quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Nosso pensamento, Machado de Assis

"A sociedade atual não é decerto compassiva, não acolhe o talento como deve fazê-lo. Compreendam-nos! nós não somos inimigo encarniçado do progresso material. Chateaubriand o disse: "Quando se aperfeiçoar o vapor, quando unido ao telégrafo tiver feito desaparecer as distâncias, não hão de ser só as mercadorias que hão de viajar de um lado a outro do globo, com a rapidez do relâmpago; hão de ser também as idéias". Este pensamento daquele restaurador do cristianismo — é justamente o nosso; — nem é o desenvolvimento material que acusamos e atacamos. O que nós queremos, o que querem todas as vocações, todos os talentos da atualidade literária, é que a sociedade não se lance exclusivamente na realização desse progresso material, magnífico pretexto de especulação, para certos espíritos positivos que se alentam no fluxo e refluxo das operações monetárias. O predomínio exclusivo dessa realeza parva, legitimidade fundada numa letra de câmbio, é fatal, bem fatal às inteligências; o talento pede e tem também direito aos olhares piedosos da sociedade moderna: negar-lhos é matar-lhe todas as aspirações, é nulificar-lhe todos os esforços aplicados na realização das idéias mais generosas, dos princípios mais salutares, e dos germens mais fecundos do progresso e da civilização."

(J. M. Machado de Assis, artigo publicado em A Marmota, Rio de Janeiro, 1858)

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

A luta política

Primeiro mandamento da luta política: Imponha sempre suas premissas intransigentemente.

Veja o desenho do cartaz. Ele é de uma das escolas ocupadas, não faço ideia de qual e isso também não importa para o meu ponto. A questão é: qual a premissa maior do desenho? A premissa é de que a canoa, que representa o futuro (sim, o futuro!, por que não?), mas também nós poderíamos dizer que bem pode representar todo o ensino, o sistema educacional como um todo (pois ninguém discorda que sem sistema educacional não há futuro, pelo menos não a imensa maioria das pessoas), está afundando. Essa é a premissa maior. A premissa menor é a de que os jovens tiram a água que entra na canoa, lutam pelo futuro do ensino. São eles, os jovens, os nossos salvadores.

Como que se vence a luta política? Impondo a todos, como se fosse um imperativo categórico, de forma a não restar dúvidas ou margens sequer para tal, que a premissa maior é verdadeira. Feito isso, a guerra se vence sozinha. "Você" que "é contra a ocupação", automaticamente e quase sempre sem sequer se dar conta, a si próprio se coloca no lugar do conformista, aquele que xinga os salvadores do futuro de "vagabundos", que só quer "assistir sua aulinha". Que ser desprezível e mesquinho, não é mesmo?

Quem define as premissas, possui um poder descomunal sobre os rumos de qualquer debate.

O que digo é válido para qualquer situação, qualquer debate público. E não se vence, nunca, jamais!, luta política nenhuma sem compreender muito bem o funcionamento desse mecanismo de comunicação. Por que um simples cartaz deveria chamar nossa atenção? Porque a luta política é, antes de tudo, uma guerra de comunicação, a imposição de narrativas, visões de mundo. E eu não uso o verbo impor atoa, porque não se discute, não se debate o teor das premissas, excerto, é claro!, esotericamente, internamente nos grupos, partidos políticos aspirantes ao poder. Ao público (captador do discurso exotérico), se incumbe tão somente a missão de impor as narrativas, premissas, visões de mundo dos salvadores, iluminados.

Quando grupos de estudantes, minorias, barulhentas e organizadas, invadem escolas e universidades provocando toda sorte de transtornos sociais e ainda assim conseguem com que o público se refira às invasões como "ocupações", é realmente o anuncio da vitória de uma luta política, a luta se legitima politicamente, é uma demonstração de força, de poder. Como exatamente isso acontece e por que acontece é tema para ser tratado em outra oportunidade, mas é evidente que minorias organizadas e barulhentas sempre levarão vantagens sobre maiorias amorfas, disformes, dispersas e desorganizadas.

domingo, 23 de outubro de 2016

Felicidade e personalidade

As nossas atitudes formam um todo coerente e lógico. Pela manhã, eu não posso dar um tapa no porteiro ao invés de dizer bom dia. E não porque ele me fosse revidar a agressão, mas porque a minha atitude repentina e injustificada destoaria de todo o conjunto das minhas outras atitudes, dos meus pensamentos, do meu discurso e, enfim, da minha personalidade, de quem eu sou! A felicidade é uma atitude, assim como qualquer outra. Eu escolho se, pela manhã, quero ser feliz ou não. Da mesma forma que escolho a camisa que vou vestir. A diferença é que a minha escolha por ser feliz segue a critérios mais rigorosos e eu não a pego no cabide. Também o problema maior não é simplesmente escolher ser feliz, mas, como todas as outras atitudes, tornar a escolha por ser feliz parte integrante do todo coerente e lógico de nossas atitudes. Porque em caso contrário, a felicidade, por melhor que se disfarce (e alguns disfarçam muito bem!), não será nada muito diferente de um disfarce, uma máscara, como uma atitude que tomamos para não desagradar ninguém, um obséquio. A felicidade fingida é mais comum de todas, é a mesma que leva os grandes humoristas ao suicídio. O sujeito finge tanto ser feliz e sofre tanto por realmente não ser que simplesmente se esquece de si e se mata, estoura os próprios miolos com um sorriso no rosto. E por que é assim? Porque a personalidade deve ser cuidadosamente construída, como se fosse uma obra de arte e com o senso da verdade acima de tudo, que é na realidade o próprio Deus, Deus é a verdade (João 14:6). Eu não acredito na felicidade do tolo. Para mim, só o homem sábio é feliz.

domingo, 16 de outubro de 2016

A felicidade

Ser feliz é uma atitude ante os acontecimento, momentos (chamem como quiser). Ser feliz não tem nada a ver com não sofrer. A felicidade é anterior ao sofrimento, bem como aos prazeres. É possível ser feliz ainda que muito se sofra. Aliás, o sofrimento é inerente à vida, a felicidade não (o homem apenas se destina a ser feliz). Começa-se a sofrer no instante em que se nasce. Começa-se a ser feliz somente no instante em que, como uma atitude, a felicidade se integra num mínimo coerente, tanto com o discurso, como com o pensamento e as outras atitudes, tudo isso inserido num sistemas integrante da própria personalidade. Ser feliz exige sabedoria, exige a experiência da vida. Não acredito na felicidade dos jovens. E no geral, poucos são os que realmente são felizes. A maioria das pessoas apenas confunde felicidade com prazer, por isso, para elas, ser feliz pode ser algo como "desfrutar", uma reação neuroquímica, endorfina e serotonina liberada na corrente sanguínea, como quando se come um bombom de chocolate.

sábado, 8 de outubro de 2016

Apartidário e apolíticos

É sim possível ser apartidário (meu caso) e também apolítico (o que não é meu caso). Ser apartidário não deixa de ser uma forma de negação da política, embora, como seja no meu caso, não signifique uma negação absoluta da política por razões obvias: a política não se resume às disputas partidárias e ninguém em sã consciência poderia duvidar disso. A grande maioria das pessoas, no entanto, são, sim, apolíticas, porque elas não entendem e não se interessam por política, e isso é um problema e também, às vezes, uma solução. É um problema porque a massa de pessoas apolítica é facilmente manipulada por políticos demagogos e pode vir a ser também uma solução porque entre essa mesma massa de pessoas, quando os abusos do poder excedem um limite tolerável infixado, há a insurreição contra os mesmo demagogos postos por ela no poder. Toda massa é assim: imprevisível, irracional e também uma força avassaladora capaz de definir os rumos da história de qualquer nação. A nossa Constituição, neste sentido, é bastante exata, científica quanto diz em seu parágrafo único do artigo 1º que todo poder emana do povo.

Da tolerância e do respeito

"Tolerância" e "respeito" não são valores em si mesmos. Se você tolera o que não deve ser tolerado bem como se você respeita o que não é digno de respeito nenhum, isso não faz de você um sujeito virtuoso e melhor, muito pelo contrário.

Ser virtuoso e melhor é justamente saber identificar o que é merecedor de respeito e tolerância. Muitas opiniões eu não respeito, mas tolero, porém isso não significa que eu vá tolerar todas as opiniões. Existem opiniões tão nefastas, tão horrendas que tolerá-las é um acinte, uma indignidade, algo talvez tão nefasto e horrendo quanto a própria opinião emitida. É preciso muito bom senso e prudencia para sabe quando se deve reagir e reagir na devida proporção, sem exceder limites. Eu sempre penso nisso e eu sempre soube disso, ainda que, quando mais jovem, não soubesse colocar em palavras exatamente como estou colocando agora, algo que, se bem observado, não é difícil de entender (o senso comum da mídia é complica bastante essa questão). Algumas vezes eu reagir de forma desproporcional à ofensa e me arrependo. Noutra vezes, sequer reagir e também me arrependo. Agir com justiça é dar a cada um o que lhe é devido, nem mais nem menos. A coisa que eu mais abomino são sujeitos pusilânimes. É disso que se trata a Filosofia, é disso que se trata em se ser sábio, embora não só disso.

sábado, 1 de outubro de 2016

Formas e maneiras de amar

A expressão "qualquer forma ou maneira (salvo engano isso foi cravado pelo Caetano Veloso numa canção) de amor vale a pena", é absurda. O amor não é uma jaca, para ter tantas formas e maneiras de ser.

Geralmente isso é dito por pessoas que afirmam lutar contra a discriminação no caso das relações ditas amorosas entre homossexuais (caso do Marcelo Freixo). Mas se existe o amor hétero ou homossexual, definitivamente não há uma diferença formal entre eles, logo não faz sentido a distinção em formas ou maneiras de amar. Sem dúvidas, há uma evidente diferença na manifestação do afeto entre os seres nesses dois casos. Porém, também, como escrevi não faz muito tempo, o amor não se confunde com a expressão romântica, o que é um traço muito característicos do romantismo, a coisa que mais se vê nos filmes, novelas, livros, seriados, músicas etc. etc. etc. O amor romântico é egoísta precisamente por isso, e, precisamente por isso, é também uma negação do próprio amor. O amor, penso, é bem menos complicado; é um identificar-se, como quando Cristo anuncia: ama o teu próximo como a ti mesmo; e, ainda, quando diz: amai-vos uns aos outros como eu vos amei. A medida do amor, portanto, é o Eu, um Eu sem medidas, para parafrasear Santo Agostinho, isto é, um Eu divino, um Eu necessário, não um eu egoísta. Dizia C.S. Lewis que se você tem a atitude correta diante de Deus, inevitavelmente terá a atitude correta diante do próximo. Essa é a régua!

Amar, portanto, é se identificar (porque nós nos identificamos com Deus é que é possível amá-Lo e essa é uma verdade cristã, um diferencial do cristianismo, por exemplo, em relação ao hinduísmo, onde os sujeitos estão lá, amando um deus com cabeça de elefante; o Deus cristão é humanos demais, transborda humanidade e, exatamente por isso, cumprir com o primeiro mandamento da Lei é mais fácil do seria, sem a revelação do evangelho. O Deus dos judeus era impessoal, vingativo e, também os homens, talvez por isso, fossem tão insensíveis, Mc 10:5). Por que, por exemplo, uma das manifestações mais notórias de ódio é o terrorismo? Porque, justamente, é quase sempre uma das manifestações mais notórias de diferenças entre os seres, de distinção, de intolerância. O sujeito que veste um colete de explosivos e se explode é incapaz de se identificar minimamente que seja com as suas vítimas. É assim, de maneira geral, com os assassinos — os assassinos, como dizia Nelson Rodrigues, são anti-homens, se sentem deuses, seres superiores a todos e principalmente às suas vítimas. Por que, também, eu quase sempre acho uma frescura sem tamanho esse negócio de amor pelos animais? O ser humano só consegue amar aqueles animais que mais se identificam e se relacionam com ele. Ninguém ama o porco espinho, ninguém ama o tatu — excerto o tatu bola, porque é engraçado, mas o tatu tradicional, aquele bicho estranho com um nariz e língua soberbos, ninguém ama! Amamos cachorros e gatos porque em nós despertam empatia (empatia significa sentir de forma parecida), mas o mesmo sentir não é possível com toda a animália, esta muitas vezes distante de nós, hostil.

sábado, 17 de setembro de 2016

Meritocracia

Nós podemos dizer que todos os soldados de um exercito, caso se esforcem muito, poderão algum dia chegar a general? É claro que não! Por quê? Porque o posto de general é um só e não existe um exercito só de generais. Donde vemos que o mérito está condicionado à oportunidade e que a natureza mesma das oportunidades é limitada. Jamais haverão oportunidades suficientes para pessoas suficientemente merecedoras.

