sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Reflexão inicial sobre a origem das grandes religiões universais

A própria estrutura em bloco e de certa forma acabada das grandes religiões universais já evidencia, por si só, que elas não podem ser de maneira nenhuma tomadas como originárias, produtos ou muito menos subprodutos de uma realidade social, cultural ou condição econômica, climática, geográfica ou ainda mera ocasião histórica condicionada a um determinado estágio de desenvolvimento psico-emocional como muitos autores afirmam (a Filosofia, por seu turno, pode muito bem ser explicada por um ou por todos esses elementos e muitos outros em conjunto, pois a estrutura da Filosofia, em sua origem, é completamente díspar a de qualquer crença ou prática religiosa que tenhamos notícia. O mesmo se dá com a ciência do Direito). Não fosse assim, teríamos que admitir que ao invés de formadas em blocos e "acabas", como dissemos, foram as grande religiões desenvolvidas, isto é, no começo de suas histórias, foram um "vir a ser", um projeto que realizar, o que em absoluto não nos permitiria explicar de maneira satisfatória a constituição e organização dos acontecimentos em torno do que se deu e principalmente se acometeu a essas práticas e crenças (tais dificuldades jamais afligiram, por exemplo, nenhum estudioso de História do Direito, de História da Filosofia, de História da Arte etc., todos esses saberes originários de algum ou da combinação de alguns dos elementos que anteriormente enumeramos). Além disso, custaria-nos muito explicar como as estruturas dessas grandes religiões se mantiveram, ao longo de séculos e séculos praticamente inalteradas.

Qual seria, então, a origem? Não vem ao caso. O que afirmo é que, sem nenhuma dúvida, qualquer tentativa de explicar uma grande religião, como o cristianismo, por exemplo, ou o judaísmo, o budismo, o islamismo, por algum desses elementos, fatalmente incorrerá em muitos becos sem saída, impossibilidades mesmas (que faça o leitor sua própria experiência!).

Cada religião, evidentemente, tem suas justificativas, mas essas justificativas não são aceitáveis de um ponto de vista separado do meramente religioso em questão, como, para a constituição de uma espécie de "ciência das religiões", seria absolutamente fundamental. A biologia, por exemplo, enquanto ciência, não fundamenta suas razões em conhecimentos próprios da biologia, assim como nenhum outro campo de conhecimento científico moderno. Como exemplo, jamais poderá nos dizer um biólogo o que seja vida, uma vez que a vida, em todas as suas formas, é objeto de estudo próprio da biologia. E se aceitarmos a definição de Kant de que a geometria é o estudo de todas as formas possíveis de espaço, também jamais poderá nos dizer o geômetra o que seja, enfim, espaço. É um problema de pressupostos bastante elementar. Tal "ciência das religiões", em sentido moderno, jamais existirá, pois, para existir, seus promotores terão que antes nos prover de boa solução para esse imbróglio que, em caso de não ser solucionado, minará os alicerceares e pressupostos do pretenso campo de saber científico.

Tomemos o caso dos muçulmanos como exemplo, que nos fornecem como justificativa para a origem de sua fé, um evento: o evento da revelação do corão ao profeta Maomé ou Muhammad, pelo Anjo Gabriel. O judaísmo: também por um evento surpreendente: Moisés recebendo de Deus a tábua da Lei no alto do Monte Sinai. O cristianismo: a anunciação de Jesus, o Messias (este já revelado por Deus como vindouro a uma longuíssima tradição de profetas), por um anjo à Virgem Maria e a São José. Estou persuadido, embora admita a possibilidade de estar errado, que não é possível analisar tais questões desde fora, com o mínimo de isenção. É certo que jamais haverá acordo entre as grandes religiões: jamais veremos os judeus admitirem voluntariamente (podem até serem forçados a isso!) que há apenas um Deus e que Maomé é seu Profeta. Nem veremos os budistas orarem o credo cristão. Que história é essa de que eu creio em Deus-Pai, todo poderoso, criador do céu e da terra e em Jesus Cristo seu único filho, Nosso Senhor? Não vai acontecer. Na esfera individual, certamente, ninguém duvidará nem jamais duvidou da possibilidade, mas as duas religiões são, elas sim, inconciliáveis. Mesmo que um budista passe, a partir de agora, a orar de acordo com o credo cristão, rechaçará o seu passado budista por inteiro.

Só é possível "conhecer" às religiões comparando-as (e existe uma disciplina absolutamente válida de estudo de religiões comparadas), aceitando uma delas e rechaçando todas as outras ou ainda renegando a todas, sem distinção. A visão do estudioso será sempre, de todas as formas, enviesada, comprometida de alguma maneira e disso não vejo como fugir.

