quarta-feira, 27 de julho de 2016

Michel Houellebecq e Submissão

O discurso politicamente correto, onde as pessoas dizem coisas como "nem todo muçulmano é terrorista", "o islã é uma religião de paz" ou, ainda, "a maioria dos muçulmanos são pacíficos", se dissemina na mídia e em todos os meios culturais na mesma proporção em que a violência praticada em nome do islã se dissemina por todo o mundo.

Em Submissão, o que o Michel Houellebecq faz é mostrar (na verdade o livro é todo uma insinuação) que, ao contrário do que possa parecer, não é o terrorismo, mas o tal "islã pacífico" que põe em risco nosso modo de vida e que, com ações e articulações políticas das mais indecentes e não raras vezes contrárias à própria fé do Profeta (justificadas pelo fim ideal a que visam na própria doutrina islâmica, pois o islã não tem lá tantas preocupações com quanto a parecer hipócrita), o islã "moderado" se beneficia como nenhum outro grupo, herdando todo o capital político, que o estado de letargia que o avançar do politicamente correto no meio cultural provoca.

O terrorismo é parte da estratégia, é a ponta de lança, que desvia o foco, pelo horror dos ataques. A mídia é absolutamente incapaz de avaliar a situação porque é a principal responsável por disseminar o discurso, é parte — talvez inconsciente, talvez não — da estratégia, a classe jornalística inteira é marcada por uma ignorância enciclopédica, uma incapacidade atroz de analisar o quadro geral.

Sobre questões menores, eu ainda não sou capaz de fornecer explicações que pessoalmente me satisfaçam, venho estudando o assunto. Por exemplo: a colaboração de terroristas para a estratégia geral do islã moderado é consciente? Ou o terrorismo é um cão raivoso que os "moderados" têm sob controle apenas muito parcialmente? Me parece ser afirmativa a segunda questão. De onde vem o dinheiro que financia grupos terroristas? Para mim, esta é um tanto óbvia: vem principalmente de alas consideradas moderadas do islã, talvez as chamadas petromonarquias árabes a que Houellebecq fala, até porque esses grupos terroristas, até onde sei, sobrevivem principalmente da venda de petróleo no mercado negro (alguém precisaria fornecê-lo e comprá-lo...).

Houellebecq tira um tremendo sarro das feministas quando imagina um mundo de mulheres submissas (islã significa submissão, donde se tira o título do livro), aos 15 anos tendo de se casarem com homens asquerosos muito mais velhos, "no limite da higiene", reduzidas a objetos sexuais de fazer um homem decente vomitar (foi nos mercados árabes que a indústria do sexo encontrou o seu oásis), condicionadas, desde a infância, para essa condição de degradação humana sem limites. A mensagem é clara: as mulheres, no Ocidente, não fazem ideia do flagelo que é o islã, muito especialmente as francesas por quem François se envolve. Tudo isso transpassado pela crítica mais ou menos justa das mulheres ao patriarcado da sociedade ocidental cristã. O autor é um gozador terrible, mas o perigo da questão demográfica na França é absolutamente real e apavorante.

Essa é uma das mensagens ocultas do livro. É evidente que iam chamar Houellebecq de machista, mas sendo o livro inteiro uma denúncia, como poderia o autor, que é quem está fazendo a denúncia, ser machista? Ele denunciaria o próprio machismo? Somente um crítico no limite do analfabetismo funcional para supor semelhante coisa! Aliás, consiste exatamente em parecer que não faz nada demais a genial arte burlesca do insulto que Houellebecq soube desenvolver tão bem. Seu estilo é ótimo!

Machista? Talvez até seja, em algum sentido de sua vida íntima, mas para o livro isso não importa em absolutamente nada! A intenção, na acusação dos críticos, é claramente um apelo ao chavão para inibir o grande público dessas temíveis 250 páginas (estratégia essa absolutamente fracassada, dado o imenso sucesso da obra mundo a fora). Houellebecq não é François, nem nenhum outro personagem, embora, como em todos os casos, seja também todos eles. François é um professor universitário e na última página do livro, o autor admite que nunca pisou numa universidade! O livro é também uma feroz sátira da vida acadêmica, onde o autor apenas demonstra desprezo pela academia e nada mais. Houellebecq é um homem-bomba. Só. É um louvável (embora com cara de maluco) e dos mais atuantes combatentes na guerra cultural em que vivemos. Seu livro já nasceu clássico!

Filosofia e culturalismo

Alguém que procure entender os fenômenos culturais precisa, antes, se despir o máximo possível dos valores culturais em si mesmo, na tentativa de olhar os edifícios culturais existentes desde cima. A cultura é todo um mundo, uma visão de mundo.

A filosofia, definida como o amor à sabedoria, não tem, portanto, como fugir do rótulo de acultural. Da mesma forma, o filósofo não pode ser, num primeiro momento, nem moralista e nem imoral, mas sim amoral, tendo em vista a sua natureza de indivíduo comprometido não com um conjunto determinado de valores, nem mesmo valores religiosos, mas com a busca da verdade.

O sujeito olhar a cultura islâmica, por exemplo, do ponto de vista de um pequeno burguês, nascido e criado num ocidente edificado sob valores culturais tipicamente cristãos e, mais atualmente, laicos, é um erro metodológico dos mais crassos.

domingo, 10 de julho de 2016

Kant e os limites do conhecimento

É impossível conciliar qualquer visão de religião tradicional da existência com a filosofia de Kant. Isso acontece porque para Kant, o conhecimento se dá por duas e unicamente duas vias: pela via da experiência e dos sentidos (conhecimento empírico); e pela via da razão ou razão pura, que nada mais é do que o conhecimento "acessado" "independente" da experiência, dos sentidos. Eu coloquei o acessado e o independente entre aspas porque, na realidade, nós não acessamos coisa nenhuma, pois o conhecimento puro nada tem de novo a dizer sobre as coisas, sobre os seres. Por que não? Bom, porque para Kant, o conhecimento puro ou a priori, "independe" da experiência, é um conhecimento estático, universal e necessário e, na realidade ainda, ele também não é tão independente assim da experiência porque ele começou com a experiência (para Kant todo conhecimento começa com a experiência), isto é, sem a experiência ele sequer poderia ter chegado a existir.