Isso não significa que, evidentemente, algum bom soldado não possa chegar ao posto de general por méritos próprios, porém o mérito só poderá ser avaliado no campo puramente subjetivo e individual, nunca, jamais! coletivo, em sociedade.

Jamais viveremos numa sociedade realmente meritocrática simplesmente porque isso é impossível.

A vida é injusta e desigual. A má notícia é que sempre será.

domingo, 11 de setembro de 2016

Cristianismo e Islamismo: religião pública e religião privada

Não sou um especialista em Islã, mas pelos meus estudos, consigo identificar claramente uma diferença entre o islã e o cristianismo que não me parece ser muito notada por todos que eu conheço: o cristianismo é uma religião privada, ao passo em que o islamismo é uma religião pública. Jesus já dizia para nós nos fecharmos em nossos quartos para rezar e condenava as preces públicas e histriônicas dos fariseus. O cristianismo surge num momento histórico de centralização do poder político por parte da "Grande Babilônia", a "Prostituta", o Império Romano, num período de submissão do povo hebreu; já o maometismo, muito pelo contrário, surge num momento histórico de praticamente anarquia entre os povos árabes, o que induziu, dado ao próprio grau de complexidade daquelas sociedades, à necessidade social mesma de uma organização político-administrativa centralizadora. É por isso que o Islã não pode, como dizia o Aiatolá Khomeini, se desvincular de um projeto político e, mais ainda, um projeto político centralizador. A religião romana também era uma religião de Estado e centralizadora, era "a grande cidade, aquela que reina sobre os reis da terra", era o culto pessoal do Imperador e Jesus pregou claramente a distinção entre essas duas coisas, entre as coisas de Cesar e as coisas de Deus. Para o muçulmano, essa distinção simplesmente não faz sentido algum, porque para o muçulmano Jesus apenas se insere numa longa tradição de profetas que irá encerrar-se com o nascimento de Maomé ou Moḥammed em Meca (a "Mãe de todos os assentamentos"), em 25 de abril de 571 da nossa Era. Entender isso me parece imprescindível para saber o que podemos esperar do futuro.

Quando um muçulmano morre em nome de Allah, ele está dando um testemunho público de fé com a certeza de que será recompensado por Deus no paraíso. Já o cristão não poderia ter essa mesma certeza porque a religião cristã se importa menos com o que fazem os cristãos publicamente. A absorvição do pecados, por exemplo, dada por um padre no ato da confissão, é uma GRAÇA DIVINA que SÓ pode ser alcançada pelo arrependimento sincero do fiel devoto, uma graça portanto de natureza puramente subjetiva, intima, interior. Tanto que não importa a vida que levou o cristão se nos últimos segundos ele se arrepender de tudo que fez. Não existe pecado que a Igreja não possa dar a absorvição. 

domingo, 28 de agosto de 2016

Ditadura em 64?

Eu me recuso terminantemente a usar a expressão "ditadura militar" para designar o período histórico que vai de 31 de março de 1964 até 13 de dezembro de 1968. Até demito o uso do termo, mas só a partir de 1969. E eu ainda me recuso a chamar o Geisel e o Figueredo de ditadores. Eles foram os caras que promoveram a abertura democrática plena do país, isso ninguém pode negar. Castelo Branco foi ditador, porque assinou o AI-5 que fechou o Congresso, mas ele só assinou no final de 68. Costa e Silva foi ditador, porque foi quem iniciou a fase mais dura do período; também Médici foi ditador, porque deu continuidade à repressão iniciada pelo antecessor, mas Geisel (que dispensou o responsável pela morte na cadeia do Herzog no DOI-CODI, Ednardo D'Ávila Mello e que sofreu uma tentativa de golpe por parte do general Sílvio Frota, sendo o responsável por extinguir o AI-5) e Figueredo não!

Se não fosse por Geisel e Figueredo, não teria havido diretas em 85! Eu até posso achar que Geisel e o Figueredo fizeram um montão besteiras no plano técnico, econômico, administrativo, mas nunca, jamais político! Sem falar que Geisel apoiou o Tancredo em 85, foi um grande patriota, nesse sentido, colocou o Brasil acima dos interesses pessoais que tinha. Por que ninguém tem coragem de dizer isso? O politicamente correto e a espiral do silêncio é promotora de brutal injustiça histórica! 

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Considerações breves sobre o amor

Quando Cristo disse: "amai-vos uns aos outros como eu vos amei", estava querendo dizer para sofrermos por amor como Ele sofreu. Disse ainda: "Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos." Amar é fatalmente agonizar de tanto sofrer! É entregar-se à morte. Podemos dizer que o sofrimento é quase a medida do amor.

Quem ama, sempre cuida, se preocupa, independentemente do outro. Pois bem, cuidar e se preocupar é sofrer! É a mãe que cuida do filho com algum problema e que sofre horrores por amor. É a mulher cujo o marido foi para a guerra e ela fica aqui, sofrendo de tanta preocupação e também saudade, angustiada por não saber se ele volta. É uma relação de proporcionalidade quase exata, me parece. Amor sem sofrimento não é amor! Às vezes vejo mulheres (e também homens, mas mais mulheres) dizerem que vão se separar porque "não felizes". Sempre pergunto com certa ironia: "Você queria ser feliz, é? Não foi o padre quem disse: "Na alegria, na tristeza, na saúde, na doença até que a morte os separe"? Achou que era brincadeira? Que o padre tirava onda?" Aquilo lá não acontece assim há 2000 anos atoa...

Essas coisas não me parecem tão complicadas, tanto que eu realmente não compreendo bem pessoas que tem as mais malucas dúvidas sobre o amor. Uma vez perguntei para um amigo: "Mas você ama ela?" Ele respondeu: "Não sei!" Retruquei de imediato: "Oxente! E quem é que sabe?" "Mas você se preocupa com ela?, você gosta de estar de com ela?, sofre quando não está? Você cuida dela?", perguntei. Ele respondeu que sim para todas as questão. Então qual era a razão da maldita dúvida? Nem ele e muito menos eu sabemos... Quem conhece a si mesmo é sempre mais sábio! A Igreja admite o divórcio, desde que não haja amor. Só não dá é para você chegar lá em Roma dizendo: "Santo Padre, eu achei que amava o pau mole do meu marido, mas agora eu quero o divórcio!" Tem gente que vive exigindo que a Igreja se "adapte ao mundo". No dia que ela fizer isso (e não vai fazer!), eu deixo de ser católico. Adaptar-se às veleidades do mundo é se corromper, é inevitavelmente deixar de existir.

sábado, 6 de agosto de 2016

Padrões de beleza

Para se ter uma ideia do quanto se ater a padrões de beleza é fundamental para a arte no geral, teve um artista italiano chamado Piero Manzoni, discípulo de um outro famoso artista francês chamado Marcel Duchamp, que, na ânsia de demolir com os padrões estéticos que regiam o mundo da arte, ficou riquíssimo nos anos 60 vendendo merda enlatada. Literalmente! Ele cagava numa latinha e vendia, expunha isso nos museus e as pessoas pagavam os olhos da cara para ver, porque era tudo muito "revolucionário", muito "fora de padrões". E de fato era! Ninguém em sã consciência poderia duvidar disso. Esse é só um exemplo do quanto o sentido exato de beleza é fundamental na vida. Sem padrões de beleza, a Pietá e a Capela Sistina não são muito diferentes de uma lata de merda. O funk do "bumbum granada" é conceitual! Todo mundo que chega querendo revolucionar o mundo da arte, destruir os padrões de beleza só contribui para tornar nossas vidas um inferno.

Tudo que pinta de novo, pinta no rabo do povo, como dizia um certo filósofo.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

A estabilidade do ser

Amo a estabilidade do ser.

"Nasce o Sol, e não dura mais que um dia...
(...)

Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?"

Eu odeio nas mulheres (e não só nas mulheres, para falar a verdade, mas acontece que elas são sempre o principal foco da minha atenção) quando mudam de cabelo o tempo todo ou o jeito de se vestirem por causa da moda ou outra idiotice do gênero (coisa que não está propriamente em falta no mundo). O nosso corpo é a primeira impressão de quem somos, da nossa personalidade, é o templo do Espírito, como se diz na bíblia. Amar já é difícil e eu fico ainda me questionando como é possível amar uma pessoa que nem ela mesma sabe quem é, que nem ela mesma se interessa por saber quem é... Eu vou amar quem, afinal? Cada hora uma versão diferente? Não tem amor que chegue! Eu não sou contrário à mudança, é claro! (e eu detesto ter que explicar o óbvio também), mas quando a mudança não se justifica, em sua finalidade e essência, ela se tornar uma incongruência ontológica, passa a integrar na forma vazia da mudança pura o conjunto da personalidade, que também se esvazia, se futiliza. A parte que eu mais gosto de Alice no País das Maravilhas é quando a Lagarta pergunta: "Quem é você?", e a pequena Alice responde: "Já nem sei, senhor. Mudei tantas vezes desde hoje de manhã." É um drama real e Alice é de uma sabedoria socrática!

"Metamorfoses ambulantes" nunca são nem lagarta nem borboleta, já que falamos de lagartas... Na verdade, não são nada. Ou, na melhor das hipóteses, são um casulo de expectativas.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Michel Houellebecq e Submissão

O discurso politicamente correto, onde as pessoas dizem coisas como "nem todo muçulmano é terrorista", "o islã é uma religião de paz" ou, ainda, "a maioria dos muçulmanos são pacíficos", se dissemina na mídia e em todos os meios culturais na mesma proporção em que a violência praticada em nome do islã se dissemina por todo o mundo.

Em Submissão, o que o Michel Houellebecq faz é mostrar (na verdade o livro é todo uma insinuação) que, ao contrário do que possa parecer, não é o terrorismo, mas o tal "islã pacífico" que põe em risco nosso modo de vida e que, com ações e articulações políticas das mais indecentes e não raras vezes contrárias à própria fé do Profeta (justificadas pelo fim ideal a que visam na própria doutrina islâmica, pois o islã não tem lá tantas preocupações com quanto a parecer hipócrita), o islã "moderado" se beneficia como nenhum outro grupo, herdando todo o capital político, que o estado de letargia que o avançar do politicamente correto no meio cultural provoca.

O terrorismo é parte da estratégia, é a ponta de lança, que desvia o foco, pelo horror dos ataques. A mídia é absolutamente incapaz de avaliar a situação porque é a principal responsável por disseminar o discurso, é parte — talvez inconsciente, talvez não — da estratégia, a classe jornalística inteira é marcada por uma ignorância enciclopédica, uma incapacidade atroz de analisar o quadro geral.

Sobre questões menores, eu ainda não sou capaz de fornecer explicações que pessoalmente me satisfaçam, venho estudando o assunto. Por exemplo: a colaboração de terroristas para a estratégia geral do islã moderado é consciente? Ou o terrorismo é um cão raivoso que os "moderados" têm sob controle apenas muito parcialmente? Me parece ser afirmativa a segunda questão. De onde vem o dinheiro que financia grupos terroristas? Para mim, esta é um tanto óbvia: vem principalmente de alas consideradas moderadas do islã, talvez as chamadas petromonarquias árabes a que Houellebecq fala, até porque esses grupos terroristas, até onde sei, sobrevivem principalmente da venda de petróleo no mercado negro (alguém precisaria fornecê-lo e comprá-lo...).

Houellebecq tira um tremendo sarro das feministas quando imagina um mundo de mulheres submissas (islã significa submissão, donde se tira o título do livro), aos 15 anos tendo de se casarem com homens asquerosos muito mais velhos, "no limite da higiene", reduzidas a objetos sexuais de fazer um homem decente vomitar (foi nos mercados árabes que a indústria do sexo encontrou o seu oásis), condicionadas, desde a infância, para essa condição de degradação humana sem limites. A mensagem é clara: as mulheres, no Ocidente, não fazem ideia do flagelo que é o islã, muito especialmente as francesas por quem François se envolve. Tudo isso transpassado pela crítica mais ou menos justa das mulheres ao patriarcado da sociedade ocidental cristã. O autor é um gozador terrible, mas o perigo da questão demográfica na França é absolutamente real e apavorante.

