A própria estrutura em bloco e de certa forma acabada das grandes religiões universais já evidencia, por si só, que elas não podem ser de maneira nenhuma tomadas como originárias, produtos ou muito menos subprodutos de uma realidade social, cultural ou condição econômica, climática, geográfica ou ainda mera ocasião histórica condicionada a um determinado estágio de desenvolvimento psico-emocional como muitos autores afirmam (a Filosofia, por seu turno, pode muito bem ser explicada por um ou por todos esses elementos e muitos outros em conjunto, pois a estrutura da Filosofia, em sua origem, é completamente díspar a de qualquer crença ou prática religiosa que tenhamos notícia. O mesmo se dá com a ciência do Direito). Não fosse assim, teríamos que admitir que ao invés de formadas em blocos e "acabas", como dissemos, foram as grande religiões desenvolvidas, isto é, no começo de suas histórias, foram um "vir a ser", um projeto que realizar, o que em absoluto não nos permitiria explicar de maneira satisfatória a constituição e organização dos acontecimentos em torno do que se deu e principalmente se acometeu a essas práticas e crenças (tais dificuldades jamais afligiram, por exemplo, nenhum estudioso de História do Direito, de História da Filosofia, de História da Arte etc., todos esses saberes originários de algum ou da combinação de alguns dos elementos que anteriormente enumeramos). Além disso, custaria-nos muito explicar como as estruturas dessas grandes religiões se mantiveram, ao longo de séculos e séculos praticamente inalteradas.
Qual seria, então, a origem? Não vem ao caso. O que afirmo é que, sem nenhuma dúvida, qualquer tentativa de explicar uma grande religião, como o cristianismo, por exemplo, ou o judaísmo, o budismo, o islamismo, por algum desses elementos, fatalmente incorrerá em muitos becos sem saída, impossibilidades mesmas (que faça o leitor sua própria experiência!).
Cada religião, evidentemente, tem suas justificativas, mas essas justificativas não são aceitáveis de um ponto de vista separado do meramente religioso em questão, como, para a constituição de uma espécie de "ciência das religiões", seria absolutamente fundamental. A biologia, por exemplo, enquanto ciência, não fundamenta suas razões em conhecimentos próprios da biologia, assim como nenhum outro campo de conhecimento científico moderno. Como exemplo, jamais poderá nos dizer um biólogo o que seja vida, uma vez que a vida, em todas as suas formas, é objeto de estudo próprio da biologia. E se aceitarmos a definição de Kant de que a geometria é o estudo de todas as formas possíveis de espaço, também jamais poderá nos dizer o geômetra o que seja, enfim, espaço. É um problema de pressupostos bastante elementar. Tal "ciência das religiões", em sentido moderno, jamais existirá, pois, para existir, seus promotores terão que antes nos prover de boa solução para esse imbróglio que, em caso de não ser solucionado, minará os alicerceares e pressupostos do pretenso campo de saber científico.
Tomemos o caso dos muçulmanos como exemplo, que nos fornecem como justificativa para a origem de sua fé, um evento: o evento da revelação do corão ao profeta Maomé ou Muhammad, pelo Anjo Gabriel. O judaísmo: também por um evento surpreendente: Moisés recebendo de Deus a tábua da Lei no alto do Monte Sinai. O cristianismo: a anunciação de Jesus, o Messias (este já revelado por Deus como vindouro a uma longuíssima tradição de profetas), por um anjo à Virgem Maria e a São José. Estou persuadido, embora admita a possibilidade de estar errado, que não é possível analisar tais questões desde fora, com o mínimo de isenção. É certo que jamais haverá acordo entre as grandes religiões: jamais veremos os judeus admitirem voluntariamente (podem até serem forçados a isso!) que há apenas um Deus e que Maomé é seu Profeta. Nem veremos os budistas orarem o credo cristão. Que história é essa de que eu creio em Deus-Pai, todo poderoso, criador do céu e da terra e em Jesus Cristo seu único filho, Nosso Senhor? Não vai acontecer. Na esfera individual, certamente, ninguém duvidará nem jamais duvidou da possibilidade, mas as duas religiões são, elas sim, inconciliáveis. Mesmo que um budista passe, a partir de agora, a orar de acordo com o credo cristão, rechaçará o seu passado budista por inteiro.