Um exemplo é você dizer que "um quadrado tem quatro lados". Esse é um exemplo de conhecimento puro, a priori, no entendimento de Kant independente da experiência. Esse conhecimento é necessário porque é inconcebível um quadrado de outra maneira e é universal pela mesma razão, quero dizer, nenhum quadrado que de fato exista pode prescindir de ter quatro lados na sua composição formal. Porém, para que pudéssemos afirmar, como na frase, que um quadrado tem quatro lados, teríamos que, necessariamente, já ter "experimentado" um quadrado ao menos uma vez na vida, experimentado no sentido de ver, por exemplo. É por isso que coloquei o independente entre aspas também, pois no final das contas, ele não é tão independente assim e todo o conhecimento puro seria, portanto, dependente da experiencia de alguma maneira e na principal de todas, isto é, na que condiciona a existência da coisa.

Percebam, no entanto, que a frase "um quadrado tem quatro lados" nada acrescenta ao conceito de quadrado, quero dizer, o predicado já está contido no sujeito e é por isso que se diz que o conhecimento puro é um conhecimento meramente formal, que não avança, que é estático, nada tira e nada acrescenta aos seres e às coisas.

A proposta primeira de Kant é investigar os limites do conhecimento, até onde o conhecimento pode ir. O conjunto de Kant me parece recheado de contradições e acho que já expus algumas das minhas razões para pensar assim. 1º) É contraditório falar de um conhecimento que surge independente da experiência quando, sem um mínimo de suporte que seja na experiência ele não poderia sequer existir. 2º) E é contraditório dizer também que é possível acessar ao conhecimento da coisa quando o conhecimento se dá de tal forma analítica que beira à redundância e ao tautológico.

E por que eu falei da visão que as religiões tradicionais tem da existência? Por que todas elas, indistintamente dialogam com planos de realidade que, no arcabouço teórico de Kant, seriam absolutamente inacessíveis pela via do conhecimento e, portanto, são falsos! Para corroborar o que eu digo eu chamo a atenção para o fato de que aquilo a que Kant se refere como sendo metafísica é algo completamente díspar da metafísica tradicional. Ele criou uma outra coisa e deu a ela o nome de metafísica. É um falso silogismo.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

C.S. Lewis e a Abolição do Homem

"O dever do educador moderno não é o de derrubar florestas, mas o de irrigar desertos. A defesa adequada contra os sentimentos falsos é inculcar os sentimentos corretos. Ao sufocar a sensibilidade dos nossos alunos, apenas conseguiremos transformá-los em presas mais fáceis para o ataque do propagandista. Pois a natureza agredida há de se vingar, e um coração duro não é uma proteção infalível contra um miolo mole."

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Economia, cultura e religião

A desigualdade não é um problema real, logo, não demanda "solução". Da mesma forma que a miséria ou a pobreza. O grande e único problema econômico, de verdade, é como gerar RIQUEZA. Não é acabar com a miséria, com a pobreza ou minimizar as desigualdades. Quem faz do combate à pobreza ou à desigualdade uma premissa econômica, está subvertendo TODA a lógica econômica. A economia simplesmente deixa de ser economia, deixa de ser ciência e passa a ser alguma outra coisa que não vem ao caso (geralmente um discurso político). Como se cria riqueza no mundo? É muito simples: com trabalho. Não existe outro jeito. Mesmo se alguém disser que fulano ficou rico porque roubou de outro, ele certamente deve ter roubado de alguém que trabalhou. Trabalho não é o que Marx entendia, isto é, quase como se fosse uma medida, em síntese, uma medida para os "lucros" (mehrwert), por exemplo, teoria, aliás, mais do que refutada há uns 150 anos, mais ou menos (pela corrente Marginalista, principalmente com Carl Menger, economista austríaco que o Ciro Gomes não sabe sequer falar o nome). Entre o trabalho e o lucro (que pode, de maneira superficial, ser entendido aqui como riqueza), existe uma grande distância, tanto que muitos trabalhos podem não gerar lucro algum, riqueza alguma; por exemplo, é só você pensar no trabalho do sujeito que cava e tampa buracos, é um trabalho absolutamente inócuo, ele passa o dia inteiro ele mesmo cavando e a noite ele mesmo tapando os buracos que cavou (é um ad absurdum, eu sei, mas o exemplo não é totalmente inválido se você pensa no funcionalismo público); e, também por isso, o trabalho não pode ser tomado como base da organização social em si, porque o trabalho em si mesmo não significa nada, mas apenas com relação ao valor que a sociedade atribui a ele. Uma prostituta pode ganhar os tubos de dinheiro e não é difícil achar uma que ganhe muito, às vezes muito mais do que médicos, advogados, juízes, promotores, mas o valor (que não é o valor monetário) que a SOCIEDADE atribui ao trabalho dela é sempre muito baixo, então a classe das prostitutas é sempre uma classe marginal, em todas as sociedades de que eu já ouvi falar, isto é, ninguém entra para a faculdade, passa cincos anos lá estudando para aprender a fazer um boquete. E como que a sociedade se estrutura em torno dessa questão dos valores (que novamente não é monetário)? Através da cultura e da religião. Simples assim.