Essa é uma das mensagens ocultas do livro. É evidente que iam chamar Houellebecq de machista, mas sendo o livro inteiro uma denúncia, como poderia o autor, que é quem está fazendo a denúncia, ser machista? Ele denunciaria o próprio machismo? Somente um crítico no limite do analfabetismo funcional para supor semelhante coisa! Aliás, consiste exatamente em parecer que não faz nada demais a genial arte burlesca do insulto que Houellebecq soube desenvolver tão bem. Seu estilo é ótimo!

Machista? Talvez até seja, em algum sentido de sua vida íntima, mas para o livro isso não importa em absolutamente nada! A intenção, na acusação dos críticos, é claramente um apelo ao chavão para inibir o grande público dessas temíveis 250 páginas (estratégia essa absolutamente fracassada, dado o imenso sucesso da obra mundo a fora). Houellebecq não é François, nem nenhum outro personagem, embora, como em todos os casos, seja também todos eles. François é um professor universitário e na última página do livro, o autor admite que nunca pisou numa universidade! O livro é também uma feroz sátira da vida acadêmica, onde o autor apenas demonstra desprezo pela academia e nada mais. Houellebecq é um homem-bomba. Só. É um louvável (embora com cara de maluco) e dos mais atuantes combatentes na guerra cultural em que vivemos. Seu livro já nasceu clássico!

Filosofia e culturalismo

Alguém que procure entender os fenômenos culturais precisa, antes, se despir o máximo possível dos valores culturais em si mesmo, na tentativa de olhar os edifícios culturais existentes desde cima. A cultura é todo um mundo, uma visão de mundo.

A filosofia, definida como o amor à sabedoria, não tem, portanto, como fugir do rótulo de acultural. Da mesma forma, o filósofo não pode ser, num primeiro momento, nem moralista e nem imoral, mas sim amoral, tendo em vista a sua natureza de indivíduo comprometido não com um conjunto determinado de valores, nem mesmo valores religiosos, mas com a busca da verdade.

O sujeito olhar a cultura islâmica, por exemplo, do ponto de vista de um pequeno burguês, nascido e criado num ocidente edificado sob valores culturais tipicamente cristãos e, mais atualmente, laicos, é um erro metodológico dos mais crassos.

domingo, 10 de julho de 2016

Kant e os limites do conhecimento

É impossível conciliar qualquer visão de religião tradicional da existência com a filosofia de Kant. Isso acontece porque para Kant, o conhecimento se dá por duas e unicamente duas vias: pela via da experiência e dos sentidos (conhecimento empírico); e pela via da razão ou razão pura, que nada mais é do que o conhecimento "acessado" "independente" da experiência, dos sentidos. Eu coloquei o acessado e o independente entre aspas porque, na realidade, nós não acessamos coisa nenhuma, pois o conhecimento puro nada tem de novo a dizer sobre as coisas, sobre os seres. Por que não? Bom, porque para Kant, o conhecimento puro ou a priori, "independe" da experiência, é um conhecimento estático, universal e necessário e, na realidade ainda, ele também não é tão independente assim da experiência porque ele começou com a experiência (para Kant todo conhecimento começa com a experiência), isto é, sem a experiência ele sequer poderia ter chegado a existir.

Um exemplo é você dizer que "um quadrado tem quatro lados". Esse é um exemplo de conhecimento puro, a priori, no entendimento de Kant independente da experiência. Esse conhecimento é necessário porque é inconcebível um quadrado de outra maneira e é universal pela mesma razão, quero dizer, nenhum quadrado que de fato exista pode prescindir de ter quatro lados na sua composição formal. Porém, para que pudéssemos afirmar, como na frase, que um quadrado tem quatro lados, teríamos que, necessariamente, já ter "experimentado" um quadrado ao menos uma vez na vida, experimentado no sentido de ver, por exemplo. É por isso que coloquei o independente entre aspas também, pois no final das contas, ele não é tão independente assim e todo o conhecimento puro seria, portanto, dependente da experiencia de alguma maneira e na principal de todas, isto é, na que condiciona a existência da coisa.

Percebam, no entanto, que a frase "um quadrado tem quatro lados" nada acrescenta ao conceito de quadrado, quero dizer, o predicado já está contido no sujeito e é por isso que se diz que o conhecimento puro é um conhecimento meramente formal, que não avança, que é estático, nada tira e nada acrescenta aos seres e às coisas.

A proposta primeira de Kant é investigar os limites do conhecimento, até onde o conhecimento pode ir. O conjunto de Kant me parece recheado de contradições e acho que já expus algumas das minhas razões para pensar assim. 1º) É contraditório falar de um conhecimento que surge independente da experiência quando, sem um mínimo de suporte que seja na experiência ele não poderia sequer existir. 2º) E é contraditório dizer também que é possível acessar ao conhecimento da coisa quando o conhecimento se dá de tal forma analítica que beira à redundância e ao tautológico.

E por que eu falei da visão que as religiões tradicionais tem da existência? Por que todas elas, indistintamente dialogam com planos de realidade que, no arcabouço teórico de Kant, seriam absolutamente inacessíveis pela via do conhecimento e, portanto, são falsos! Para corroborar o que eu digo eu chamo a atenção para o fato de que aquilo a que Kant se refere como sendo metafísica é algo completamente díspar da metafísica tradicional. Ele criou uma outra coisa e deu a ela o nome de metafísica. É um falso silogismo.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

C.S. Lewis e a Abolição do Homem

"O dever do educador moderno não é o de derrubar florestas, mas o de irrigar desertos. A defesa adequada contra os sentimentos falsos é inculcar os sentimentos corretos. Ao sufocar a sensibilidade dos nossos alunos, apenas conseguiremos transformá-los em presas mais fáceis para o ataque do propagandista. Pois a natureza agredida há de se vingar, e um coração duro não é uma proteção infalível contra um miolo mole."

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Economia, cultura e religião

A desigualdade não é um problema real, logo, não demanda "solução". Da mesma forma que a miséria ou a pobreza. O grande e único problema econômico, de verdade, é como gerar RIQUEZA. Não é acabar com a miséria, com a pobreza ou minimizar as desigualdades. Quem faz do combate à pobreza ou à desigualdade uma premissa econômica, está subvertendo TODA a lógica econômica. A economia simplesmente deixa de ser economia, deixa de ser ciência e passa a ser alguma outra coisa que não vem ao caso (geralmente um discurso político). Como se cria riqueza no mundo? É muito simples: com trabalho. Não existe outro jeito. Mesmo se alguém disser que fulano ficou rico porque roubou de outro, ele certamente deve ter roubado de alguém que trabalhou. Trabalho não é o que Marx entendia, isto é, quase como se fosse uma medida, em síntese, uma medida para os "lucros" (mehrwert), por exemplo, teoria, aliás, mais do que refutada há uns 150 anos, mais ou menos (pela corrente Marginalista, principalmente com Carl Menger, economista austríaco que o Ciro Gomes não sabe sequer falar o nome). Entre o trabalho e o lucro (que pode, de maneira superficial, ser entendido aqui como riqueza), existe uma grande distância, tanto que muitos trabalhos podem não gerar lucro algum, riqueza alguma; por exemplo, é só você pensar no trabalho do sujeito que cava e tampa buracos, é um trabalho absolutamente inócuo, ele passa o dia inteiro ele mesmo cavando e a noite ele mesmo tapando os buracos que cavou (é um ad absurdum, eu sei, mas o exemplo não é totalmente inválido se você pensa no funcionalismo público); e, também por isso, o trabalho não pode ser tomado como base da organização social em si, porque o trabalho em si mesmo não significa nada, mas apenas com relação ao valor que a sociedade atribui a ele. Uma prostituta pode ganhar os tubos de dinheiro e não é difícil achar uma que ganhe muito, às vezes muito mais do que médicos, advogados, juízes, promotores, mas o valor (que não é o valor monetário) que a SOCIEDADE atribui ao trabalho dela é sempre muito baixo, então a classe das prostitutas é sempre uma classe marginal, em todas as sociedades de que eu já ouvi falar, isto é, ninguém entra para a faculdade, passa cincos anos lá estudando para aprender a fazer um boquete. E como que a sociedade se estrutura em torno dessa questão dos valores (que novamente não é monetário)? Através da cultura e da religião. Simples assim.

sábado, 11 de junho de 2016

Vitória militar, política e a História.

É um erro primário supor que a história é escrita pelos vencedores. São os que escrevem a história, ao seu modo, que de fato vencem! Sabem por quê? Porque a "vitória", em termos militares e políticos, raramente é somente a vitória. Os Aliados venceram a Primeira Guerra em 1918. A Alemanha foi totalmente destruída, jogada na mais absoluta lama, na miséria total imposta pelo Tratado de Versalhes, assinado naquele 10 de janeiro de 1919.

Se isso é verdade, como que os alemães, 20 anos depois, tinham a mais poderosa das forças aéreas do mundo e, com tanta força, foram capazes de impor novamente tanto terror? Aquilo não foi a paz e nem a vitória, foi um armistício de 20 anos. Não houve uma primeira e uma segunda guerra, mas uma guerra só. Eu poderia explicar, mas, por ora, vamos deixar só a pulga atrás da orelha. Os Aliados não venceram em 18! Os americano sim, venceram, de fato, a guerra contra o Império Japonês em 45. Sabem como? Com duas bombas atômicas! Não jogaram nenhuma bomba atômica no Vietnã e perderam também, porque logo após a "vitória", a desocupação, os vietcongues tomaram o país. Até hoje os americanos dizem que venceram a guerra, fazem uma propaganda danada, choram e expõem os seus heróis mutilados, mas que raio de vitória foi essa? A guerra se passou no Vietnã e os vietnamitas sabem bem quem de fato venceu.

Eu poderia dar vários outros exemplos, como o Iraque, mas que tal um exemplo nacional? O Brasil venceu a Guerra do Paraguai. Por quê? Porque soube, àquele momento, impor sua narrativa dos fatos e, desde então, nunca mais houve conflitos do Brasil com nenhum outro país do continente. Nenhum outro país do continente nega a liderança que o Estado brasileiro exerce na região. A vitória não se deu com o fim do conflito armado, a vitória se deu com a imposição da narrativa histórica! Essa é uma tese que eu tenho e que posso provar com uma imensa facilidade, com diversos exemplos, desde a Antiguidade. Por exemplo: os Romanos derrotaram os cartaginenses? Sim, mas a vitória demorou quase um século e meio e, ao final, os romanos tiveram que aniquilar Cartago, pois não havia jeito de submeter o povo, tiveram que destruí-lo! Maquiavel já alertava para o fato de que os homens se vingam das ofensas leves, mas que nada podem fazer quanto às graves.

Os generais até podem entender da arte da guerra, mas são os estadistas quem de fato aplanam o caminho para a paz ou para a própria guerra em que os generais darão a vida. No primeiro caso, foi assim com Winston Churchill; no segundo, foi assim com Adolf Hitler.

Mas nada disso responde uma pergunta crucial: que seria, então, um estadista?

terça-feira, 7 de junho de 2016

A definição de Deus

No geral, eu não gosto de misticismos, hermetismo... Não! Eu gosto das coisas o mais clara e palpável possível. Por exemplo: Deus. Que é Deus? É o Ser Supremo, Onipotente, Onisciente, Onipresente, Benevolente etc. etc. etc.? Sim, tudo isso, mas pensar em Deus assim é meio difícil, não é? É difícil, nós, seres tão pequenos, pensar em algo tão grande, que parece tão distante, tão inacessível. Sabem como eu penso em Deus? De uma maneira, julgo, muito, mas muito mais simples. Deus, para mim, é a Verdade. O fogo queima: e isso é verdade, é, portanto, Deus! A água molha: e isso é verdade, é, portanto, também Deus! O fogo não pode deixar de queimar; a água, não pode deixar de molhar. Por que não? Porque Deus É aquele que É. Ele não pode ser de outra maneira, Ele não pode renegar a própria essência só porque eu quero que Ele o faça. Quem eu penso que sou, afinal? Se eu ponho a mão no fogo, eu me queimo. E isso não acontece porque Deus é malvado. O mal me aconteceu? Sim. Deus o permitiu? Sim. Mas não porque Deus é malvado, mas, sim, simplesmente, porque Deus não pode ser de outra maneira e nisto consiste toda a Justiça, definida na máxima de Upiano: Justitia est constans et perpetua voluntas jus suum cuique tribuendi (a justiça consiste em dar a cada um o que lhe é devido). O fato do mal existir e do mal me acontecer, não é prova, portanto, da maldade Divina. Eu acho que assim eu respondo a uma dúvida filosófica muito, muito antiga: por que o Mal existe? E outra: Por que Deus, sendo Bom, o permite? Essa parece ser a grande questão de Epicuro, mas ela não é uma boa questão. Não é tão difícil, é?

