sexta-feira, 29 de abril de 2016

O liberal, a eficiência e a caridade

Quando Roberto Campos dizia que o mundo seria salvo pelos eficientes e não pelos caridosos, evidenciava todo o terrível vício de sua mentalidade liberal. Quem é cristão e católico sabe muito bem que, em primeiro lugar, o mundo não será salvo e, em segundo, a humanidade jamais será eficiente o bastante para prescindir da caridade.

sábado, 23 de abril de 2016

A instabilidade das coisas do mundo

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.

Gregório de Matos

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Impressões sobre a filosofia de José Ortega y Gasset

Estou lendo José Ortega y Gasset, o grande filósofo espanhol do século XX. O impacto que ele me causa é grande, estou realmente muito impressionado, principalmente com os conceitos da filosofia do autor, como o perspectivismo, a razão vital, a ideia da história como um sistema. Não vejo a hora de empregar seus conceitos à análise de conjunturas sociais e políticas das mais diversas.

Diz o Ortega que o homem não tem natureza, tem história. Isso significa que aquela perene questão filosófica sobre a natureza humana não faz tanto sentido ao final de contas. A pegunta "que sou?" se depreende dos fatos narrados sistematicamente sobre a própria história de vida, e a verdade, na vida, consiste em manter-se fiel à própria história, ao próprio ponto de vista, a perspectiva absolutamente única e unicamente (!) verdadeira com que a encaramos. A liberdade do homem se justifica, por exemplo, pelo fato de que carece o homem de identidade constitutiva, por ser, ser inconcluso. Para Deus, um ser perfeito, a liberdade seria algo absolutamente inútil, despropositada, pois Deus nada precisa escolher, nada precisa ser. Deus é aquele que é, enquanto o homem, imperfeito, que arrasta pela vida os sinais de seu fracasso e de sua miséria, ainda busca o ser que parece sempre inatingível, como no rio da vida de que falava Heráclito.

A critica de Ortega aos utopistas é muito contundente. Ele diz que a única perspectiva falsa é a que se pretende única e que a perspectiva do utopista não é sequer uma perspectiva, pois esta pressupõe estar-se a observar numa certa localização espacial, presente também no tempo. Erra o utopista porque o seu credo não se situa, nem no passado, nem no futuro, sendo essa a razão de sempre incorrerem em trágicos erros, por não se manterem fieis ao seu ponto vista.

Ortega é um magnânimo pensador!

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Os idiotas da objetividade, por Nelson Rodrigues

Sou da imprensa anterior ao copy desk. Tinha treze anos quando me iniciei no jornal, como repórter de polícia. Na redação não havia nada da aridez atual e pelo contrário: — era uma cova de delícias. O sujeito ganhava mal ou simplesmente não ganhava. Para comer, dependia de um vale utópico de cinco ou dez mil-réis.

Mas tinha a compensação da glória. Quem redigia um atropelamento julgava-se um estilista. E a própria vaidade o remunerava. Cada qual era um pavão enfático. Escrevia na véspera e no dia seguinte via-se impresso, sem o retoque de uma vírgula. Havia uma volúpia autoral inenarrável. E nenhum estilo era profanado por uma emenda, jamais.

Durante várias gerações foi assim e sempre assim. De repente, explodiu o copy desk. Houve um impacto medonho. Qualquer um na redação, seja repórter de setor ou editorialista, tem uma sagrada vaidade estilística. E o copy desk não respeitava ninguém. Se lá aparecesse um Proust, seria reescrito do mesmo jeito. Sim, o copy desk instalou-se como a figura demoníaca da redação.

Falei no demônio e pode parecer que foi o Príncipe das Trevas que criou a nova moda. Não, o abominável Pai da Mentira não é o autor do copy desk. Quem o lançou e promoveu foi Pompeu de Sousa. Era ainda o Diário Carioca, do Senador, do Danton. Não quero ser injusto, mesmo porque o Pompeu é meu amigo. Ele teve um pretexto, digamos assim, histórico, para tentar a inovação.

Havia na imprensa uma massa de analfabetos. Saíam as coisas mais incríveis. Lembro-me de que alguém, num crime passional, terminou assim a matéria: — “E nem um goivinho ornava a cova
dela”. Dirão vocês que esse fecho de ouro é puramente folclórico. Não sei se é e talvez seja. Mas saía coisa parecida. E o Pompeu trouxe para cá o que se fazia nos Estados Unidos — o copy desk.