Quanto à constituição da tal estrutura das grandes religiões que citamos no começo, essa merece posterior digressão.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

As fases e os períodos da história da filosofia antiga

"A filosofia antiga grega e greco-romana tem uma história mais do que milenar. Partindo do século VI a.C, chegando até o ano 529, ano em que o imperador Justiniano mandou fechar as escolas pagãs e dispersar os seus seguidores 

Nesse arco de tempo, podemos distinguir os seguintes períodos: 

1) O período naturalista, que, como já dissemos, caracterizou-se pelo problema da physis e do cosmos e que, entre os séculos VI e V, viu sucederem-se os jônicos, os pitagóricos, os eleatas, pluralistas e os físicos ecléticos.

2) O período chamado de humanistas, que, em parte, coincide com a última fase da história naturalista e com a sua dissolução, tendo como protagonistas os sofistas e, sobretudo, Sócrates, que pela primeira vez procura determinar a essência do homem. 

3) O momento das grandes sínteses de Platão e Aristóteles, que coincide com o século IV a.C., caracterizando-se sobretudo pela descoberta do supra-sensível [Metafísica] e pela explicitação e formulação orgânica de vários problemas da filosofia.

4) Segue-se o período caracterizado pelas escolas helênicas, que vai da grande conquista de Alexandre Magno até o fim da era pagã e que, além do florescimento do cinismo, vê surgirem também os grandes movimentos do epicurismo, do estoicismo, do ceticismo e a posterior difusão do ecletismo. 

5) O período religioso do pensamento veteropagão, como já acenamos, desenvolve-se quase inteiramente na época cristã, caracterizando-se sobretudo por um grandiosos renascimento do platonismo que iria culminar com o movimento neoplatônico. O reflorescimento das outras escolas seria condicionado de vários modos pelo mesmo platonismo.

6) Nesse período nasce e desenvolve-se o pensamento cristão, que tenta formular racionalmente o dogma da nova religião e defini-lo à luz da razão, com categorias derivadas dos filósofos gregos. 

A primeira tentativa de síntese entre o Antigo Testamento e o pensamento grego foi utilizada por Fílon, o Hebreu, em Alexandria, mas sem prosseguimento. A vitória dos cristãos irá impor sobretudo um repensamento da mensagem evangélica à luz das categorias da razão. Esse momento do pensamento antigo, porém, não constitui um coroamento do pensamento dos gregos, assinalando muito mais o começo da crise e a suspensão do modo de pensar do gregos e preparando assim a civilização medieval e as bases daquilo que viria a ser o pensamento cristão "europeu". Desse modo, mesmo levando em conta os laços que esse momento do pensamento tem com a última fase do pensamento pagão que se desenvolve contemporaneamente, ele deve ser estudado em separado, precisamente como pensamento véterocristão, sendo considerado atentamente, nas novas instâncias que ele instaura, como premissa e fundação do pensamento e da filosofia medievais." 

(Trecho do livro História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média, Giovanni Reale e Dário Antiseri, Ed. Paulus, 1990, p. 25-26)

domingo, 17 de janeiro de 2016

O vício essencial da Filosofia Moderna à luz da Filosofia Cristã

“Para os racionalistas, o espírito humano não é o sujeito que percebe a verdade, mas a própria verdade percebida; não é uma potência determinada pelo objeto inteligível, mas o fundamento da verdade, a medida das coisas.

Quando se afirma, como fazia Kant, que a verdade é pura emanação da mente, e as leis da natureza, formas internas do nosso entendimento; quando se atribui ao pensamento humano o poder de criar a realidade dos seres, fazendo o objeto inteligível produto exclusivo do «eu» pessoal, como opina Fichte; quando, avançando um passo mais, se quer fundir em um elemento comum essências contraditórias, identificando em um princípio absoluto naturezas distintas, como desejava Schelling, ou coroando essa série de negações com uma negação definitiva, se nos propõe a idéia hegeliana como síntese suprema da ciência, espécie de zona neutra, onde se confundem o ser e o não ser, a potência e o ato, o efeito e a causa; quando se admite «a priori» um princípio gerador das coisas, fonte de toda a verdade, que tudo explica e produz deste o átomo até Deus, chame-se esse princípio Inconsciente (Hartmann), Vontade (Schopenhauer), Atividade (Wundt), Idéia — Força (Fouillée), Esforço Vital (Bergson), ou como se quiser; quando se afirma tudo isso, parece que se estabelece diversidade de princípios, quando em rigor é idêntico o fundamento comum, a origem dessas aberrações monstruosas. No fundo dessas doutrinas palpita o mesmo pensamento. A filosofia, do «eu» erigindo-se em mestra do gênero humano, a razão individual emancipada de toda autoridade, o verbo interior do nosso espírito suplantando o Verbo divino, o orgulho do homem usurpando a Deus suas prerrogativas e excelências. Todos os que proclamam a emancipação do pensamento e negam a Jesus Cristo o direito de reinar sobre as inteligências, partem de uma premissa errônea. Crêem que a razão é causa da verdade, regra do dever, quando pelo contrário, a verdade preexiste nas coisas como uma irradiação da mente divina que as concebe e procria.

