terça-feira, 11 de agosto de 2015

Arte e personalidade

O Êxtase de Santa Teresa,
Gian Lorenzo Bernini
O principal ou um dos principais problemas da arte moderna, me parece, é fato desta impor como norma a impressão de uma personalidade que, no meu entender, nega justamente aquilo a que vem ser personalidade de fato.

Em psicologia, por exemplo, define-se personalidade como o conjunto padrão e constante de ações, sentimentos e aspirações de um indivíduo; com base nisso, edifica-se um importante ramo dessa jovem ciência: a psicologia da personalidade ou diferencial, que em nada menos consiste senão em explicar e descrever todo o processo de formação da personalidade. É somente assim, portanto, que se torna possível classificar uma pessoa que se apresente, de forma padrão e constante, como alegre, comunicativa e que contagia as pessoas de seu grupo social, como extrovertida em sua personalidade.

Nas manifestações artísticas contemporâneas, no entanto, por mais que se enalteça a "personalidade" do artista, o que prevalece é justamente um entendimento que nega tudo aquilo que mesmo a psicologia moderna entende por ser personalidade: a intenção de ser "original" ou meramente "diferente" que nada mais nada menos significa que um ponto fora da curva que identifica o artista enquanto ser.

Num sentido ético e filosófico, personalidade seria o caráter do ser que tem consciência de ser portador de sua individualidade e de seu papel. Tudo se pode dizer da obra de um artista moderno, menos que sua personalidade esteja em evidência em sua obra. Elementos da personalidade se pode encontrar, é claro, mas no geral o elemento primordial é outro e se situa além ou mesmo fora do ser que o artista tenta imprimir.

No cristianismo, o indivíduo se mortifica, porém a mortificação é um ato que possui uma dimensão de natureza simbólica que deve ser avaliada com cuidado para que não leve à profanação do templo do Espírito que é o próprio corpo (1Co 6:19). Mortificar-se significaria servir, entregar-se servilmente aos desígnios de Deus e se deixar crucificar com Cristo na cruz para que Ele viva, tal qual São Paulo em Gálatas 2:20. A personalidade, na arte cristã, prevaleceria no instante em que o artista anularia a si mesmo, isto é, não seria a personalidade dele a prevalecer, mas a do próprio Deus, uma Personalidade Deífica. Isso se constituiria em um surto de absoluta inspiração.

A arte cristã é mística por excelência no instante em que é marcada pela passividade do artista. Salvador Dali, no seu Cristo de São João da Cruz, que marcou uma importante fase mística de sua carreira, se recusou até mesmo a assinar aquela que muitos diriam que foi a sua maior obra, num trabalho de perspectiva absolutamente único, incomparável. Mas a originalidade da obra, embora evidente, se torna menor diante da atitude de anulação de si do artista.

"[Jean-Martin] Charcot e [Pierre] Janet classificavam o misticismo como histeria, o que não teve grande êxito científico senão por algum tempo graças às respostas precisas de [Joseph François Félix] Babinski. Janet, posteriormente, explicava os estados místicos pela psicastenia e, desta maneira, o místico, quer moral, quer fisicamente, não passava de um deprimido constitucional, com o campo retraído ao monoideísmo. Os freudistas viram no amor místico apenas um desvio do amor sexual. Esses argumentos procedem nos casos patológicos, de certos doentes mentais, que realmente revelam tais fraquezas físicas. Mas há casos, como o de Santa Tereza de Ávila, a qual não apresentava fraquezas físicas, pois era saudável, assim como vários místicos do cristianismo não mostravam tais fraquezas. Outros explicam o estado místico por ação do subconsciente que revela, em certos momentos, o trabalho que realiza e invade o consciente, dando a ilusão de uma força que penetra no ser humano." (DOS SANTOS, Mário Ferreira, Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais, p. 513, grifo nosso)

Como seria possível, então, uma atitude de anulação num época de tremenda exaltação do homem? Os "grafites" infestam as ruas das cidades, poluem a paisagem urbana. Sem considerar as motivações do artista (e eu apenas considero o tal do grafite como arte apenas no sentido mais estrito do termo, isto é, pela técnica envolvida na elaboração do desenho, algo que eu do auge da minha falta de talento para tal julgo envolver uma certa complexidade), não é uma coisa bonita de se ver! Muito pelo contrário, por suas cores chamativas, vibrantes, os grafites agridem os olhos, provocam espanto, sessação essa que sem sombra de dúvidas era a intenção do autor. (O belo não agride, não causa espanto e desconforto; o belo agrada aos olhos, mexe com o emocional de forma suave, sem espantar, sem violência e, enfim, de maneira positiva. E eu não sou nenhum "idealista do belo", o que digo é fácil de provar, basta que alguém pense numa bela paisagem, como um céu ou um campo florido, ou num corpo feminino bem desenhado por exemplo, algo que com certeza ninguém sensato duvidará que é bonito e agradável de se ver.)

Disso se deduz que o objetivo em si do grafite é ser feio, é expor a revolta e a frustração do artista (que quase sempre são indivíduos dilacerados socialmente e por quem eu tenho absoluta compaixão). Se a arte, como diz Croce, é a "expressão da intenção", os grafites e os grafiteiros só me impressionam por suas intenções negativas. Fossem os grafites promovidos em áreas reservadas, locais fechados, eu nem me importaria tanto, mas eles insistem em estar para onde quer que se olhe e contam com a bênção das autoridades nos prédios públicos e até nas escolas!

O que eu mais me questiono é se teria havido em algum lugar do passado uma época em que o questionamento sobre a arte foi tão tacanho quanto os nossos dias. Também me pergunto sobre a influência que tudo isso teria na vida das pessoas. Me parece difícil, por exemplo, imaginar locais de tamanha violência quanto nas cidades em que vivemos só que num ambiente bem menos inóspito e cheios de coisas grotescas, belas cidades enfim.

Tudo isso me parece como uma evidência daquilo que Nietzsche teria classificado como a "transvaloração de todos os valores e a nova era da tragédia".

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