terça-feira, 11 de agosto de 2015

A utilidade da arte

"A arte, em sua significação mais ampla, consiste nisto: no poder ou aptidão, que pertence ao homem, de servir-se de meios ou de empregar processos no sentido de melhorar e aperfeiçoar as condições da natureza, para seu uso e bem-estar, ou apenas para emocionar-se agradavelmente. Assim definido o conceito, ficam compreendidas, ao mesmo tempo, as artes úteis, e as artes de efeito puramente estético ou belas artes. A estas últimas parece, segundo alguns, inteiramente estranho todo e qualquer pensamento de utilidade, e lembro-me de ter visto em certa parte se me não engano, em Spencer, esta definição: o belo é o que agrada sem ser útil. Aos que assim se manifestam, escapa a percepção do interesse superior da arte. O belo não é o que agrada sem ser útil, mas o que satisfaz a uma exigência superior do espírito; exigência cuja significação real é talvez de ordem transcendente, mas que não se torna por isto secundária, e tem, pelo contrário, relação imediata com o sentido mais alto da vida."

(BRITO, Raimundo Farias, O Mundo Interior, p. 26)

Arte e personalidade

O Êxtase de Santa Teresa,
Gian Lorenzo Bernini
O principal ou um dos principais problemas da arte moderna, me parece, é fato desta impor como norma a impressão de uma personalidade que, no meu entender, nega justamente aquilo a que vem ser personalidade de fato.

Em psicologia, por exemplo, define-se personalidade como o conjunto padrão e constante de ações, sentimentos e aspirações de um indivíduo; com base nisso, edifica-se um importante ramo dessa jovem ciência: a psicologia da personalidade ou diferencial, que em nada menos consiste senão em explicar e descrever todo o processo de formação da personalidade. É somente assim, portanto, que se torna possível classificar uma pessoa que se apresente, de forma padrão e constante, como alegre, comunicativa e que contagia as pessoas de seu grupo social, como extrovertida em sua personalidade.

Nas manifestações artísticas contemporâneas, no entanto, por mais que se enalteça a "personalidade" do artista, o que prevalece é justamente um entendimento que nega tudo aquilo que mesmo a psicologia moderna entende por ser personalidade: a intenção de ser "original" ou meramente "diferente" que nada mais nada menos significa que um ponto fora da curva que identifica o artista enquanto ser.

Num sentido ético e filosófico, personalidade seria o caráter do ser que tem consciência de ser portador de sua individualidade e de seu papel. Tudo se pode dizer da obra de um artista moderno, menos que sua personalidade esteja em evidência em sua obra. Elementos da personalidade se pode encontrar, é claro, mas no geral o elemento primordial é outro e se situa além ou mesmo fora do ser que o artista tenta imprimir.

No cristianismo, o indivíduo se mortifica, porém a mortificação é um ato que possui uma dimensão de natureza simbólica que deve ser avaliada com cuidado para que não leve à profanação do templo do Espírito que é o próprio corpo (1Co 6:19). Mortificar-se significaria servir, entregar-se servilmente aos desígnios de Deus e se deixar crucificar com Cristo na cruz para que Ele viva, tal qual São Paulo em Gálatas 2:20. A personalidade, na arte cristã, prevaleceria no instante em que o artista anularia a si mesmo, isto é, não seria a personalidade dele a prevalecer, mas a do próprio Deus, uma Personalidade Deífica. Isso se constituiria em um surto de absoluta inspiração.

A arte cristã é mística por excelência no instante em que é marcada pela passividade do artista. Salvador Dali, no seu Cristo de São João da Cruz, que marcou uma importante fase mística de sua carreira, se recusou até mesmo a assinar aquela que muitos diriam que foi a sua maior obra, num trabalho de perspectiva absolutamente único, incomparável. Mas a originalidade da obra, embora evidente, se torna menor diante da atitude de anulação de si do artista.

