sábado, 11 de junho de 2016

Vitória militar, política e a História.

É um erro primário supor que a história é escrita pelos vencedores. São os que escrevem a história, ao seu modo, que de fato vencem! Sabem por quê? Porque a "vitória", em termos militares e políticos, raramente é somente a vitória. Os Aliados venceram a Primeira Guerra em 1918. A Alemanha foi totalmente destruída, jogada na mais absoluta lama, na miséria total imposta pelo Tratado de Versalhes, assinado naquele 10 de janeiro de 1919.

Se isso é verdade, como que os alemães, 20 anos depois, tinham a mais poderosa das forças aéreas do mundo e, com tanta força, foram capazes de impor novamente tanto terror? Aquilo não foi a paz e nem a vitória, foi um armistício de 20 anos. Não houve uma primeira e uma segunda guerra, mas uma guerra só. Eu poderia explicar, mas, por ora, vamos deixar só a pulga atrás da orelha. Os Aliados não venceram em 18! Os americano sim, venceram, de fato, a guerra contra o Império Japonês em 45. Sabem como? Com duas bombas atômicas! Não jogaram nenhuma bomba atômica no Vietnã e perderam também, porque logo após a "vitória", a desocupação, os vietcongues tomaram o país. Até hoje os americanos dizem que venceram a guerra, fazem uma propaganda danada, choram e expõem os seus heróis mutilados, mas que raio de vitória foi essa? A guerra se passou no Vietnã e os vietnamitas sabem bem quem de fato venceu.

Eu poderia dar vários outros exemplos, como o Iraque, mas que tal um exemplo nacional? O Brasil venceu a Guerra do Paraguai. Por quê? Porque soube, àquele momento, impor sua narrativa dos fatos e, desde então, nunca mais houve conflitos do Brasil com nenhum outro país do continente. Nenhum outro país do continente nega a liderança que o Estado brasileiro exerce na região. A vitória não se deu com o fim do conflito armado, a vitória se deu com a imposição da narrativa histórica! Essa é uma tese que eu tenho e que posso provar com uma imensa facilidade, com diversos exemplos, desde a Antiguidade. Por exemplo: os Romanos derrotaram os cartaginenses? Sim, mas a vitória demorou quase um século e meio e, ao final, os romanos tiveram que aniquilar Cartago, pois não havia jeito de submeter o povo, tiveram que destruí-lo! Maquiavel já alertava para o fato de que os homens se vingam das ofensas leves, mas que nada podem fazer quanto às graves.

Os generais até podem entender da arte da guerra, mas são os estadistas quem de fato aplanam o caminho para a paz ou para a própria guerra em que os generais darão a vida. No primeiro caso, foi assim com Winston Churchill; no segundo, foi assim com Adolf Hitler.

Mas nada disso responde uma pergunta crucial: que seria, então, um estadista?

terça-feira, 7 de junho de 2016

A definição de Deus

No geral, eu não gosto de misticismos, hermetismo... Não! Eu gosto das coisas o mais clara e palpável possível. Por exemplo: Deus. Que é Deus? É o Ser Supremo, Onipotente, Onisciente, Onipresente, Benevolente etc. etc. etc.? Sim, tudo isso, mas pensar em Deus assim é meio difícil, não é? É difícil, nós, seres tão pequenos, pensar em algo tão grande, que parece tão distante, tão inacessível. Sabem como eu penso em Deus? De uma maneira, julgo, muito, mas muito mais simples. Deus, para mim, é a Verdade. O fogo queima: e isso é verdade, é, portanto, Deus! A água molha: e isso é verdade, é, portanto, também Deus! O fogo não pode deixar de queimar; a água, não pode deixar de molhar. Por que não? Porque Deus É aquele que É. Ele não pode ser de outra maneira, Ele não pode renegar a própria essência só porque eu quero que Ele o faça. Quem eu penso que sou, afinal? Se eu ponho a mão no fogo, eu me queimo. E isso não acontece porque Deus é malvado. O mal me aconteceu? Sim. Deus o permitiu? Sim. Mas não porque Deus é malvado, mas, sim, simplesmente, porque Deus não pode ser de outra maneira e nisto consiste toda a Justiça, definida na máxima de Upiano: Justitia est constans et perpetua voluntas jus suum cuique tribuendi (a justiça consiste em dar a cada um o que lhe é devido). O fato do mal existir e do mal me acontecer, não é prova, portanto, da maldade Divina. Eu acho que assim eu respondo a uma dúvida filosófica muito, muito antiga: por que o Mal existe? E outra: Por que Deus, sendo Bom, o permite? Essa parece ser a grande questão de Epicuro, mas ela não é uma boa questão. Não é tão difícil, é?

