O discurso politicamente correto, onde as pessoas dizem coisas como "nem todo muçulmano é terrorista", "o islã é uma religião de paz" ou, ainda, "a maioria dos muçulmanos são pacíficos", se dissemina na mídia e em todos os meios culturais na mesma proporção em que a violência praticada em nome do islã se dissemina por todo o mundo.
Em Submissão, o que o Michel Houellebecq faz é mostrar (na verdade o livro é todo uma insinuação) que, ao contrário do que possa parecer, não é o terrorismo, mas o tal "islã pacífico" que põe em risco nosso modo de vida e que, com ações e articulações políticas das mais indecentes e não raras vezes contrárias à própria fé do Profeta (justificadas pelo fim ideal a que visam na própria doutrina islâmica, pois o islã não tem lá tantas preocupações com quanto a parecer hipócrita), o islã "moderado" se beneficia como nenhum outro grupo, herdando todo o capital político, que o estado de letargia que o avançar do politicamente correto no meio cultural provoca.
O terrorismo é parte da estratégia, é a ponta de lança, que desvia o foco, pelo horror dos ataques. A mídia é absolutamente incapaz de avaliar a situação porque é a principal responsável por disseminar o discurso, é parte — talvez inconsciente, talvez não — da estratégia, a classe jornalística inteira é marcada por uma ignorância enciclopédica, uma incapacidade atroz de analisar o quadro geral.
Sobre questões menores, eu ainda não sou capaz de fornecer explicações que pessoalmente me satisfaçam, venho estudando o assunto. Por exemplo: a colaboração de terroristas para a estratégia geral do islã moderado é consciente? Ou o terrorismo é um cão raivoso que os "moderados" têm sob controle apenas muito parcialmente? Me parece ser afirmativa a segunda questão. De onde vem o dinheiro que financia grupos terroristas? Para mim, esta é um tanto óbvia: vem principalmente de alas consideradas moderadas do islã, talvez as chamadas petromonarquias árabes a que Houellebecq fala, até porque esses grupos terroristas, até onde sei, sobrevivem principalmente da venda de petróleo no mercado negro (alguém precisaria fornecê-lo e comprá-lo...).
Houellebecq tira um tremendo sarro das feministas quando imagina um mundo de mulheres submissas (islã significa submissão, donde se tira o título do livro), aos 15 anos tendo de se casarem com homens asquerosos muito mais velhos, "no limite da higiene", reduzidas a objetos sexuais de fazer um homem decente vomitar (foi nos mercados árabes que a indústria do sexo encontrou o seu oásis), condicionadas, desde a infância, para essa condição de degradação humana sem limites. A mensagem é clara: as mulheres, no Ocidente, não fazem ideia do flagelo que é o islã, muito especialmente as francesas por quem François se envolve. Tudo isso transpassado pela crítica mais ou menos justa das mulheres ao patriarcado da sociedade ocidental cristã. O autor é um gozador terrible, mas o perigo da questão demográfica na França é absolutamente real e apavorante.
Essa é uma das mensagens ocultas do livro. É evidente que iam chamar Houellebecq de machista, mas sendo o livro inteiro uma denúncia, como poderia o autor, que é quem está fazendo a denúncia, ser machista? Ele denunciaria o próprio machismo? Somente um crítico no limite do analfabetismo funcional para supor semelhante coisa! Aliás, consiste exatamente em parecer que não faz nada demais a genial arte burlesca do insulto que Houellebecq soube desenvolver tão bem. Seu estilo é ótimo!
Machista? Talvez até seja, em algum sentido de sua vida íntima, mas para o livro isso não importa em absolutamente nada! A intenção, na acusação dos críticos, é claramente um apelo ao chavão para inibir o grande público dessas temíveis 250 páginas (estratégia essa absolutamente fracassada, dado o imenso sucesso da obra mundo a fora). Houellebecq não é François, nem nenhum outro personagem, embora, como em todos os casos, seja também todos eles. François é um professor universitário e na última página do livro, o autor admite que nunca pisou numa universidade! O livro é também uma feroz sátira da vida acadêmica, onde o autor apenas demonstra desprezo pela academia e nada mais. Houellebecq é um homem-bomba. Só. É um louvável (embora com cara de maluco) e dos mais atuantes combatentes na guerra cultural em que vivemos. Seu livro já nasceu clássico!

Nenhum comentário:
Postar um comentário