"[Jean-Martin] Charcot e [Pierre] Janet classificavam o misticismo como histeria, o que não teve grande êxito científico senão por algum tempo graças às respostas precisas de [Joseph François Félix] Babinski. Janet, posteriormente, explicava os estados místicos pela psicastenia e, desta maneira, o místico, quer moral, quer fisicamente, não passava de um deprimido constitucional, com o campo retraído ao monoideísmo. Os freudistas viram no amor místico apenas um desvio do amor sexual. Esses argumentos procedem nos casos patológicos, de certos doentes mentais, que realmente revelam tais fraquezas físicas. Mas há casos, como o de Santa Tereza de Ávila, a qual não apresentava fraquezas físicas, pois era saudável, assim como vários místicos do cristianismo não mostravam tais fraquezas. Outros explicam o estado místico por ação do subconsciente que revela, em certos momentos, o trabalho que realiza e invade o consciente, dando a ilusão de uma força que penetra no ser humano." (DOS SANTOS, Mário Ferreira, Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais, p. 513, grifo nosso)

Como seria possível, então, uma atitude de anulação num época de tremenda exaltação do homem? Os "grafites" infestam as ruas das cidades, poluem a paisagem urbana. Sem considerar as motivações do artista (e eu apenas considero o tal do grafite como arte apenas no sentido mais estrito do termo, isto é, pela técnica envolvida na elaboração do desenho, algo que eu do auge da minha falta de talento para tal julgo envolver uma certa complexidade), não é uma coisa bonita de se ver! Muito pelo contrário, por suas cores chamativas, vibrantes, os grafites agridem os olhos, provocam espanto, sessação essa que sem sombra de dúvidas era a intenção do autor. (O belo não agride, não causa espanto e desconforto; o belo agrada aos olhos, mexe com o emocional de forma suave, sem espantar, sem violência e, enfim, de maneira positiva. E eu não sou nenhum "idealista do belo", o que digo é fácil de provar, basta que alguém pense numa bela paisagem, como um céu ou um campo florido, ou num corpo feminino bem desenhado por exemplo, algo que com certeza ninguém sensato duvidará que é bonito e agradável de se ver.)

Disso se deduz que o objetivo em si do grafite é ser feio, é expor a revolta e a frustração do artista (que quase sempre são indivíduos dilacerados socialmente e por quem eu tenho absoluta compaixão). Se a arte, como diz Croce, é a "expressão da intenção", os grafites e os grafiteiros só me impressionam por suas intenções negativas. Fossem os grafites promovidos em áreas reservadas, locais fechados, eu nem me importaria tanto, mas eles insistem em estar para onde quer que se olhe e contam com a bênção das autoridades nos prédios públicos e até nas escolas!

O que eu mais me questiono é se teria havido em algum lugar do passado uma época em que o questionamento sobre a arte foi tão tacanho quanto os nossos dias. Também me pergunto sobre a influência que tudo isso teria na vida das pessoas. Me parece difícil, por exemplo, imaginar locais de tamanha violência quanto nas cidades em que vivemos só que num ambiente bem menos inóspito e cheios de coisas grotescas, belas cidades enfim.

Tudo isso me parece como uma evidência daquilo que Nietzsche teria classificado como a "transvaloração de todos os valores e a nova era da tragédia".

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Aos debatedores

Quem faz da busca por um argumento, seja para comprovar ou refutar o que quer seja, está mais interessado no desenvolvimento dos artifícios persuasivos do que na real abrangência dos fatos e/ou entes. Não que um bom preparo retórico não possa e até não deva ser desejado, mas é sempre prudente desconfiar daqueles que vivem munidos de argumentos para convencer aos outros de determinados pontos de vista, ideias ou opiniões.

No fim das contas, entender as coisas já é algo que requer um esforço tremendo, imaginem explicá-las e comprová-las!

Me espanta ver a quantidade de gente que opina e se mete a explicar, comprovar ou refutar as questão filosóficas, teológicas e científicas mais intrigadas que se possa imagina. Por exemplo: todo mundo sempre me parece muito convicto da existência ou não existência de Deus. Falemos francamente: é difícil acreditar que tantas pessoas assim possam ser tão santas ou tão céticas. Eu acharia perfeitamente normal e até natural que as pessoas levassem a vida inteira, se realmente estivessem interessadas, tentando solucionar um problema desses.

Uma boa dose de ceticismo, por exemplo, de dúvida, afligiu alguns dos mais extraordinários santos (são as chamadas "noites escuras da alma").