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Monteiro Lobato por Abreu Sodré e o mal da justiça humana

“O mal da justiça humana -- protestava, irônico, Monteiro Lobato, da prisão onde foi jogado pela ditadura do Estado Novo; o mal da justiça humana está na falta de uma lei que vou fazer quando for ditador: todos os juízes, depois de nomeados e antes de entrar no exercício do cargo, têm de gramar dois anos de cadeia, um de penitenciária e um de cela, a pão e água e nu -- em pelo; Não há nada mais absurdo do que o poder dado a um homem de condenar outros a uma coisa que ele não conhece: a privação da liberdade.”

(Roberto Abreu Sodré, No Espelho do Tempo, Meio Século de Política, 1995, p. 51)

domingo, 5 de junho de 2016

Política: história, religião, moral e cultura

O que determina a conduta das pessoas em sociedade não é a lei, é a cultura, e, da cultura, surgem-se as leis. Nós temos, então, um problema: de onde surge a cultura? Duas são ou podem ser as fontes: a moral e a religião. A moral, como fonte exclusiva, serve como substitutivo da religião, enquanto que é a religião que deveria servir, fornecer as bases da conduta moral, como foi na maior parte da história humana, em todos os casos (na Antiguidade, por exemplo, alguém não ter religião era meio como ser louco, sem juízo e, pela religião, se julgava os caráteres). Nós vivemos, por exemplo, época de extremo moralismo cultural e um definhamento das bases religiosas da cultura.

Quando esse negócio começou? Eu ainda não sei bem, mas me parece que está na gênese do chamado Estado Moderno, o Estado como grande Leviatã, aquele que produz o homem artificial, o homem que não é mais produto do gênio divino, o homem como uma obra de arte a ser acabada. A origem remonta os fins do século XIV. Maquiavel, por exemplo, ao que me parece, foi o primeiro a perceber algo muito importante: quem controla a moral, controla a política, controla cultura e, certamente até por isso, a Igreja passou a ser a inimiga numero um de todos os governantes desde então. Mas a Igreja não controlava a moral, pois a moral era dada pelas próprias bases cristãs do Ocidente, isto é, pelo Cristianismo propriamente dito e a prova maior disso foi que com a Reforma Protestante, muito dessa base cristã continuou a existir mesmo sem a Igreja Católica. É por isso que em Max Weber é possível se falar de uma ética protestante do capitalismo, que na verdade não é protestante, mas propriamente cristã, que dá origem ao Estado e à economia liberal (A Riqueza das Nações não é a principal obra de Smith, mas, sim, A Teoria dos Sentimentos Morais). A pré-história do liberalismo econômico, com todos os seus méritos, pode ser facilmente rastreada em autores cristãos, escolásticos e, mais precisamente, da Escola de Salamanca, no chamado "Seculo de Ouro Espanhol", com autores como o padre jesuíta Juan de Mariana.

Desde a Renascença, a Igreja Católica não mais perdeu o posto de bode expiatório de todos os males da humanidade, passando a existir, para alguns, apenas como um posto de resistência ao moralismo modernista em todas as suas vertentes, cujo mais atual é o chamado politicamente correto.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

A questão do recrudescimento de penas como política pública (esboço)

Um menor de idade mata, todo mundo começa a clamar pela redução da maioridade penal. Um maior mata e todo mundo começa a pedir por pena de morte. Um sujeitou estupra, todo mundo pede o aumento das penas para o estupro: castração química, prisão perpétua e morte, também, por que não? Se possível, prisão perpétua mais pena morte, para nem depois de morto o sujeito sair da cadeia.

Isso não é política de segurança pública, é demagogia pura e simples. São pessoas pensando com o figado, sedentas por sangue e vingança. Não é solução. Nunca será. A classe política tenta surfar nessa onda para ver se consegue uns votinhos a mais na eleição seguinte.

A luta feminista

Na realidade, estupro coletivo é algo absolutamente antigo. Vem desde os primórdios da civilização e não cessou até hoje. Em 1945, soldados soviéticos estupraram 2 milhões de mulheres alemãs, sendo que muitas delas se suicidaram antes, para não sofrerem a violência. Em 1937 e 1938, soldados do Império Japonês estupraram mulheres e crianças chinesas em Nanquim, foram, provavelmente, centenas de milhares de vitimas. O estupro coletivo era quase uma arma de guerra, um forma de vingança, de submeter um povo. Prática recorrente entre os povos bárbaros, na Idade Média, como os exércitos de Gengis Khan e Átila, o Huno. Entre poucos povos, como o cristão, essa prática foi veementemente repudiada.

O Boko-Haram tem como prática recorrente o sequestro de meninas, na África, como forma de dominação. As coitadas são escravizadas e passam o resto da miserável vida delas sendo estupradas. O Boko-Haram afirma que a educação ocidental, cristã ou, como eles preferem, "não-islâmica", é um pecado.

Eu sou absolutamente favorável à luta feminista, em certo sentido, eu só não entendo porque o discurso feminista parte sempre de uma criminalização dos valores judaico-cristãos nos quais se baseiam toda a Civilização do Ocidente. Se eu fosse mulher, certamente procuraria ingressar na luta feminista, por direitos, mas, até por isso mesmo, me voltaria, primeiramente, contra o feminismo radical, que desvirtua o movimento que pode, sim, ser absolutamente legítimo e necessário. Em que outra sociedade as mulheres foram tão valorizadas? Existe o machismo? Sim, é claro que sim. É legítima a luta contra o machismo? Sim, é claro que sim também. Mas em que consiste o machismo, odiento e ainda existente na sociedade Ocidental? Seria, mesmo, uma boa tática tentar minar as bases sociais do Ocidente para combater o machismo? Descartar a criança junto com a água suja?

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Ser distinto

"A elegância distinta (...) é difícil de imitar, porque, no fundo, ela é negativa e pressupõe uma prática longa e constante. Pois a pessoa não deve, por exemplo, representar na sua atitude qualquer coisa que indique dignidade, já que dessa maneira se cai facilmente num carácter formal e orgulhoso; antes se deve, simplesmente, evitar o que é indigno, o que é vulgar; a pessoa nunca se deve esquecer, deve prestar sempre atenção a si e aos outros, não perdoar nada a si própria, não fazer aos outros nem de mais, nem de menos, não parecer comovida com nada, não se impressionar com nada, nunca se apressar demasiado, saber dominar-se em qualquer momento e, assim, manter um equilíbrio exterior, por muito forte que seja interiormente o temporal. O homem nobre pode, em certos momentos, desleixar-se; o homem distinto nunca. Este é como um homem muito bem vestido: não se enconstará em lado nenhum e toda a gente evitará roçar nele. Ele distingue-se dos outros e, todavia, não deve ficar sozinho; pois, tal como em todas as artes e, portanto, também nesta, o mais difícil deve, finalmente, ser executado com facilidade: por isso, a pessoa distinta, apesar de todo o isolamento, deve parecer sempre ligada a outrem; em parte alguma, deve mostrar-se rígida; em todo o lado deve ser polida e aparecer sempre como a primeira, sem nunca se impor como tal. Vê-se, por conseguinte, que, para parecer distinto, se tem de ser realmente distinto."

(Trecho do livro Os Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister, de J. W. Goethe)

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Ciro Gomes e a Lei Rouanet

Ciro Gomes, ultimamente, vem aumentando muito a sua atividade militante, como ele mesmo diz, em razão do momento político, como ele também admite. São uma enxurrada de palestras, aparições na mídia e grande movimentação de partidários dele na internet. Eu considero Ciro Gomes um caso especial de cretino intelectual e não é de hoje. Quando estiver com tempo vou começar a assistir tudo, coletar todos os dados possível. O Ciro é um sujeito inteligente, mas não é tão difícil assim rastrear os erros dele, principalmente quando se trata da situação econômica. Dia desses, por exemplo, ele desandou a falar da Lei Rouanet, dizendo, pasmem!, que pretende reestatizar os incentivos à cultura, caso acabe eleito presidente (Deus nos livre disso!). A razão é que, do jeito que está, a Lei Rouanet entregou nas mãos do "empresariado" o ato discricionário de financiar ou não projetos culturais, o que estaria sendo muito ruim para a cultura do país, uma vez que o "empresário" estaria escolhendo financiar apenas os projetos que mais e melhor saciassem aos seus interesses econômicos imediatos. O que o Ciro não disse, pois isso comprometeria todo o seus discurso estatista vagabundo, é que das "empresas" que mais financiam projetos culturais no Brasil via Lei Rouanet, estão empresas e bancos estatais ou aquelas empresas controladas indiretamente pelo Estado, como é o caso da Vale, onde o governo manda e desmanda porque controla o Fundo de Investimentos dos Aposentados, colocando e tirando, inclusive, quem bem entender na presidência. Roger Agnelli, o melhor presidente que a Vale teve até hoje foi despedido justamente porque, como grande empreendedor que era, agiu tendo em vista os interesses econômicos da empresa (foi acusado pelo governo de gerir a empresa como "se fosse uma empresa estrangeira", isto é, de fazer a empresa dar lucros!!!). Sabem por que a Samarco, no caso da Barragem de Mariana, não vai ter mais do que um prejuízo econômico pela tragédia que nem de longe é proporcional aos danos??? Porque era função do governo fazer as vistorias e garantir a segurança daquela comunidade. Como o Estado poderia punir o próprio Estado? Não vai punir. E depois, depois das revelações da Lava Jato, tudo que vimos é que se tem uma coisa que empresas estatais não visam de jeito nenhum, são os lucros, os seus próprios interesses econômicos.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Renúncia

Chora de manso e no íntimo... procura
Tentar curtir sem queixa o mal que te crucia:
O mundo é sem piedade e até riria
Da tua inconsolável amargura.

Só a dor enobrece e é grande e é pura.
Aprende a amá-la que a amarás um dia.
Então ela será tua alegria,
E será ela só tua ventura...

A vida é vã como a sombra que passa
Sofre sereno e de alma sombranceira
Sem um grito sequer tua desgraça.

Encerra em ti tua tristeza inteira
E pede humildemente a Deus que a faça
Tua doce e constante companheira...

Manuel Bandeira 

domingo, 8 de maio de 2016

Sobre a caridade

"Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todas as suas forças."
(Dt 6, 5)

De todas as coisas, só uma é de fato bela: a caridade. O cristianismo é isso, é a religião da caridade, é a religião do outro que sofre. Por mais que se busque em todas as outras religiões do mundo (vide a Enciclopédia de Religião e Ética), não se encontrará semelhante conceito ou valor. Em nenhuma! O que importa para nós é entender a razão, o porquê. Por que é assim? É assim porque o mundo é feio e malvado. E não será jamais bonito e bom, pois se algum dia viesse a ser, não haveria razão nenhuma para nós nos compadecermos, como nos compadecemos, com aqueles que sofrem e que ainda vão sofrer, inevitavelmente vão sofrer.

As pessoas precisam entender isso muito bem para serem cristãs: este mundo não tem solução. Não há como esperar pelo melhor. Temos, isso sim, que nos preparar para o sofrimento, para o pior, para a dor e buscar, por isso mesmo! -- porque o sofrimento e a dor são a regra deste mundo --, ajudar ao próximo, como quem ajuda a um companheiro que se encontra na mesmíssima canoa furada e que nos fará companhia, quando a canoa afundar, até o estuário do rio.

Odeiem as demagogias, políticas e discursos que prometem soluções ainda que de longuíssimo prazo e por mais evanescentes que sejam. Preparem suas vidas e suas almas para a Vida Eterna, para estarem na presença de Deus e, assim e só assim, tudo terá valido a pena. A vida do cristão e por conseguinte dos filósofos e sábios, é uma constante preparação a morte. A oração da Ave Maria, o Pai-Nosso, o nosso bê-a-bá, clamamos, suplicamos pela estadia no Reino de Deus e não pelo destino comum de todos os corpos putrefatos entre os cascalhos.

