveis, é impossível levantar sobre tão fraco fundamento o edifício dos conhecimentos humanos. A razão não pode ser autônoma, a esfera de nossos conhecimentos não pode limitar-se ao campo de nossas afeições subjetivas; existem horizontes mais amplos cujos limites nos são desconhecidos. A verdade não está em nós: está em Deus, que a reflete sobre o mundo; reside em Cristo, trono da sabedoria e fonte das ciências humanas”.
(Trecho do livro Jesus Cristo e os Filósofos, Cap. X, §8-10, de autoria do filósofo e padre Eugenio Cantera, trad. pe. Antonio D'Almeida Moraes Junior)


