domingo, 10 de julho de 2016

Kant e os limites do conhecimento

É impossível conciliar qualquer visão de religião tradicional da existência com a filosofia de Kant. Isso acontece porque para Kant, o conhecimento se dá por duas e unicamente duas vias: pela via da experiência e dos sentidos (conhecimento empírico); e pela via da razão ou razão pura, que nada mais é do que o conhecimento "acessado" "independente" da experiência, dos sentidos. Eu coloquei o acessado e o independente entre aspas porque, na realidade, nós não acessamos coisa nenhuma, pois o conhecimento puro nada tem de novo a dizer sobre as coisas, sobre os seres. Por que não? Bom, porque para Kant, o conhecimento puro ou a priori, "independe" da experiência, é um conhecimento estático, universal e necessário e, na realidade ainda, ele também não é tão independente assim da experiência porque ele começou com a experiência (para Kant todo conhecimento começa com a experiência), isto é, sem a experiência ele sequer poderia ter chegado a existir.

Um exemplo é você dizer que "um quadrado tem quatro lados". Esse é um exemplo de conhecimento puro, a priori, no entendimento de Kant independente da experiência. Esse conhecimento é necessário porque é inconcebível um quadrado de outra maneira e é universal pela mesma razão, quero dizer, nenhum quadrado que de fato exista pode prescindir de ter quatro lados na sua composição formal. Porém, para que pudéssemos afirmar, como na frase, que um quadrado tem quatro lados, teríamos que, necessariamente, já ter "experimentado" um quadrado ao menos uma vez na vida, experimentado no sentido de ver, por exemplo. É por isso que coloquei o independente entre aspas também, pois no final das contas, ele não é tão independente assim e todo o conhecimento puro seria, portanto, dependente da experiencia de alguma maneira e na principal de todas, isto é, na que condiciona a existência da coisa.

Percebam, no entanto, que a frase "um quadrado tem quatro lados" nada acrescenta ao conceito de quadrado, quero dizer, o predicado já está contido no sujeito e é por isso que se diz que o conhecimento puro é um conhecimento meramente formal, que não avança, que é estático, nada tira e nada acrescenta aos seres e às coisas.

A proposta primeira de Kant é investigar os limites do conhecimento, até onde o conhecimento pode ir. O conjunto de Kant me parece recheado de contradições e acho que já expus algumas das minhas razões para pensar assim. 1º) É contraditório falar de um conhecimento que surge independente da experiência quando, sem um mínimo de suporte que seja na experiência ele não poderia sequer existir. 2º) E é contraditório dizer também que é possível acessar ao conhecimento da coisa quando o conhecimento se dá de tal forma analítica que beira à redundância e ao tautológico.

E por que eu falei da visão que as religiões tradicionais tem da existência? Por que todas elas, indistintamente dialogam com planos de realidade que, no arcabouço teórico de Kant, seriam absolutamente inacessíveis pela via do conhecimento e, portanto, são falsos! Para corroborar o que eu digo eu chamo a atenção para o fato de que aquilo a que Kant se refere como sendo metafísica é algo completamente díspar da metafísica tradicional. Ele criou uma outra coisa e deu a ela o nome de metafísica. É um falso silogismo.

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