Ser cristão é aprender a morrer e ansiar pela hora da morte como Santo Agostinho ansiou. Não encarem a morte com tristeza: encarem-na com alegria! Quem sabe que existe um Deus bom e justo e que nele pode confiar, nada tem a temer. Todo medo, qualquer dos medos que se tenha, é um sinal eminente de fraqueza na Fé, de desesperança em Deus. Os repreenda e faça em sinal de fé! Se tiver medo de qualquer coisa, qualquer coisa!, faça! Não é fácil, eu sei, mas uma vida grandiosa depende de tentarmos, pelo menos. Tenham confiança em Deus da mesma forma que têm quando entram num elevador. Ninguém entra num elevador se duvidar, por menor que seja a dúvida, que ele possa despencar. Quem encara a morte com triste e lamento, não é bom cristão: pais que perderam os filhos, filhos que perderam os pais, irmãos que perderam irmãos... Enterrem-nos! A vida só pertence a Deus.

A religião não é um conforto, algo que console, um anestésico, uma boia que você deva se agarrar para não morrer afogado. Você vai morrer afogado de qualquer maneira! A questão também não é o fato inquestionável de que você vai morrer. (Você achou que fosse acontecer o quê? Virar uma borboleta?) Olhe para os seus pais: eles irão morre! Pais, olhem para os seus filhos: eles também vão morrer! O natural é que os pais morram primeiros, mas quem é que sabe? Pais: eduquem seus filhos para o céu! Filhos: queiram estar no céu com seus pais!

Para essas dores, as dores da vida, não existem remédios, apenas alguns subterfúgios malignos que prometem aliviá-las. Não vão aliviar! As dores da vida não têm remédio porque não são doença, mas, sim, sintomas, sintomas de uma vida afastada de Deus. Se dói, é porque ainda se sente. E se se sente é porque sua alma ainda está presa a este mundo. Presa a esta vida de merda porque você não está preparado para a morte, não está preparado para se encontrar na presença de Deus, não é digno de Deus.

Tornem-se dignos! Sejam dignos! A vida depende disso. 

sexta-feira, 29 de abril de 2016

O liberal, a eficiência e a caridade

Quando Roberto Campos dizia que o mundo seria salvo pelos eficientes e não pelos caridosos, evidenciava todo o terrível vício de sua mentalidade liberal. Quem é cristão e católico sabe muito bem que, em primeiro lugar, o mundo não será salvo e, em segundo, a humanidade jamais será eficiente o bastante para prescindir da caridade.

sábado, 23 de abril de 2016

A instabilidade das coisas do mundo

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.

Gregório de Matos

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Impressões sobre a filosofia de José Ortega y Gasset

Estou lendo José Ortega y Gasset, o grande filósofo espanhol do século XX. O impacto que ele me causa é grande, estou realmente muito impressionado, principalmente com os conceitos da filosofia do autor, como o perspectivismo, a razão vital, a ideia da história como um sistema. Não vejo a hora de empregar seus conceitos à análise de conjunturas sociais e políticas das mais diversas.

Diz o Ortega que o homem não tem natureza, tem história. Isso significa que aquela perene questão filosófica sobre a natureza humana não faz tanto sentido ao final de contas. A pegunta "que sou?" se depreende dos fatos narrados sistematicamente sobre a própria história de vida, e a verdade, na vida, consiste em manter-se fiel à própria história, ao próprio ponto de vista, a perspectiva absolutamente única e unicamente (!) verdadeira com que a encaramos. A liberdade do homem se justifica, por exemplo, pelo fato de que carece o homem de identidade constitutiva, por ser, ser inconcluso. Para Deus, um ser perfeito, a liberdade seria algo absolutamente inútil, despropositada, pois Deus nada precisa escolher, nada precisa ser. Deus é aquele que é, enquanto o homem, imperfeito, que arrasta pela vida os sinais de seu fracasso e de sua miséria, ainda busca o ser que parece sempre inatingível, como no rio da vida de que falava Heráclito.

A critica de Ortega aos utopistas é muito contundente. Ele diz que a única perspectiva falsa é a que se pretende única e que a perspectiva do utopista não é sequer uma perspectiva, pois esta pressupõe estar-se a observar numa certa localização espacial, presente também no tempo. Erra o utopista porque o seu credo não se situa, nem no passado, nem no futuro, sendo essa a razão de sempre incorrerem em trágicos erros, por não se manterem fieis ao seu ponto vista.

Ortega é um magnânimo pensador!

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Os idiotas da objetividade, por Nelson Rodrigues

Sou da imprensa anterior ao copy desk. Tinha treze anos quando me iniciei no jornal, como repórter de polícia. Na redação não havia nada da aridez atual e pelo contrário: — era uma cova de delícias. O sujeito ganhava mal ou simplesmente não ganhava. Para comer, dependia de um vale utópico de cinco ou dez mil-réis.

Mas tinha a compensação da glória. Quem redigia um atropelamento julgava-se um estilista. E a própria vaidade o remunerava. Cada qual era um pavão enfático. Escrevia na véspera e no dia seguinte via-se impresso, sem o retoque de uma vírgula. Havia uma volúpia autoral inenarrável. E nenhum estilo era profanado por uma emenda, jamais.

Durante várias gerações foi assim e sempre assim. De repente, explodiu o copy desk. Houve um impacto medonho. Qualquer um na redação, seja repórter de setor ou editorialista, tem uma sagrada vaidade estilística. E o copy desk não respeitava ninguém. Se lá aparecesse um Proust, seria reescrito do mesmo jeito. Sim, o copy desk instalou-se como a figura demoníaca da redação.

Falei no demônio e pode parecer que foi o Príncipe das Trevas que criou a nova moda. Não, o abominável Pai da Mentira não é o autor do copy desk. Quem o lançou e promoveu foi Pompeu de Sousa. Era ainda o Diário Carioca, do Senador, do Danton. Não quero ser injusto, mesmo porque o Pompeu é meu amigo. Ele teve um pretexto, digamos assim, histórico, para tentar a inovação.

Havia na imprensa uma massa de analfabetos. Saíam as coisas mais incríveis. Lembro-me de que alguém, num crime passional, terminou assim a matéria: — “E nem um goivinho ornava a cova
dela”. Dirão vocês que esse fecho de ouro é puramente folclórico. Não sei se é e talvez seja. Mas saía coisa parecida. E o Pompeu trouxe para cá o que se fazia nos Estados Unidos — o copy desk.

Começava a nova imprensa. Primeiro, foi só o Diário Carioca; pouco depois, os outros, por imitação, o acompanharam. Rapidamente, os nossos jornais foram atacados de uma doença grave: — a objetividade. Daí para o “idiota da objetividade” seria um passo. Certa vez, encontrei-me com o Moacir Werneck de Castro. Gosto muito dele e o saudei com a mais larga e cálida efusão. E o Moacir, com seu perfil de lord Byron, disse para mim, risonhamente: — “Eu sou um idiota da objetividade”.

Também Roberto Campos, mais tarde, em discurso, diria: — “Eu sou um idiota da objetividade”. Na verdade, tanto Roberto como Moacir são dois líricos. Eis o que eu queria dizer: — o idiota da objetividade inunda as mesas de redação e seu autor foi, mais uma vez, Pompeu de Sousa. Aliás, devo dizer que o copy desk e o idiota da objetividade são gêmeos e um explica o outro.

E toda a imprensa passou a usar a palavra “objetividade” como um simples brinquedo auditivo. A crônica esportiva via times e jogadores “objetivos”. Equipes e jogadores eram condenados por falta de objetividade. Um exemplo da nova linguagem foi o atentado de Toneleros. Toda a nação tremeu. Era óbvio que o crime trazia, em seu ventre, uma tragédia nacional. Podia ser até a guerra civil. Em menos de 24 horas o Brasil se preparou para matar ou para morrer.

E como noticiou o Diário Carioca o acontecimento? Era uma catástrofe. O jornal deu-lhe esse tom de catástrofe? Não e nunca. O Diário Carioca nada concedeu à emoção nem ao espanto. Podia ter posto na manchete, e ao menos na manchete, um ponto de exclamação. Foi de uma casta, exemplar objetividade. Tom estrita e secamente informativo. Tratou o drama histórico como se fosse o atropelamento do Zezinho, ali da esquina.

Era, repito, a implacável objetividade. E, depois, Getúlio deu um tiro no peito. Ali estava o Brasil, novamente, cara a cara com a guerra civil. E que fez o Diário Carioca? A aragem da tragédia soprou nas suas páginas? Jamais. No princípio do século, mataram o rei e o príncipe herdeiro de Portugal. (Segundo me diz o luso Álvaro Nascimento, o rei tinha o olho perdidamente azul.) Aqui, o nosso Correio da Manhã abria cinco manchetes. Os tipos enormes eram um soco visual. E rezava a quinta manchete: “HORRÍVEL EMOÇÃO!”. Vejam vocês: — “HORRÍVEL EMOÇÃO!”.

O Diário Carioca não pingou uma lágrima sobre o corpo de Getúlio. Era a monstruosa e alienada objetividade. As duas coisas pareciam não ter nenhuma conexão: — o fato e a sua cobertura. Estava um povo inteiro a se desgrenhar, a chorar lágrimas de pedra. E a reportagem, sem entranhas, ignorava a pavorosa emoção popular. Outro exemplo seria ainda o assassinato de Kennedy.

Na velha imprensa as manchetes choravam com o leitor. A partir do copy desk, sumiu a emoção dos títulos e subtítulos. E que pobre cadáver foi Kennedy na primeira página, por exemplo, do Jornal do Brasil. A manchete humilhava a catástrofe. O mesmo e impessoal tom informativo. Estava lá o cadáver ainda quente. Uma bala arrancara o seu queixo forte, plástico, vital. Nenhum espanto da manchete. Havia um abismo entre o Jornal do Brasil e a tragédia, entre o Jornal do Brasil e a cara mutilada. Pode-se falar na desumanização da manchete.

O Jornal do Brasil, sob o reinado do copy desk, lembra-me aquela página célebre de ficção. Era uma lavadeira que se viu, de repente, no meio de uma baderna horrorosa. Tiro e bordoada em quantidade. A lavadeira veio espiar a briga. Lá adiante, numa colina, viu um baixinho olhando por um binóculo. Ali estava Napoleão e ali estava Waterloo. Mas a santa mulher ignorou um e outro; e veio para dentro ensaboar a sua roupa suja. Eis o que eu queria dizer: — a primeira página do Jornal do Brasil tem a mesma alienação da lavadeira diante dos napoleões e das batalhas.

E o pior é que, pouco a pouco, o copy desk vem fazendo do leitor um outro idiota da objetividade. A aridez de um se transmite ao outro. Eu me pergunto se, um dia, não seremos nós 80 milhões de copy desks? Oitenta milhões de impotentes do sentimento. Ontem, falava eu do pânico de um médico famoso. Segundo o clínico, a juventude está desinteressada do amor ou por outra: — esquece antes de amar, sente tédio antes do desejo. Juventude copy desk, talvez.

Dirá alguém que o jovem é capaz de um sentimento forte. Tem vida ideológica, ódio político. Não sei se contei que vi, um dia, um rapaz dizer que dava um tiro no Roberto Campos. Mas o ódio político não é um sentimento, uma paixão, nem mesmo ódio. É uma pura, vil, obtusa palavra de ordem.

(Publicado no jornal O Globo em 22 de fevereiro de 1968)

Política e princípios

Algumas pessoas tendem a tomar posições políticas com base em princípios, mas poucas conseguem entendem quão ingênua é tal atitude isoladamente. Por exemplo: o caso dos privatistas, leiloeiros (ou seriam doadores?) de estatais é um dos mais sérios da política brasileiro dos últimos... 30 anos. Muitos, por princípio, venderiam a própria mãe num leilão. Eu também sou favorável a formas de desestatização, como é o caso das privatizações, mas eu entendo que muitas vezes meus posicionamentos, principiológicamente considerados, são insuficientes para contornar problemas imediatos concernentes à administração pública, casos concretos que se avolumam no próprio cotidiano político e que demandam medidas imediatas. A questão é: deveria o administrador abdicar de seus princípios em função das medidas imediatistas que a própria realidade complexa do quadro político como um todo exigem que ele tome? Bem, se ele for apenas um "administrador", sim, deveria abdicar, mas quem disse que estadistas são apenas, como direi?, "administradores"? Lady Margaret Thatcher é quem bem dizia que não se satisfazia em administrar o fim de uma grande nação, e foi justamente por ter sido muito mais que uma mera administradora que ela mudou para todo sempre a política inglesa. O problema da política, é o problema da virtude. Não faltam administradores no Brasil, falta, isso sim, estadistas.

domingo, 10 de abril de 2016

O conceito de liberdade

No Fantástico, um repórter pergunta nas ruas o que as pessoas pensam ser a "liberdade". As respostas? Bem, ninguém deu nenhuma resposta! As pessoas dizem o que supostamente podemos fazer com a liberdade: viajar, ir e vir, pensar etc. etc., mas O QUE É liberdade ninguém é capaz de dizer.