Às vezes eu me pego pensando na quantidade de coisas que um Santo Tomás ou um Aristóteles compreendiam, mas que não foram capazes de ensina, explicar e comprovar. Os meios de expressão foram, na realidade, uma tremenda impossibilidade para os dois. Santo Tomás talvez pudesse ver o próprio céu ou o inferno ao fechar os olhos.

Eu nunca fui ateu, pois eu tinha um problema muito mais urgente do que comprovar ou não a existência de Deus. Eu precisava, antes, compreender ainda que muito pouco a essência de Deus. Não fazia nenhum sentido, como não faz para mim até hoje, me perguntar se uma coisa ou alguém que eu não fazia a mais mínima ideia de quem ou do que fosse, existia ou não. Só se pergunta o que antes se pressupõe e são esses pressupostos que, quase sempre, impossibilitam o debate público.

É impossível que um cristão atento leia Deus, um delírio, do Richard Dawkins, e não se pergunte do que diabos trata o autor da obra. Quem é Deus para o sr. Dawkins? 

Richard Dawkin é um ateu chato que propagandeia pelos quatro cantos as suas razões para não acreditar em deus. Querem saber? Richard Dawkin tem razão. O deus de que ele trata em seu livro não tem nenhuma chance de existir.

A religião para Richard Dawkins é um vírus, algo nocivo para a humanidade. Eu consigo ler Richard Dawkins e gostaria muito de pedir a ele algumas explicações, mas quando eu o leio, eu nunca penso em termo de "concordo" ou "não concordo". O que eu quero saber é o que, Deus do céu!, esse cara entende por ser uma religião. E quando eu vejo que o conceito, que a ideia que ele faz de uma religião é tão boboca, mas tão boboca, coisa mesmo de um débil mental!, inevitavelmente sou obrigado a entender o que ele está dizendo e o porquê dele dizer o que diz.

Vejam, eu aprendi isto com Chesterton: uma moeda ou a cabeça de um alfinete é tão redonda quanto os anéis de saturno ou as rodas de um trator. O que os diferencia é tão somente os diâmetros. Assim também pode ser o pensamento! Ele pode ser perfeitamente circular, correto, conciso, coeso, sucinto, porém, pouco abrangente. O fator principal de classificação de um pensamento é a sua abrangência, a sua capacidade de considerar todas as coisas, sendo que quanto mais abrangente é um pensamento, mais complicado é colocá-lo em termos de palavras, de expressá-lo seja de que modo for.

O começo

"Uma noite prodigiosa, uma dessas noites que talvez só vejamos quando somos novos, querido leitor. O céu estava tão fundo e tão claro que ao olhá-lo uma pessoa era forçosamente levada a perguntar-se se seria possível que debaixo de um céu daqueles pudessem viver criaturas más e tenebrosas. Questão esta que, para dizer a verdade, só é costume levantar-se quando somos jovens, muito jovens mesmo, querido leitor. Prouvera a Deus que pudésseis reviver com freqüência essa idade na vossa alma!"

Inspiração é quando, por indícios do mais incipientes e vagos, você vai descobrindo pouco a pouco que aquilo que você antes apenas intuía é verdadeiro e mais verdadeiro não poderia ser. É não saber com certeza onde se pisa, mas entender que é firme. Inspiração é um ato de fé.

Caso contrário, o que se tem são apenas equívocos dos quais nenhum homem, por mais iluminado e genial que seja, está livre de cometer. Inspiração é algo que vem de fora, pertence à categoria das mais sublimes ações do Espírito. É como o vento que sopra onde quer e ninguém sabe de onde vem. 

Talvez nem todos os textos desta página sejam por sua vez inspirados como as noites de Dostoiévski. Talvez nem todos os textos desta página sejam bem inspirados (do que se pode esperar algo contrário). De todo modo, não foi com esse objetivo que eu a criei. A intenção era de criar um registro ou arquivo mais ou menos público -- já que de minha parte não haverá um esforço exagerado em divulgá-lo --, de diversos pensamentos que julgo, de certa forma, acertados (não ouso querer ser como Dostoiévski e faço notar!). E se, no entanto, por um lampejo qualquer, me ocorrer algo de autêntico valor, que fique registrado que não me pertence e que eu simplesmente me faço um instrumento da boa razão e da Verdade. Não ambiciono a nada mais.