Começava a nova imprensa. Primeiro, foi só o Diário Carioca; pouco depois, os outros, por imitação, o acompanharam. Rapidamente, os nossos jornais foram atacados de uma doença grave: — a objetividade. Daí para o “idiota da objetividade” seria um passo. Certa vez, encontrei-me com o Moacir Werneck de Castro. Gosto muito dele e o saudei com a mais larga e cálida efusão. E o Moacir, com seu perfil de lord Byron, disse para mim, risonhamente: — “Eu sou um idiota da objetividade”.

Também Roberto Campos, mais tarde, em discurso, diria: — “Eu sou um idiota da objetividade”. Na verdade, tanto Roberto como Moacir são dois líricos. Eis o que eu queria dizer: — o idiota da objetividade inunda as mesas de redação e seu autor foi, mais uma vez, Pompeu de Sousa. Aliás, devo dizer que o copy desk e o idiota da objetividade são gêmeos e um explica o outro.

E toda a imprensa passou a usar a palavra “objetividade” como um simples brinquedo auditivo. A crônica esportiva via times e jogadores “objetivos”. Equipes e jogadores eram condenados por falta de objetividade. Um exemplo da nova linguagem foi o atentado de Toneleros. Toda a nação tremeu. Era óbvio que o crime trazia, em seu ventre, uma tragédia nacional. Podia ser até a guerra civil. Em menos de 24 horas o Brasil se preparou para matar ou para morrer.

E como noticiou o Diário Carioca o acontecimento? Era uma catástrofe. O jornal deu-lhe esse tom de catástrofe? Não e nunca. O Diário Carioca nada concedeu à emoção nem ao espanto. Podia ter posto na manchete, e ao menos na manchete, um ponto de exclamação. Foi de uma casta, exemplar objetividade. Tom estrita e secamente informativo. Tratou o drama histórico como se fosse o atropelamento do Zezinho, ali da esquina.

Era, repito, a implacável objetividade. E, depois, Getúlio deu um tiro no peito. Ali estava o Brasil, novamente, cara a cara com a guerra civil. E que fez o Diário Carioca? A aragem da tragédia soprou nas suas páginas? Jamais. No princípio do século, mataram o rei e o príncipe herdeiro de Portugal. (Segundo me diz o luso Álvaro Nascimento, o rei tinha o olho perdidamente azul.) Aqui, o nosso Correio da Manhã abria cinco manchetes. Os tipos enormes eram um soco visual. E rezava a quinta manchete: “HORRÍVEL EMOÇÃO!”. Vejam vocês: — “HORRÍVEL EMOÇÃO!”.

O Diário Carioca não pingou uma lágrima sobre o corpo de Getúlio. Era a monstruosa e alienada objetividade. As duas coisas pareciam não ter nenhuma conexão: — o fato e a sua cobertura. Estava um povo inteiro a se desgrenhar, a chorar lágrimas de pedra. E a reportagem, sem entranhas, ignorava a pavorosa emoção popular. Outro exemplo seria ainda o assassinato de Kennedy.

Na velha imprensa as manchetes choravam com o leitor. A partir do copy desk, sumiu a emoção dos títulos e subtítulos. E que pobre cadáver foi Kennedy na primeira página, por exemplo, do Jornal do Brasil. A manchete humilhava a catástrofe. O mesmo e impessoal tom informativo. Estava lá o cadáver ainda quente. Uma bala arrancara o seu queixo forte, plástico, vital. Nenhum espanto da manchete. Havia um abismo entre o Jornal do Brasil e a tragédia, entre o Jornal do Brasil e a cara mutilada. Pode-se falar na desumanização da manchete.

O Jornal do Brasil, sob o reinado do copy desk, lembra-me aquela página célebre de ficção. Era uma lavadeira que se viu, de repente, no meio de uma baderna horrorosa. Tiro e bordoada em quantidade. A lavadeira veio espiar a briga. Lá adiante, numa colina, viu um baixinho olhando por um binóculo. Ali estava Napoleão e ali estava Waterloo. Mas a santa mulher ignorou um e outro; e veio para dentro ensaboar a sua roupa suja. Eis o que eu queria dizer: — a primeira página do Jornal do Brasil tem a mesma alienação da lavadeira diante dos napoleões e das batalhas.

E o pior é que, pouco a pouco, o copy desk vem fazendo do leitor um outro idiota da objetividade. A aridez de um se transmite ao outro. Eu me pergunto se, um dia, não seremos nós 80 milhões de copy desks? Oitenta milhões de impotentes do sentimento. Ontem, falava eu do pânico de um médico famoso. Segundo o clínico, a juventude está desinteressada do amor ou por outra: — esquece antes de amar, sente tédio antes do desejo. Juventude copy desk, talvez.

