Nada me faz mais feliz do que estudar sem precisar me preocupar com mais nada, sem ter que prestar contas a ninguém. Só o que realmente me interessa, o estudo com um fim em si mesmo. Estou lendo sobre a Reforma Anglicana e, por tabela, a vida de São Thomas More. Das coisas que li até agora, as que mais me comoveram foram, sem dúvidas, as palavras de agonia do Cardeal Wolsey. São de arrepiar, como geralmente são as últimas palavras:
"Se eu tivesse servido a Deus com metade da diligencia com que servi ao Rei, Deus não me teria deixado a morrer aqui."
O Cardeal Wolsey, depois de ter feito de tudo (inclusive usando de artifícios indevidos) para que a Igreja reconhecesse a relação concubinária do Rei Henrique VIII acabou, quando não obteve sucesso na empreitada, morrendo na mais absoluta desgraça.
O que aconteceu com a Inglaterra no século XV e XVI é muito impressionante, mas também o momento foi tempestuoso e controverso para a própria Igreja Católica. O Renascimento, como um todo, me parece um período de declínio civilizacional. Roma feriu profundamente o sentimento nacionalista do povo ingleses ao decidir manter sua posição inalterada no caso do Rei Henrique VIII e de sua Rainha Catarina de Aragão. Os ingleses haviam visto a maneira escandalosamente arbitrária com que agiu o Papa Alexandre VI, Rodrigo Bórgia, no caso do divorcio do Rei da França, Luís XII. Luís XII de França era, inclusive, concunhado de Henrique VIII. Sem dúvidas as ações de Rodrigo contribuíram e muito para que a imagem da Igreja acabasse abalada, em menor e maior grau a depender de onde fosse, em todos os reinos da Europa. [Rodrigo Bórgia merece um estudo posterior mais aprofundado.] Eu realmente não sei o que pensar e quanto mais leio mais confuso acabo ficando (eu já havia experimentado sentimento parecido ao estudar o renascimento italiano, principalmente a partir da obra do Jacob Burckhardt). Não sei se gosto, não sei se desgosto do Cardeal Wolsey, por exemplo. Tem momentos que eu acho que o entendo, pois ele viu na anulação do casamento do rei uma chance de salvar a fé católica na Inglaterra, mas tem vezes que defendê-lo é impossível.
Que demônio também não foi aquela tal de Ana Bolena! A amante de Henrique VIII, pivô de toda a confusão, é uma das mulheres mais impressionantes da história. Até na hora de morrer foi capaz de causar os piores sentimentos em toda a corte. Naquela época, por exemplo, os carrascos usavam machados nas execuções, o condenado ou condenada, como no caso, colocava a cabeça inclinada sobre uma espécie de tora e então dali, com um único golpe desferido na nuca, a cabeça rolava para frente, como se pode imaginar. Ana, ciente do procedimento, enviou uma carta ao rei pedindo um carrasco francês, que usava espada em vez de machado porque, segundo ela mesma, uma rainha jamais abaixava a cabeça para os seus súditos. Imagino a reação de toda a corte que dela, definitivamente, já não tinha o melhor juízo. O rei, impressionado com o pedido, acabou acatando (certamente, ele ainda conservava algum tipo de afeto por ela). (O filme A Outra, que conta a história de Ana, interpretada pela linda Natalie Portman, é bem mais ou menos e mais para menos, eu diria, pois tem uma porção de erros tolos, mas ainda sim vale a pena assistir. Foi baseado num livro de uma tal Philippa Gregory. Um ponto, em particular, de que eu não gostei no filme é justamente quando Ana se coloca diante do carrasco toda se tremendo. Eu não consigo imaginá-la tremendo e em prantos nem mesmo na hora final! Existem relatos de que ela, inclusive, teria olhado nos olhos do carrasco, indicado o pescoço com as mãos com grande delicadeza e, serenamente, dito: "É pequeno, muito pequeno, não é verdade?" Naquela época, as mulheres nobres e casadas ocultavam, algumas mais e outras menos, o pescoço, não sei ao certo o motivo, talvez por modismo ou mesmo por puro recato. Isso é engraçado particularmente no caso de Ana, que foi acusada até de incesto, por se relacionar intimamente com o próprio irmão. Definitivamente, eu acho que ela morreu sem derramar uma única lágrima.)