Esse é um problema filosófico sério! A utilidade de uma coisa, como a da liberdade, não compreende a essência, a definição, o conceito. É justo o contrário! A definição, o conceito é que compreende a finalidade e, inclusive, o além. O mesmo vale para qualquer outra coisa. A religião, por exemplo, o que é religião? O mestre Miguel Reale tem uma frase que eu gosto muitíssimo: "Na arvore do conhecimento, os conceitos se equivalem aos frutos maduros". Eu tenho uma definição de liberdade! Liberdade é a ausência de necessidade ou, melhor dizendo, a contingencia de ser. O ser humano, por tanto, é livre para tudo que a NECESSIDADE não lhe impõe. Necessidades fisiológicas, por exemplo, tolhem a liberdade dos indivíduos. A própria estrutura da realidade cerceia a liberdade em inumeráveis casos. Por exemplo: eu não sou "livre" para pular da janela do apartamento em que moro (que a propósito se situa no 8º andar). Nem "livre" para tomar de canudinhos um frasco de veneno. Liberdade ilimitada, portanto, não apenas é uma estupidez, mas uma impossibilidade, pela própria contingência de ser.

Muitos diriam que eu sou sim livre para me matar, tomando o frasco de veneno ou pulando da janela. Mas que raio de liberdade seria essa que vai contra a necessidade mais elementar dos seres que é a de se manterem vivos? Muitos podem ainda dizer que o meu conceito é, portanto, insuficiente. Ok, pois que apresente outra definição capaz de apreender todo o fenômeno concreto do ser de ser livre. Se matar é uma negação da liberdade, pois manter-se vivo é necessário ao ser humano inclusive para que este possa vivenciar a liberdade. Mas não seria possível abdicar da liberdade? Bem, para isso supõe-se a liberdade e, mais ainda, supõe-se a empresa consciente de um indivíduo livre e que este indivíduo decida, pois em caso contrário, teríamos ai uma boa justificativa para a escravidão, a dominação do homem pelo homem, por exemplo, não é? É muito perigoso esse pensamento! Não significa, toda via, que não possa ser verdadeiro. Será que um homem não poderia, por exemplo, sujeitar-se à morte, como por uma pessoa amada? Sim, mas por que faria? A resposta é uma só: por necessidade, não por nenhuma outra razão. A morte também pode ser necessária em alguns casos, como aliás é no maior de todos os casos: a vida.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Sobre o conceito de cultura e o relativismo cultural

Sabem por que asiáticos são melhores estudantes, em média, do que outros povos? (Em especial os japoneses.) Cultura. Não cultura no sentido em que nós por estas bandas estamos acostumados a ouvir falar (em especial por aqueles que dizem, entre outras coisas, que "funk", por exemplo, é cultura). A alimentação dos japoneses, baseada no cultivo de arroz, por exemplo, cujo trato demanda imensa disciplina, comprometimento, paciência, dedicação etc. etc. Cultura vem de cultivar. Como se "cultiva" o funk, o rap, o samba, o grafite ou sei lá mais o quê, formas diversas de expressão que na melhor das hipóteses podem no máximo serem boas maneiras de se expressar e na maioria das vezes nem mesmo isso? De que maneira, positivamente, tais expressões influiriam positivamente na construção, no cultivo de homens, indivíduos e, consequentemente, uma sociedade melhor? Em 99,99% das vezes em que se fala de cultura por aqui, ninguém parece saber ao certo do que se está a falar. Cultura é sinônimo de bobagem e os "homens cultos" são todos uns paspalhos.

Cultura também deriva de culto, já que citamos os "homens cultos". O problema é que cultuar alguma coisa exige, antes, um senso de importância bastante elevado. Deus, por exemplo, é digno de culto, no sentido que determina o primeiro mandamento da Lei: o de amá-lO acima de todas as coisas. O culto a Deus, para aquele que nEle crê, é claro!, é o mais importante. Porem outras coisas também são dignas de culto, mas, para bem cultuá-las, é preciso um sentido de hierarquia (como cultivar belas flores entre ervas daninhas?). Eu não posso prestar culto ao samba da mesma forma que presto culto à música clássica. Se eu não tenho o sentido de que o melhor dos sambas ainda é pior que a 9ª Sinfonia de Beethoven, é sinal de que a coisa vai muito mal. Essa falta de sentido é que acaba com tudo. Por isso o homem culto é um paspalho, não por ser culto, é claro!, mas por cultuar uma série de coisas e expressões das mais baixas e muitas vezes até vis. Em suma: uma cultura de merda!

(O grande problema da cultura, penso eu, é também parte do problema da virtude na modernidade. Escrevi sobre esse problema no post anterior.)

Outro empecilho à boa cultura é o relativismo estético e moral. Se cultuar exige um senso de hierarquia, é necessário haver valores objetivos a se determinar para que possamos seguir em frente ou, no caldeirão da mediocridade, tudo tende a se nivelar por baixo. O relativismo cultural elimina todas as expectativas de um futuro grandioso, abortando a capacidade criativa do espírito, pois esta sequer tem a chance de se desenvolver. Nossa única esperança é a de nos envolver em misérias sem fim.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

A questão da virtude na Filosofia Moderna

Eu acho a Filosofia Moderna completamente maluca pelo simples fato de ter passado praticamente batida sobre a questão da virtude, que é, para mim, de longe a mais importante de todas. Falar de ética, por exemplo, sem falar de virtude ou de política, estética, teoria do conhecimento etc., sem um foco direto na questão da virtude, é, para mim, completa perca de tempo. Eu tenho até pouco interesse em filósofos modernos. Por que ler Jean-Paul Sartre se eu posso ler Platão e Aristóteles???

Aristóteles começa assim sua Ética: "Toda arte e toda investigação, bem como toda ação e toda escolha, visam a um bem qualquer; e por isso foi dito, não sem razão, que o bem é aquilo a que todas as coisas tendem."

Não é absolutamente óbvio, será que não está, sem nenhuma sobra de dúvidas, subentendido na primeira frase (!) que, para o Filósofo, antes das artes e das investigações, das ações e das escolhas, importa muito mais a questão do bem? Ou é isso ou eu não sei ler! Aliás, não há o que discutir, o primeiro livro da Ética a Nicômaco tratará apenas dessa questão e somente a partir do segundo livro é que o Estagirita irá se debruçar sobre questão da natureza dos atos.

Quando Descartes, o fundador da filosofia moderna, diz, por exemplo, "penso, logo existo", o eu, isto é, o eu que pensa, pois eu penso, permanece inalterado ao fim da sentença, é um clássico non sequitur. Se EU penso e se por EU pensar EU existo, então a conclusão não segue à premissa pelo fato de que o EU já estava subentendido desde o começo, isto é: o Eu pensa! Onde foi parar a tal da "dúvida metódica" de René Descartes principalmente nessa questão do Eu? O edifício filosófico em que se assenta sua filosofia se esvai, some como fumaça no ar!

Antes do pensar, interessa o Eu, pois é o Eu quem pensa, como ele mesmo afirma. E, para esse problema, pelo que conheço da filosofia de Descartes, ele incrivelmente não apresenta nenhuma solução! Que diabos se passa com os filósofos modernos? Não faço ideia. Como uma mente tão genial como a de Descartes pôde ter deixado passar um problema tão, tão tolo e evidente que salta aos olhos do observador atento? Podem me chamar de arcaico, se quiserem, eu apenas me interesso em estar certo e acho que estou. Na realidade, o que digo não foi primeiramente notado por mim, mas outros muito maiores do que eu.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

A Filosofia e o conhecimento da realidade

Só um e apenas um saber humano pode ajudá-lo a compreender a realidade: a Filosofia. Você pode ser um grande físico, um grande matemático, um biólogo formidável e, enfim!, pode ser o próprio Einstein, Niels Bohr em pessoa, um mestre em todas as ciências, mas sua área de pesquisa, de saber, sua visão, será sempre, sempre limitada, limitada pelo método científico mesmo.

E os filósofos, os únicos que entendem a realidade, como ensina Giovanni Reale, "são importantes não só pelo que dizem, mas pelas tradições que geram e põem em movimento: algumas de suas posições favorecem o nascimento de algumas ideias, mas, juntas, impedem o nascimento de outras. Portanto, os filósofos são importantes quer pelo que dizem, quer pelo que evitam que se diga".

Ao contemplar o todo, eles mudam necessariamente todas as perspectivas usuais, mudam a visão do significado da vida do homem e impõem uma nova hierarquia de valores. Em resumo, a verdade infunde uma enorme energia moral. Foi com base nessa energia moral que Platão, por exemplo, quis construir o seu Estado ideal e o Ocidente apenas pôde ser grande pela força do espírito de homens como Aristóteles, sendo que entrou em declínio justamente com o advento de uma nova perspectiva do problema lógico, impulsionado principalmente pela crítica kantiana e a dialética de Hegel.

Entender que tudo que permanece se constrói apenas pela força do espírito e das ideias que dele emanam é elementar e nada se entende sem levar isso em consideração. Se você não compreende tamanha obviedade, está perdido no mundo da lua! Acompanhe as discussões públicas, o progresso científico e técnico pelo qual passamos nos dois últimos séculos. Nada surge do nada. A modernidade é soberba e fadada ao fracasso porque se recurso a olhar para trás.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Fé e Ciência Moderna



Exposição do padre jesuíta espanhol Manuel María Carreira Vérez, teólogo, filósofo e astrofísico conselheiro e colaborador em diversos projetos da agência nacional espacial dos Estados Unidos, a NASA.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Mircea Eliade: ser homem

“Lo «sagrado» es un elemento de la estructura de la conciencia, no un estadio de la historia de esa conciencia. En los niveles más arcaicos de la cultura el vivir del ser humano es ya de por sí un acto religioso, pues tomar el alimento, ejercer la sexualidad y trabajar son actos que poseen un valor sacramental. Dicho de otro modo: ser — o más bien hacerse — hombre significa ser «religioso».”

(Trecho do livro Historia de las Creencias Religiosas, Vol. 1, Mircea Eliade, Ed. Paidós) 

Comentários e estudos de história da Reforma Anglicana

Nada me faz mais feliz do que estudar sem precisar me preocupar com mais nada, sem ter que prestar contas a ninguém. Só o que realmente me interessa, o estudo com um fim em si mesmo. Estou lendo sobre a Reforma Anglicana e, por tabela, a vida de São Thomas More. Das coisas que li até agora, as que mais me comoveram foram, sem dúvidas, as palavras de agonia do Cardeal Wolsey. São de arrepiar, como geralmente são as últimas palavras:

"Se eu tivesse servido a Deus com metade da diligencia com que servi ao Rei, Deus não me teria deixado a morrer aqui."

O Cardeal Wolsey, depois de ter feito de tudo (inclusive usando de artifícios indevidos) para que a Igreja reconhecesse a relação concubinária do Rei Henrique VIII acabou, quando não obteve sucesso na empreitada, morrendo na mais absoluta desgraça.

O que aconteceu com a Inglaterra no século XV e XVI é muito impressionante, mas também o momento foi tempestuoso e controverso para a própria Igreja Católica. O Renascimento, como um todo, me parece um período de declínio civilizacional. Roma feriu profundamente o sentimento nacionalista do povo ingleses ao decidir manter sua posição inalterada no caso do Rei Henrique VIII e de sua Rainha Catarina de Aragão. Os ingleses haviam visto a maneira escandalosamente arbitrária com que agiu o Papa Alexandre VI, Rodrigo Bórgia, no caso do divorcio do Rei da França, Luís XII. Luís XII de França era, inclusive, concunhado de Henrique VIII. Sem dúvidas as ações de Rodrigo contribuíram e muito para que a imagem da Igreja acabasse abalada, em menor e maior grau a depender de onde fosse, em todos os reinos da Europa. [Rodrigo Bórgia merece um estudo posterior mais aprofundado.] Eu realmente não sei o que pensar e quanto mais leio mais confuso acabo ficando (eu já havia experimentado sentimento parecido ao estudar o renascimento italiano, principalmente a partir da obra do Jacob Burckhardt). Não sei se gosto, não sei se desgosto do Cardeal Wolsey, por exemplo. Tem momentos que eu acho que o entendo, pois ele viu na anulação do casamento do rei uma chance de salvar a fé católica na Inglaterra, mas tem vezes que defendê-lo é impossível.