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Monteiro Lobato por Abreu Sodré e o mal da justiça humana

“O mal da justiça humana -- protestava, irônico, Monteiro Lobato, da prisão onde foi jogado pela ditadura do Estado Novo; o mal da justiça humana está na falta de uma lei que vou fazer quando for ditador: todos os juízes, depois de nomeados e antes de entrar no exercício do cargo, têm de gramar dois anos de cadeia, um de penitenciária e um de cela, a pão e água e nu -- em pelo; Não há nada mais absurdo do que o poder dado a um homem de condenar outros a uma coisa que ele não conhece: a privação da liberdade.”

(Roberto Abreu Sodré, No Espelho do Tempo, Meio Século de Política, 1995, p. 51)

domingo, 5 de junho de 2016

Política: história, religião, moral e cultura

O que determina a conduta das pessoas em sociedade não é a lei, é a cultura, e, da cultura, surgem-se as leis. Nós temos, então, um problema: de onde surge a cultura? Duas são ou podem ser as fontes: a moral e a religião. A moral, como fonte exclusiva, serve como substitutivo da religião, enquanto que é a religião que deveria servir, fornecer as bases da conduta moral, como foi na maior parte da história humana, em todos os casos (na Antiguidade, por exemplo, alguém não ter religião era meio como ser louco, sem juízo e, pela religião, se julgava os caráteres). Nós vivemos, por exemplo, época de extremo moralismo cultural e um definhamento das bases religiosas da cultura.

Quando esse negócio começou? Eu ainda não sei bem, mas me parece que está na gênese do chamado Estado Moderno, o Estado como grande Leviatã, aquele que produz o homem artificial, o homem que não é mais produto do gênio divino, o homem como uma obra de arte a ser acabada. A origem remonta os fins do século XIV. Maquiavel, por exemplo, ao que me parece, foi o primeiro a perceber algo muito importante: quem controla a moral, controla a política, controla cultura e, certamente até por isso, a Igreja passou a ser a inimiga numero um de todos os governantes desde então. Mas a Igreja não controlava a moral, pois a moral era dada pelas próprias bases cristãs do Ocidente, isto é, pelo Cristianismo propriamente dito e a prova maior disso foi que com a Reforma Protestante, muito dessa base cristã continuou a existir mesmo sem a Igreja Católica. É por isso que em Max Weber é possível se falar de uma ética protestante do capitalismo, que na verdade não é protestante, mas propriamente cristã, que dá origem ao Estado e à economia liberal (A Riqueza das Nações não é a principal obra de Smith, mas, sim, A Teoria dos Sentimentos Morais). A pré-história do liberalismo econômico, com todos os seus méritos, pode ser facilmente rastreada em autores cristãos, escolásticos e, mais precisamente, da Escola de Salamanca, no chamado "Seculo de Ouro Espanhol", com autores como o padre jesuíta Juan de Mariana.

Desde a Renascença, a Igreja Católica não mais perdeu o posto de bode expiatório de todos os males da humanidade, passando a existir, para alguns, apenas como um posto de resistência ao moralismo modernista em todas as suas vertentes, cujo mais atual é o chamado politicamente correto.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

A questão do recrudescimento de penas como política pública (esboço)

Um menor de idade mata, todo mundo começa a clamar pela redução da maioridade penal. Um maior mata e todo mundo começa a pedir por pena de morte. Um sujeitou estupra, todo mundo pede o aumento das penas para o estupro: castração química, prisão perpétua e morte, também, por que não? Se possível, prisão perpétua mais pena morte, para nem depois de morto o sujeito sair da cadeia.