Já sobre São Thomas More o que exatamente eu posso dizer? Deus do céu! Que grande homem! Descobri um novo modelo de ser humano que sem dúvida nenhuma vou levar para o resto da minha vida. Quem me dera um dia poder ser tão brilhante quanto ele foi, ser um pai e um marido como ele foi, ter um quinto do seu vigor moral, da sua fé, da sua força e, enfim, de tudo. Além de tudo, ele é um grande padroeiro, me parece, de nós advogados e futuros advogados. (Tem um filme sobre São Thomas More que é muito, muito bom: A Man for all Seasons, que eu traduziria como "Um homem de todas as épocas" ou, talvez, "estações", mas a empresa que distribuiu o filme no Brasil preferiu "O homem que não vendeu sua alma", titulo que eu não gostei muito. São Thomas More morre como um mártir católico, defensor intransigente de sua fé. No filme, diversos momentos são intensamente comoventes. Descobri também que tem uma série sobre esse período da dinastia de Henrique VIII que se chama The Tudors, mas eu ainda não assisti. É projeto para as férias.)
Na história da reforma anglicana, sem dúvidas, um capitulo fundamental é a mudança da coroa da Dinastia Tudors para a Casa de Stuart, marcado pela União das Coroas no reinado de Jaime VI e I, Rei da Inglaterra, Escócia e Irlanda. Após a fundação da Igreja da Inglaterra, a disposição ou configuração da igreja se manteve praticamente inalterada. Foi assim durante todo o período de regência da Dinastia Tudors. A igreja era, talvez possamos dizer, católica em praticamente tudo e apenas não reconhecia a autoridade do Bispo de Roma, havia rompido relações com a Santa Sé. Com James VI e I, a coisa muda. Isabel I de Inglaterra, filha de Henrique VIII e Ana Bolena, por não ter herdeiros, é a última soberana Tudors, assumindo o trono o Rei da Escócia, Jaime VI, que ao unir as coroas viria a ser também Jaime VI e I. A Escócia de Jaime é também o berço da vertente calvinista do protestantismo inglês, levada para lá por um certo John Knox, que foi discípulo do próprio João Calvino em Genebra e também um precursor do chamado presbiterianismo. Prescindo, ainda, de maiores conhecimentos acerca da formação e das ideias que povoaram o espírito de Jaime, mas creio poder afirmar que foi somente sobre o seu reinado que teve início uma onda de reformas na igreja inglesa. Os protestantes, de maneira em geral, exigiam reformas, mudanças na instituição da igreja nacional e esta acabou em muitos pontos por responder aos anseios. Católicos Romanos foram perseguidos e disputas sangrentas se iniciaram entre os próprios protestantes. Alguns, mais radicais, viriam a fugir da perseguição da parte de seus irmãos também protestantes, buscando, a maioria, refugio na colonia inglesa na América, todos profundamente contrariados com a monarquia absolutista. A bíblia do Rei Jaime é desse período e foi imposta pelo monarca. Era e pretendia ser, em certa medida, uma afirmação da identidade nacional, já que o novo cânon não mais era escrito em latim, mas em língua vulgar, corrente em todos os domínios do rei: o inglês. O tradutor do texto sagrado, o pastor William Tyndale, pretendia que "todo menino de arado" tivesse acesso ao texto, sem o auxílio de nenhum sacerdote pra ajudá-lo a entender. Era um revolta contra o clero. Com a morte de Jaime, quem assume o trono é seu filho, Carlos I. Carlos, pouco após ascender ao trono, firmou casamento com uma princesa católica, Henriqueta Maria de França, o que não foi bem visto por parte da corte composta por protestante radicais também chamados de puritanos, que também gozavam de considerável prestígio na política local. No âmbito externo, a Europa estava em guerra e, com a guerra, a situação financeira se agravou. É preciso destacar que também o apoio do rei à França e ao Reino da Suécia católica, que lutava contra nações protestantes, foi mal visto pelo parlamento, que chegou a classificar a guerra de "cruzada católica". Católicos e protestantes luteranos firmaram acordo, mas os calvinistas não se deram por satisfeitos.
Os ânimos na Inglaterra foram se tornando cada vez mais difíceis de acalmar. Carlos I ainda tentou instaurar uma tirania, passando por cima do parlamento. Ao mesmo tempo, irrompeu um conflito militar no seio da Igreja da Escócia e da Irlanda, conhecido como Guerra dos Bispos. Na Irlanda, Carlo I nomeou um governador que, logo em um dos seus primeiros atos, confiscou as propriedades dos cristãos católicos locais. O resultado foi uma rebelião em outubro de 1641. No memento mais conturbado, os católicos tentaram um golpe, mas o golpe acabou frustado e o resultado foi um horrendo massacre católico contra colonos escoceses e ingleses.
A luta entre católicos e protestantes levaram a Inglaterra a uma Guerra Civil em 1642. Dos lados da batalha estavam católicos irlandeses, os ingleses leais ao rei, protestantes escoceses e as tropas do parlamento sob o comado puritano. Os protestantes venceram e aboliram a monarquia em 1649, passando a Inglaterra a ser uma república governada pelo pastor puritano protestante Oliver Cromwell, que se autodeclarou Lord Protetor da Inglaterra.
Originalmente escrito em 03/12/2015