9. A razão não cria a verdade, descobre-a; a verdade não é uma concepção livre do entendimento nem produção espontânea do espírito; a razão investiga, busca o que é, não o que pode ser; inquire a realidade que é causa da verdade em nós. «O ser mesmo das coisas, diz o doutor Angélico, causa a verdade no entendimento». A verdade é reprodução, reflexo do exterior; os objetos que existem fora de nossa alma despertam a atividade natural da potência cognoscitiva e constituem a medida da verdade que encerram seus atos.

«Está impressa, Senhor, sobre nós, dizia Davi, a luz de teu rosto».

Esta luz não pode operar sem o concurso do objeto que a determina e atua. Nosso entendimento é uma atividade potencial que necessita ser excitada pelo influxo dos fantasmas sensíveis; é como um espelho em que se refletem os objetos com perfeita fidelidade, sem acrescentar-lhes nem tirar coisa nenhuma. Essa atividade intelectual não é como a de Deus. Esta é essencial, que engendra a inteligibilidade dos seres; criadora que produz a verdade eterna, cuja luz, depois de iluminar com clarão infinito os seios misteriosos da Trindade beatíssima, reverbera palidamente nas criaturas; soberana, onde têm sua origem os possíveis, que sem sair de si mesma contém a plenitude do ser com todas as suas perfeições.

A verdade ontológica é a realidade das coisas, «id quod est», como diz Santo Agostinho; e esta verdade essencial possuem as coisas por sua conformidade com o entendimento divino que as criou. A verdade lógica ou formal deriva da anterior; é como diz Santo Tomás, a adequação do entendimento com a coisa; e ainda que esta verdade resida no entendimento, depende também do objeto, porque essa relação que medeia entre ambos não é arbitrária; as coisas são o que são, independentemente do sujeito pensante, e ainda dado que este desaparecesse, a verdade das coisas subsistiria, porque são essencialmente verdadeiras no entendimento divino, no qual têm seu princípio e sua razão, sua norma e sua medida, seu ser e sua existência. Assim como a visão sensível se verifica com submissão a leis invariáveis, independentes de nossa vontade, assim também a visão intelectual se produz obedecendo a leis fixas e constantes. O olho é livre para olhar ou não um objeto visível; porém, uma vez que o contemplou, se o encontra convenientemente iluminado e situado a devida distância, a visão se verifica necessariamente. O olhar não cria nem influi na realidade; percebe-a e a reproduz tal qual aparece no exterior. Do mesmo modo a razão se move num círculo vastíssimo, voa por regiões imensas; porém ela não fez esses mundos nem pode modificá-los à sua vontade; reflete unicamente a luz que os ilumina, o esplendor que irradia o Verbo de Deus sobre os objetos, os quais de um modo intencional, porém positivo e eficaz, determinem nossa mente ao conhecimento dos mesmos.

A verdade se nos impõe de uma maneira irresistível; é objetiva, não mera emanação de nossas faculdades.

Daí se infere quão irracionalmente procedem aqueles que defendem como um dogma a liberdade de pensar, eximindo o entendimento de toda lei na investigação da verdade. O livre pensamento é um absurdo que nos rebaixa ao nível dos brutos, porque nega a mesma razão que não pode conhecer a verdade sem sujeitar-se a leis imutáveis, cuja infração leva consigo o erro.

A idéia não se engendra sem o fantasma sensível; assim como o coração não é independente do bem que o cativa e atrai, tampouco o entendimento da verdade que o ilustra. Um pensamento livre é um absurdo, uma contradição; tudo na natureza tem suas regras e suas leis; e não as terá o pensamento que é a causa mais nobre e excelsa no homem? Nossa potência intelectual pode receber em si todas as formas, é uma participação da luz divina, porém, finita e limitada, e, portanto dependente de Deus. Por íntimas que sejam as analogias do Verbo teológico e do Verbo filosófico, distinguem-se ambos pela diversidade de natureza a que devem sua origem.

Deus, compreendendo sua essência, forma e produz em si mesmo uma concepção inegável, que é seu Verbo. Do mesmo modo que quando nós pensamos ou concebemos um objeto, formamos uma concepção da coisa pensada, e esse é nosso verbo. Porém entende de uma maneira muito mais perfeita que o homem, e daqui nasce a superioridade do seu Verbo sobre o nosso.