Só é possível "conhecer" às religiões comparando-as (e existe uma disciplina absolutamente válida de estudo de religiões comparadas), aceitando uma delas e rechaçando todas as outras ou ainda renegando a todas, sem distinção. A visão do estudioso será sempre, de todas as formas, enviesada, comprometida de alguma maneira e disso não vejo como fugir.
Quanto à constituição da tal estrutura das grandes religiões que citamos no começo, essa merece posterior digressão.
Qual seria, então, a origem? Não vem ao caso. O que afirmo é que, sem nenhuma dúvida, qualquer tentativa de explicar uma grande religião, como o cristianismo, por exemplo, ou o judaísmo, o budismo, o islamismo, por algum desses elementos, fatalmente incorrerá em muitos becos sem saída, impossibilidades mesmas (que faça o leitor sua própria experiência!).
Cada religião, evidentemente, tem suas justificativas, mas essas justificativas não são aceitáveis de um ponto de vista separado do meramente religioso em questão, como, para a constituição de uma espécie de "ciência das religiões", seria absolutamente fundamental. A biologia, por exemplo, enquanto ciência, não fundamenta suas razões em conhecimentos próprios da biologia, assim como nenhum outro campo de conhecimento científico moderno. Como exemplo, jamais poderá nos dizer um biólogo o que seja vida, uma vez que a vida, em todas as suas formas, é objeto de estudo próprio da biologia. E se aceitarmos a definição de Kant de que a geometria é o estudo de todas as formas possíveis de espaço, também jamais poderá nos dizer o geômetra o que seja, enfim, espaço. É um problema de pressupostos bastante elementar. Tal "ciência das religiões", em sentido moderno, jamais existirá, pois, para existir, seus promotores terão que antes nos prover de boa solução para esse imbróglio que, em caso de não ser solucionado, minará os alicerceares e pressupostos do pretenso campo de saber científico.
Tomemos o caso dos muçulmanos como exemplo, que nos fornecem como justificativa para a origem de sua fé, um evento: o evento da revelação do corão ao profeta Maomé ou Muhammad, pelo Anjo Gabriel. O judaísmo: também por um evento surpreendente: Moisés recebendo de Deus a tábua da Lei no alto do Monte Sinai. O cristianismo: a anunciação de Jesus, o Messias (este já revelado por Deus como vindouro a uma longuíssima tradição de profetas), por um anjo à Virgem Maria e a São José. Estou persuadido, embora admita a possibilidade de estar errado, que não é possível analisar tais questões desde fora, com o mínimo de isenção. É certo que jamais haverá acordo entre as grandes religiões: jamais veremos os judeus admitirem voluntariamente (podem até serem forçados a isso!) que há apenas um Deus e que Maomé é seu Profeta. Nem veremos os budistas orarem o credo cristão. Que história é essa de que eu creio em Deus-Pai, todo poderoso, criador do céu e da terra e em Jesus Cristo seu único filho, Nosso Senhor? Não vai acontecer. Na esfera individual, certamente, ninguém duvidará nem jamais duvidou da possibilidade, mas as duas religiões são, elas sim, inconciliáveis. Mesmo que um budista passe, a partir de agora, a orar de acordo com o credo cristão, rechaçará o seu passado budista por inteiro.
Só é possível "conhecer" às religiões comparando-as (e existe uma disciplina absolutamente válida de estudo de religiões comparadas), aceitando uma delas e rechaçando todas as outras ou ainda renegando a todas, sem distinção. A visão do estudioso será sempre, de todas as formas, enviesada, comprometida de alguma maneira e disso não vejo como fugir.
Quanto à constituição da tal estrutura das grandes religiões que citamos no começo, essa merece posterior digressão.