Dirá alguém que o jovem é capaz de um sentimento forte. Tem vida ideológica, ódio político. Não sei se contei que vi, um dia, um rapaz dizer que dava um tiro no Roberto Campos. Mas o ódio político não é um sentimento, uma paixão, nem mesmo ódio. É uma pura, vil, obtusa palavra de ordem.

(Publicado no jornal O Globo em 22 de fevereiro de 1968)

Política e princípios

Algumas pessoas tendem a tomar posições políticas com base em princípios, mas poucas conseguem entendem quão ingênua é tal atitude isoladamente. Por exemplo: o caso dos privatistas, leiloeiros (ou seriam doadores?) de estatais é um dos mais sérios da política brasileiro dos últimos... 30 anos. Muitos, por princípio, venderiam a própria mãe num leilão. Eu também sou favorável a formas de desestatização, como é o caso das privatizações, mas eu entendo que muitas vezes meus posicionamentos, principiológicamente considerados, são insuficientes para contornar problemas imediatos concernentes à administração pública, casos concretos que se avolumam no próprio cotidiano político e que demandam medidas imediatas. A questão é: deveria o administrador abdicar de seus princípios em função das medidas imediatistas que a própria realidade complexa do quadro político como um todo exigem que ele tome? Bem, se ele for apenas um "administrador", sim, deveria abdicar, mas quem disse que estadistas são apenas, como direi?, "administradores"? Lady Margaret Thatcher é quem bem dizia que não se satisfazia em administrar o fim de uma grande nação, e foi justamente por ter sido muito mais que uma mera administradora que ela mudou para todo sempre a política inglesa. O problema da política, é o problema da virtude. Não faltam administradores no Brasil, falta, isso sim, estadistas.

domingo, 10 de abril de 2016

O conceito de liberdade

No Fantástico, um repórter pergunta nas ruas o que as pessoas pensam ser a "liberdade". As respostas? Bem, ninguém deu nenhuma resposta! As pessoas dizem o que supostamente podemos fazer com a liberdade: viajar, ir e vir, pensar etc. etc., mas O QUE É liberdade ninguém é capaz de dizer.

Esse é um problema filosófico sério! A utilidade de uma coisa, como a da liberdade, não compreende a essência, a definição, o conceito. É justo o contrário! A definição, o conceito é que compreende a finalidade e, inclusive, o além. O mesmo vale para qualquer outra coisa. A religião, por exemplo, o que é religião? O mestre Miguel Reale tem uma frase que eu gosto muitíssimo: "Na arvore do conhecimento, os conceitos se equivalem aos frutos maduros". Eu tenho uma definição de liberdade! Liberdade é a ausência de necessidade ou, melhor dizendo, a contingencia de ser. O ser humano, por tanto, é livre para tudo que a NECESSIDADE não lhe impõe. Necessidades fisiológicas, por exemplo, tolhem a liberdade dos indivíduos. A própria estrutura da realidade cerceia a liberdade em inumeráveis casos. Por exemplo: eu não sou "livre" para pular da janela do apartamento em que moro (que a propósito se situa no 8º andar). Nem "livre" para tomar de canudinhos um frasco de veneno. Liberdade ilimitada, portanto, não apenas é uma estupidez, mas uma impossibilidade, pela própria contingência de ser.

Muitos diriam que eu sou sim livre para me matar, tomando o frasco de veneno ou pulando da janela. Mas que raio de liberdade seria essa que vai contra a necessidade mais elementar dos seres que é a de se manterem vivos? Muitos podem ainda dizer que o meu conceito é, portanto, insuficiente. Ok, pois que apresente outra definição capaz de apreender todo o fenômeno concreto do ser de ser livre. Se matar é uma negação da liberdade, pois manter-se vivo é necessário ao ser humano inclusive para que este possa vivenciar a liberdade. Mas não seria possível abdicar da liberdade? Bem, para isso supõe-se a liberdade e, mais ainda, supõe-se a empresa consciente de um indivíduo livre e que este indivíduo decida, pois em caso contrário, teríamos ai uma boa justificativa para a escravidão, a dominação do homem pelo homem, por exemplo, não é? É muito perigoso esse pensamento! Não significa, toda via, que não possa ser verdadeiro. Será que um homem não poderia, por exemplo, sujeitar-se à morte, como por uma pessoa amada? Sim, mas por que faria? A resposta é uma só: por necessidade, não por nenhuma outra razão. A morte também pode ser necessária em alguns casos, como aliás é no maior de todos os casos: a vida.