Deus conhece a realidade vendo-se a si mesmo como realidade infinita e perfeitíssima; e como em Deus o entender é a substância do sujeito inteligente, Deus entendendo-se a si mesmo, diz Santo Tomás, produz uma concepção em que Ele mesmo se repete. A produção do Verbo em Deus é uma geração verdadeira, e o Verbo pelo mesmo fato que é Verbo, é realmente uma hipóstase subsistente, seu Filho, igual ao Pai, em que está representado o existente e o possível, por quem foram feitas todas as coisas, as visíveis e invisíveis.

A produção do verbo no homem é uma geração imperfeita, porque nem o entender em nós é nossa substância, nem a concepção engendrada pela mente é uma reprodução substancial do sujeito pensante, senão uma forma ideal, um fenômeno intencional do espírito. Nosso verbo é semelhante, não idêntico ao verbo divino, imagem do objeto entendido, nem sempre representação inteligível dele, como sucede no Verbo divino, cuja idéia procede unicamente do Pai.

10. A distância que separa os dois verbos é imensa, a mesma que separa a inteligência finita e a infinita. O Verbo é a imagem adequada e perfeita da ciência perfeitíssima de Deus, é o mesmo pensamento divino compreendendo a essência própria e suas perfeições infinitas. O verbo humano é a expressão ou imagem das coisas que em ato entendemos, não das que podem ser entendidas, muitas delas impenetráveis aos olhos do homem. O Verbo divino como imagem perfeita e adequada da substância do Pai, é Deus mesmo, a verdade mesma ideal e real, a fonte de toda entidade. O verbo humano sendo imagem de uma realidade finita e imperfeita, é por necessidade, finito e imperfeito, verdade participada; não é causa das coisas nem medida do ser, mas deve ser medido por elas para determinar-se ao ato e engendrar mentalmente a visão da verdade real. Não é um original, mas uma cópia maculada, pálido reflexo do sol que fulgura na mente do Altíssimo engendrando o Verbo divino desde toda a eternidade. Este verbo augusto é substancial, incriado, Deus de Deus, luz de luz, pensamento que esgota a inteligibilidade dos seres pela absoluta compreensão dos mesmos; o verbo humano é acidental, criado, circunscrito a uma esfera determinada, distinta da potência que o engendra.

Aquele procede sempre por intuição, é esplendor sagrado que deslumbra e subjuga, nossa inteligência; esta procede por demonstração, deduz ou induz com submissão às leis do espaço e do tempo, desce dos princípios às conclusões ou ascende dos fatos ao conhecimento dos princípios universais por uma multiplicidade de atos que declara sua imperfeição intrínseca. Não conhece senão abstrata e indeterminadamente; logo não pode ser princípio de verdade, nem origem da sabedoria humana, o que é próprio somente de Deus, do Verbo encarnado, que se chama Jesus Cristo.

Basta o que ficou dito para destruir pela sua base o criticismo kantiano, ponto de partida da filosofia moderna, em que as inteligências modernas beberam o vírus da impiedade. Se o verbo filosófico é por si uma entidade finita e imperfeita, uma luz débil e trêmula que reflete parcialmente a verdade oculta nos fenômenos sensíveis, é impossível levantar sobre tão fraco fundamento o edifício dos conhecimentos humanos. A razão não pode ser autônoma, a esfera de nossos conhecimentos não pode limitar-se ao campo de nossas afeições subjetivas; existem horizontes mais amplos cujos limites nos são desconhecidos. A verdade não está em nós: está em Deus, que a reflete sobre o mundo; reside em Cristo, trono da sabedoria e fonte das ciências humanas”.

(Trecho do livro Jesus Cristo e os Filósofos, Cap. X, §8-10, de autoria do filósofo e padre Eugenio Cantera, trad. pe. Antonio D'Almeida Moraes Junior)

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Um cínico pelo caminho...

Acabo de ler o seguinte: "Não existe verdades absolutas (sic), cada um tem a sua, portanto as coisas são como cada um sente e diz (sic), rotulações são mentiras e não verdades, pode-se fazer tudo, mas a verdade é só o que é sentido, sentir é o verdadeiro! (sic, sic, sic...)"

Temos, portanto: (1) que verdades absolutas não existem e que, por isso mesmo, (2) está agora mesmo desdito o que foi posto no número 1; (3) cada um tem a sua "não-verdade" absoluta, independente do que sinta ou diga; (4) rotulações são mentiras assim como tudo mais, pois verdades absolutas não existem; (5) pode-se fazer tudo, mas verdade não há. (6) Como é??? (Risos)