Isso não é política de segurança pública, é demagogia pura e simples. São pessoas pensando com o figado, sedentas por sangue e vingança. Não é solução. Nunca será. A classe política tenta surfar nessa onda para ver se consegue uns votinhos a mais na eleição seguinte.

A luta feminista

Na realidade, estupro coletivo é algo absolutamente antigo. Vem desde os primórdios da civilização e não cessou até hoje. Em 1945, soldados soviéticos estupraram 2 milhões de mulheres alemãs, sendo que muitas delas se suicidaram antes, para não sofrerem a violência. Em 1937 e 1938, soldados do Império Japonês estupraram mulheres e crianças chinesas em Nanquim, foram, provavelmente, centenas de milhares de vitimas. O estupro coletivo era quase uma arma de guerra, um forma de vingança, de submeter um povo. Prática recorrente entre os povos bárbaros, na Idade Média, como os exércitos de Gengis Khan e Átila, o Huno. Entre poucos povos, como o cristão, essa prática foi veementemente repudiada.

O Boko-Haram tem como prática recorrente o sequestro de meninas, na África, como forma de dominação. As coitadas são escravizadas e passam o resto da miserável vida delas sendo estupradas. O Boko-Haram afirma que a educação ocidental, cristã ou, como eles preferem, "não-islâmica", é um pecado.

Eu sou absolutamente favorável à luta feminista, em certo sentido, eu só não entendo porque o discurso feminista parte sempre de uma criminalização dos valores judaico-cristãos nos quais se baseiam toda a Civilização do Ocidente. Se eu fosse mulher, certamente procuraria ingressar na luta feminista, por direitos, mas, até por isso mesmo, me voltaria, primeiramente, contra o feminismo radical, que desvirtua o movimento que pode, sim, ser absolutamente legítimo e necessário. Em que outra sociedade as mulheres foram tão valorizadas? Existe o machismo? Sim, é claro que sim. É legítima a luta contra o machismo? Sim, é claro que sim também. Mas em que consiste o machismo, odiento e ainda existente na sociedade Ocidental? Seria, mesmo, uma boa tática tentar minar as bases sociais do Ocidente para combater o machismo? Descartar a criança junto com a água suja?

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Ser distinto

"A elegância distinta (...) é difícil de imitar, porque, no fundo, ela é negativa e pressupõe uma prática longa e constante. Pois a pessoa não deve, por exemplo, representar na sua atitude qualquer coisa que indique dignidade, já que dessa maneira se cai facilmente num carácter formal e orgulhoso; antes se deve, simplesmente, evitar o que é indigno, o que é vulgar; a pessoa nunca se deve esquecer, deve prestar sempre atenção a si e aos outros, não perdoar nada a si própria, não fazer aos outros nem de mais, nem de menos, não parecer comovida com nada, não se impressionar com nada, nunca se apressar demasiado, saber dominar-se em qualquer momento e, assim, manter um equilíbrio exterior, por muito forte que seja interiormente o temporal. O homem nobre pode, em certos momentos, desleixar-se; o homem distinto nunca. Este é como um homem muito bem vestido: não se enconstará em lado nenhum e toda a gente evitará roçar nele. Ele distingue-se dos outros e, todavia, não deve ficar sozinho; pois, tal como em todas as artes e, portanto, também nesta, o mais difícil deve, finalmente, ser executado com facilidade: por isso, a pessoa distinta, apesar de todo o isolamento, deve parecer sempre ligada a outrem; em parte alguma, deve mostrar-se rígida; em todo o lado deve ser polida e aparecer sempre como a primeira, sem nunca se impor como tal. Vê-se, por conseguinte, que, para parecer distinto, se tem de ser realmente distinto."

(Trecho do livro Os Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister, de J. W. Goethe)