Que demônio também não foi aquela tal de Ana Bolena! A amante de Henrique VIII, pivô de toda a confusão, é uma das mulheres mais impressionantes da história. Até na hora de morrer foi capaz de causar os piores sentimentos em toda a corte. Naquela época, por exemplo, os carrascos usavam machados nas execuções, o condenado ou condenada, como no caso, colocava a cabeça inclinada sobre uma espécie de tora e então dali, com um único golpe desferido na nuca, a cabeça rolava para frente, como se pode imaginar. Ana, ciente do procedimento, enviou uma carta ao rei pedindo um carrasco francês, que usava espada em vez de machado porque, segundo ela mesma, uma rainha jamais abaixava a cabeça para os seus súditos. Imagino a reação de toda a corte que dela, definitivamente, já não tinha o melhor juízo. O rei, impressionado com o pedido, acabou acatando (certamente, ele ainda conservava algum tipo de afeto por ela). (O filme A Outra, que conta a história de Ana, interpretada pela linda Natalie Portman, é bem mais ou menos e mais para menos, eu diria, pois tem uma porção de erros tolos, mas ainda sim vale a pena assistir. Foi baseado num livro de uma tal Philippa Gregory. Um ponto, em particular, de que eu não gostei no filme é justamente quando Ana se coloca diante do carrasco toda se tremendo. Eu não consigo imaginá-la tremendo e em prantos nem mesmo na hora final! Existem relatos de que ela, inclusive, teria olhado nos olhos do carrasco, indicado o pescoço com as mãos com grande delicadeza e, serenamente, dito: "É pequeno, muito pequeno, não é verdade?" Naquela época, as mulheres nobres e casadas ocultavam, algumas mais e outras menos, o pescoço, não sei ao certo o motivo, talvez por modismo ou mesmo por puro recato. Isso é engraçado particularmente no caso de Ana, que foi acusada até de incesto, por se relacionar intimamente com o próprio irmão. Definitivamente, eu acho que ela morreu sem derramar uma única lágrima.)

Já sobre São Thomas More o que exatamente eu posso dizer? Deus do céu! Que grande homem! Descobri um novo modelo de ser humano que sem dúvida nenhuma vou levar para o resto da minha vida. Quem me dera um dia poder ser tão brilhante quanto ele foi, ser um pai e um marido como ele foi, ter um quinto do seu vigor moral, da sua fé, da sua força e, enfim, de tudo. Além de tudo, ele é um grande padroeiro, me parece, de nós advogados e futuros advogados. (Tem um filme sobre São Thomas More que é muito, muito bom: A Man for all Seasons, que eu traduziria como "Um homem de todas as épocas" ou, talvez, "estações", mas a empresa que distribuiu o filme no Brasil preferiu "O homem que não vendeu sua alma", titulo que eu não gostei muito. São Thomas More morre como um mártir católico, defensor intransigente de sua fé. No filme, diversos momentos são intensamente comoventes. Descobri também que tem uma série sobre esse período da dinastia de Henrique VIII que se chama The Tudors, mas eu ainda não assisti. É projeto para as férias.)

Na história da reforma anglicana, sem dúvidas, um capitulo fundamental é a mudança da coroa da Dinastia Tudors para a Casa de Stuart, marcado pela União das Coroas no reinado de Jaime VI e I, Rei da Inglaterra, Escócia e Irlanda. Após a fundação da Igreja da Inglaterra, a disposição ou configuração da igreja se manteve praticamente inalterada. Foi assim durante todo o período de regência da Dinastia Tudors. A igreja era, talvez possamos dizer, católica em praticamente tudo e apenas não reconhecia a autoridade do Bispo de Roma, havia rompido relações com a Santa Sé. Com James VI e I, a coisa muda. Isabel I de Inglaterra, filha de Henrique VIII e Ana Bolena, por não ter herdeiros, é a última soberana Tudors, assumindo o trono o Rei da Escócia, Jaime VI, que ao unir as coroas viria a ser também Jaime VI e I. A Escócia de Jaime é também o berço da vertente calvinista do protestantismo inglês, levada para lá por um certo John Knox, que foi discípulo do próprio João Calvino em Genebra e também um precursor do chamado presbiterianismo. Prescindo, ainda, de maiores conhecimentos acerca da formação e das ideias que povoaram o espírito de Jaime, mas creio poder afirmar que foi somente sobre o seu reinado que teve início uma onda de reformas na igreja inglesa. Os protestantes, de maneira em geral, exigiam reformas, mudanças na instituição da igreja nacional e esta acabou em muitos pontos por responder aos anseios. Católicos Romanos foram perseguidos e disputas sangrentas se iniciaram entre os próprios protestantes. Alguns, mais radicais, viriam a fugir da perseguição da parte de seus irmãos também protestantes, buscando, a maioria, refugio na colonia inglesa na América, todos profundamente contrariados com a monarquia absolutista. A bíblia do Rei Jaime é desse período e foi imposta pelo monarca. Era e pretendia ser, em certa medida, uma afirmação da identidade nacional, já que o novo cânon não mais era escrito em latim, mas em língua vulgar, corrente em todos os domínios do rei: o inglês. O tradutor do texto sagrado, o pastor William Tyndale, pretendia que "todo menino de arado" tivesse acesso ao texto, sem o auxílio de nenhum sacerdote pra ajudá-lo a entender. Era um revolta contra o clero. Com a morte de Jaime, quem assume o trono é seu filho, Carlos I. Carlos, pouco após ascender ao trono, firmou casamento com uma princesa católica, Henriqueta Maria de França, o que não foi bem visto por parte da corte composta por protestante radicais também chamados de puritanos, que também gozavam de considerável prestígio na política local. No âmbito externo, a Europa estava em guerra e, com a guerra, a situação financeira se agravou. É preciso destacar que também o apoio do rei à França e ao Reino da Suécia católica, que lutava contra nações protestantes, foi mal visto pelo parlamento, que chegou a classificar a guerra de "cruzada católica". Católicos e protestantes luteranos firmaram acordo, mas os calvinistas não se deram por satisfeitos.

Os ânimos na Inglaterra foram se tornando cada vez mais difíceis de acalmar. Carlos I ainda tentou instaurar uma tirania, passando por cima do parlamento. Ao mesmo tempo, irrompeu um conflito militar no seio da Igreja da Escócia e da Irlanda, conhecido como Guerra dos Bispos. Na Irlanda, Carlo I nomeou um governador que, logo em um dos seus primeiros atos, confiscou as propriedades dos cristãos católicos locais. O resultado foi uma rebelião em outubro de 1641. No memento mais conturbado, os católicos tentaram um golpe, mas o golpe acabou frustado e o resultado foi um horrendo massacre católico contra colonos escoceses e ingleses.

A luta entre católicos e protestantes levaram a Inglaterra a uma Guerra Civil em 1642. Dos lados da batalha estavam católicos irlandeses, os ingleses leais ao rei, protestantes escoceses e as tropas do parlamento sob o comado puritano. Os protestantes venceram e aboliram a monarquia em 1649, passando a Inglaterra a ser uma república governada pelo pastor puritano protestante Oliver Cromwell, que se autodeclarou Lord Protetor da Inglaterra.

Originalmente escrito em 03/12/2015

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Reflexão inicial sobre a origem das grandes religiões universais

A própria estrutura em bloco e de certa forma acabada das grandes religiões universais já evidencia, por si só, que elas não podem ser de maneira nenhuma tomadas como originárias, produtos ou muito menos subprodutos de uma realidade social, cultural ou condição econômica, climática, geográfica ou ainda mera ocasião histórica condicionada a um determinado estágio de desenvolvimento psico-emocional como muitos autores afirmam (a Filosofia, por seu turno, pode muito bem ser explicada por um ou por todos esses elementos e muitos outros em conjunto, pois a estrutura da Filosofia, em sua origem, é completamente díspar a de qualquer crença ou prática religiosa que tenhamos notícia. O mesmo se dá com a ciência do Direito). Não fosse assim, teríamos que admitir que ao invés de formadas em blocos e "acabas", como dissemos, foram as grande religiões desenvolvidas, isto é, no começo de suas histórias, foram um "vir a ser", um projeto que realizar, o que em absoluto não nos permitiria explicar de maneira satisfatória a constituição e organização dos acontecimentos em torno do que se deu e principalmente se acometeu a essas práticas e crenças (tais dificuldades jamais afligiram, por exemplo, nenhum estudioso de História do Direito, de História da Filosofia, de História da Arte etc., todos esses saberes originários de algum ou da combinação de alguns dos elementos que anteriormente enumeramos). Além disso, custaria-nos muito explicar como as estruturas dessas grandes religiões se mantiveram, ao longo de séculos e séculos praticamente inalteradas.

Qual seria, então, a origem? Não vem ao caso. O que afirmo é que, sem nenhuma dúvida, qualquer tentativa de explicar uma grande religião, como o cristianismo, por exemplo, ou o judaísmo, o budismo, o islamismo, por algum desses elementos, fatalmente incorrerá em muitos becos sem saída, impossibilidades mesmas (que faça o leitor sua própria experiência!).

Cada religião, evidentemente, tem suas justificativas, mas essas justificativas não são aceitáveis de um ponto de vista separado do meramente religioso em questão, como, para a constituição de uma espécie de "ciência das religiões", seria absolutamente fundamental. A biologia, por exemplo, enquanto ciência, não fundamenta suas razões em conhecimentos próprios da biologia, assim como nenhum outro campo de conhecimento científico moderno. Como exemplo, jamais poderá nos dizer um biólogo o que seja vida, uma vez que a vida, em todas as suas formas, é objeto de estudo próprio da biologia. E se aceitarmos a definição de Kant de que a geometria é o estudo de todas as formas possíveis de espaço, também jamais poderá nos dizer o geômetra o que seja, enfim, espaço. É um problema de pressupostos bastante elementar. Tal "ciência das religiões", em sentido moderno, jamais existirá, pois, para existir, seus promotores terão que antes nos prover de boa solução para esse imbróglio que, em caso de não ser solucionado, minará os alicerceares e pressupostos do pretenso campo de saber científico.

Tomemos o caso dos muçulmanos como exemplo, que nos fornecem como justificativa para a origem de sua fé, um evento: o evento da revelação do corão ao profeta Maomé ou Muhammad, pelo Anjo Gabriel. O judaísmo: também por um evento surpreendente: Moisés recebendo de Deus a tábua da Lei no alto do Monte Sinai. O cristianismo: a anunciação de Jesus, o Messias (este já revelado por Deus como vindouro a uma longuíssima tradição de profetas), por um anjo à Virgem Maria e a São José. Estou persuadido, embora admita a possibilidade de estar errado, que não é possível analisar tais questões desde fora, com o mínimo de isenção. É certo que jamais haverá acordo entre as grandes religiões: jamais veremos os judeus admitirem voluntariamente (podem até serem forçados a isso!) que há apenas um Deus e que Maomé é seu Profeta. Nem veremos os budistas orarem o credo cristão. Que história é essa de que eu creio em Deus-Pai, todo poderoso, criador do céu e da terra e em Jesus Cristo seu único filho, Nosso Senhor? Não vai acontecer. Na esfera individual, certamente, ninguém duvidará nem jamais duvidou da possibilidade, mas as duas religiões são, elas sim, inconciliáveis. Mesmo que um budista passe, a partir de agora, a orar de acordo com o credo cristão, rechaçará o seu passado budista por inteiro.

Só é possível "conhecer" às religiões comparando-as (e existe uma disciplina absolutamente válida de estudo de religiões comparadas), aceitando uma delas e rechaçando todas as outras ou ainda renegando a todas, sem distinção. A visão do estudioso será sempre, de todas as formas, enviesada, comprometida de alguma maneira e disso não vejo como fugir.

Quanto à constituição da tal estrutura das grandes religiões que citamos no começo, essa merece posterior digressão.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

As fases e os períodos da história da filosofia antiga

"A filosofia antiga grega e greco-romana tem uma história mais do que milenar. Partindo do século VI a.C, chegando até o ano 529, ano em que o imperador Justiniano mandou fechar as escolas pagãs e dispersar os seus seguidores 

Nesse arco de tempo, podemos distinguir os seguintes períodos: 

1) O período naturalista, que, como já dissemos, caracterizou-se pelo problema da physis e do cosmos e que, entre os séculos VI e V, viu sucederem-se os jônicos, os pitagóricos, os eleatas, pluralistas e os físicos ecléticos.

2) O período chamado de humanistas, que, em parte, coincide com a última fase da história naturalista e com a sua dissolução, tendo como protagonistas os sofistas e, sobretudo, Sócrates, que pela primeira vez procura determinar a essência do homem. 

3) O momento das grandes sínteses de Platão e Aristóteles, que coincide com o século IV a.C., caracterizando-se sobretudo pela descoberta do supra-sensível [Metafísica] e pela explicitação e formulação orgânica de vários problemas da filosofia.

4) Segue-se o período caracterizado pelas escolas helênicas, que vai da grande conquista de Alexandre Magno até o fim da era pagã e que, além do florescimento do cinismo, vê surgirem também os grandes movimentos do epicurismo, do estoicismo, do ceticismo e a posterior difusão do ecletismo. 

5) O período religioso do pensamento veteropagão, como já acenamos, desenvolve-se quase inteiramente na época cristã, caracterizando-se sobretudo por um grandiosos renascimento do platonismo que iria culminar com o movimento neoplatônico. O reflorescimento das outras escolas seria condicionado de vários modos pelo mesmo platonismo.

6) Nesse período nasce e desenvolve-se o pensamento cristão, que tenta formular racionalmente o dogma da nova religião e defini-lo à luz da razão, com categorias derivadas dos filósofos gregos. 

A primeira tentativa de síntese entre o Antigo Testamento e o pensamento grego foi utilizada por Fílon, o Hebreu, em Alexandria, mas sem prosseguimento. A vitória dos cristãos irá impor sobretudo um repensamento da mensagem evangélica à luz das categorias da razão. Esse momento do pensamento antigo, porém, não constitui um coroamento do pensamento dos gregos, assinalando muito mais o começo da crise e a suspensão do modo de pensar do gregos e preparando assim a civilização medieval e as bases daquilo que viria a ser o pensamento cristão "europeu". Desse modo, mesmo levando em conta os laços que esse momento do pensamento tem com a última fase do pensamento pagão que se desenvolve contemporaneamente, ele deve ser estudado em separado, precisamente como pensamento véterocristão, sendo considerado atentamente, nas novas instâncias que ele instaura, como premissa e fundação do pensamento e da filosofia medievais." 

(Trecho do livro História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média, Giovanni Reale e Dário Antiseri, Ed. Paulus, 1990, p. 25-26)

domingo, 17 de janeiro de 2016

O vício essencial da Filosofia Moderna à luz da Filosofia Cristã

“Para os racionalistas, o espírito humano não é o sujeito que percebe a verdade, mas a própria verdade percebida; não é uma potência determinada pelo objeto inteligível, mas o fundamento da verdade, a medida das coisas.

Quando se afirma, como fazia Kant, que a verdade é pura emanação da mente, e as leis da natureza, formas internas do nosso entendimento; quando se atribui ao pensamento humano o poder de criar a realidade dos seres, fazendo o objeto inteligível produto exclusivo do «eu» pessoal, como opina Fichte; quando, avançando um passo mais, se quer fundir em um elemento comum essências contraditórias, identificando em um princípio absoluto naturezas distintas, como desejava Schelling, ou coroando essa série de negações com uma negação definitiva, se nos propõe a idéia hegeliana como síntese suprema da ciência, espécie de zona neutra, onde se confundem o ser e o não ser, a potência e o ato, o efeito e a causa; quando se admite «a priori» um princípio gerador das coisas, fonte de toda a verdade, que tudo explica e produz deste o átomo até Deus, chame-se esse princípio Inconsciente (Hartmann), Vontade (Schopenhauer), Atividade (Wundt), Idéia — Força (Fouillée), Esforço Vital (Bergson), ou como se quiser; quando se afirma tudo isso, parece que se estabelece diversidade de princípios, quando em rigor é idêntico o fundamento comum, a origem dessas aberrações monstruosas. No fundo dessas doutrinas palpita o mesmo pensamento. A filosofia, do «eu» erigindo-se em mestra do gênero humano, a razão individual emancipada de toda autoridade, o verbo interior do nosso espírito suplantando o Verbo divino, o orgulho do homem usurpando a Deus suas prerrogativas e excelências. Todos os que proclamam a emancipação do pensamento e negam a Jesus Cristo o direito de reinar sobre as inteligências, partem de uma premissa errônea. Crêem que a razão é causa da verdade, regra do dever, quando pelo contrário, a verdade preexiste nas coisas como uma irradiação da mente divina que as concebe e procria.

9. A razão não cria a verdade, descobre-a; a verdade não é uma concepção livre do entendimento nem produção espontânea do espírito; a razão investiga, busca o que é, não o que pode ser; inquire a realidade que é causa da verdade em nós. «O ser mesmo das coisas, diz o doutor Angélico, causa a verdade no entendimento». A verdade é reprodução, reflexo do exterior; os objetos que existem fora de nossa alma despertam a atividade natural da potência cognoscitiva e constituem a medida da verdade que encerram seus atos.

«Está impressa, Senhor, sobre nós, dizia Davi, a luz de teu rosto».

Esta luz não pode operar sem o concurso do objeto que a determina e atua. Nosso entendimento é uma atividade potencial que necessita ser excitada pelo influxo dos fantasmas sensíveis; é como um espelho em que se refletem os objetos com perfeita fidelidade, sem acrescentar-lhes nem tirar coisa nenhuma. Essa atividade intelectual não é como a de Deus. Esta é essencial, que engendra a inteligibilidade dos seres; criadora que produz a verdade eterna, cuja luz, depois de iluminar com clarão infinito os seios misteriosos da Trindade beatíssima, reverbera palidamente nas criaturas; soberana, onde têm sua origem os possíveis, que sem sair de si mesma contém a plenitude do ser com todas as suas perfeições.

A verdade ontológica é a realidade das coisas, «id quod est», como diz Santo Agostinho; e esta verdade essencial possuem as coisas por sua conformidade com o entendimento divino que as criou. A verdade lógica ou formal deriva da anterior; é como diz Santo Tomás, a adequação do entendimento com a coisa; e ainda que esta verdade resida no entendimento, depende também do objeto, porque essa relação que medeia entre ambos não é arbitrária; as coisas são o que são, independentemente do sujeito pensante, e ainda dado que este desaparecesse, a verdade das coisas subsistiria, porque são essencialmente verdadeiras no entendimento divino, no qual têm seu princípio e sua razão, sua norma e sua medida, seu ser e sua existência. Assim como a visão sensível se verifica com submissão a leis invariáveis, independentes de nossa vontade, assim também a visão intelectual se produz obedecendo a leis fixas e constantes. O olho é livre para olhar ou não um objeto visível; porém, uma vez que o contemplou, se o encontra convenientemente iluminado e situado a devida distância, a visão se verifica necessariamente. O olhar não cria nem influi na realidade; percebe-a e a reproduz tal qual aparece no exterior. Do mesmo modo a razão se move num círculo vastíssimo, voa por regiões imensas; porém ela não fez esses mundos nem pode modificá-los à sua vontade; reflete unicamente a luz que os ilumina, o esplendor que irradia o Verbo de Deus sobre os objetos, os quais de um modo intencional, porém positivo e eficaz, determinem nossa mente ao conhecimento dos mesmos.

A verdade se nos impõe de uma maneira irresistível; é objetiva, não mera emanação de nossas faculdades.

Daí se infere quão irracionalmente procedem aqueles que defendem como um dogma a liberdade de pensar, eximindo o entendimento de toda lei na investigação da verdade. O livre pensamento é um absurdo que nos rebaixa ao nível dos brutos, porque nega a mesma razão que não pode conhecer a verdade sem sujeitar-se a leis imutáveis, cuja infração leva consigo o erro.

A idéia não se engendra sem o fantasma sensível; assim como o coração não é independente do bem que o cativa e atrai, tampouco o entendimento da verdade que o ilustra. Um pensamento livre é um absurdo, uma contradição; tudo na natureza tem suas regras e suas leis; e não as terá o pensamento que é a causa mais nobre e excelsa no homem? Nossa potência intelectual pode receber em si todas as formas, é uma participação da luz divina, porém, finita e limitada, e, portanto dependente de Deus. Por íntimas que sejam as analogias do Verbo teológico e do Verbo filosófico, distinguem-se ambos pela diversidade de natureza a que devem sua origem.

Deus, compreendendo sua essência, forma e produz em si mesmo uma concepção inegável, que é seu Verbo. Do mesmo modo que quando nós pensamos ou concebemos um objeto, formamos uma concepção da coisa pensada, e esse é nosso verbo. Porém entende de uma maneira muito mais perfeita que o homem, e daqui nasce a superioridade do seu Verbo sobre o nosso.

Deus conhece a realidade vendo-se a si mesmo como realidade infinita e perfeitíssima; e como em Deus o entender é a substância do sujeito inteligente, Deus entendendo-se a si mesmo, diz Santo Tomás, produz uma concepção em que Ele mesmo se repete. A produção do Verbo em Deus é uma geração verdadeira, e o Verbo pelo mesmo fato que é Verbo, é realmente uma hipóstase subsistente, seu Filho, igual ao Pai, em que está representado o existente e o possível, por quem foram feitas todas as coisas, as visíveis e invisíveis.

A produção do verbo no homem é uma geração imperfeita, porque nem o entender em nós é nossa substância, nem a concepção engendrada pela mente é uma reprodução substancial do sujeito pensante, senão uma forma ideal, um fenômeno intencional do espírito. Nosso verbo é semelhante, não idêntico ao verbo divino, imagem do objeto entendido, nem sempre representação inteligível dele, como sucede no Verbo divino, cuja idéia procede unicamente do Pai.

10. A distância que separa os dois verbos é imensa, a mesma que separa a inteligência finita e a infinita. O Verbo é a imagem adequada e perfeita da ciência perfeitíssima de Deus, é o mesmo pensamento divino compreendendo a essência própria e suas perfeições infinitas. O verbo humano é a expressão ou imagem das coisas que em ato entendemos, não das que podem ser entendidas, muitas delas impenetráveis aos olhos do homem. O Verbo divino como imagem perfeita e adequada da substância do Pai, é Deus mesmo, a verdade mesma ideal e real, a fonte de toda entidade. O verbo humano sendo imagem de uma realidade finita e imperfeita, é por necessidade, finito e imperfeito, verdade participada; não é causa das coisas nem medida do ser, mas deve ser medido por elas para determinar-se ao ato e engendrar mentalmente a visão da verdade real. Não é um original, mas uma cópia maculada, pálido reflexo do sol que fulgura na mente do Altíssimo engendrando o Verbo divino desde toda a eternidade. Este verbo augusto é substancial, incriado, Deus de Deus, luz de luz, pensamento que esgota a inteligibilidade dos seres pela absoluta compreensão dos mesmos; o verbo humano é acidental, criado, circunscrito a uma esfera determinada, distinta da potência que o engendra.

Aquele procede sempre por intuição, é esplendor sagrado que deslumbra e subjuga, nossa inteligência; esta procede por demonstração, deduz ou induz com submissão às leis do espaço e do tempo, desce dos princípios às conclusões ou ascende dos fatos ao conhecimento dos princípios universais por uma multiplicidade de atos que declara sua imperfeição intrínseca. Não conhece senão abstrata e indeterminadamente; logo não pode ser princípio de verdade, nem origem da sabedoria humana, o que é próprio somente de Deus, do Verbo encarnado, que se chama Jesus Cristo.

Basta o que ficou dito para destruir pela sua base o criticismo kantiano, ponto de partida da filosofia moderna, em que as inteligências modernas beberam o vírus da impiedade. Se o verbo filosófico é por si uma entidade finita e imperfeita, uma luz débil e trêmula que reflete parcialmente a verdade oculta nos fenômenos sensíveis, é impossível levantar sobre tão fraco fundamento o edifício dos conhecimentos humanos. A razão não pode ser autônoma, a esfera de nossos conhecimentos não pode limitar-se ao campo de nossas afeições subjetivas; existem horizontes mais amplos cujos limites nos são desconhecidos. A verdade não está em nós: está em Deus, que a reflete sobre o mundo; reside em Cristo, trono da sabedoria e fonte das ciências humanas”.

(Trecho do livro Jesus Cristo e os Filósofos, Cap. X, §8-10, de autoria do filósofo e padre Eugenio Cantera, trad. pe. Antonio D'Almeida Moraes Junior)