A expressão "qualquer forma ou maneira (salvo engano isso foi cravado pelo Caetano Veloso numa canção) de amor vale a pena", é absurda. O amor não é uma jaca, para ter tantas formas e maneiras de ser.
Geralmente isso é dito por pessoas que afirmam lutar contra a discriminação no caso das relações ditas amorosas entre homossexuais (caso do Marcelo Freixo). Mas se existe o amor hétero ou homossexual, definitivamente não há uma diferença formal entre eles, logo não faz sentido a distinção em formas ou maneiras de amar. Sem dúvidas, há uma evidente diferença na manifestação do afeto entre os seres nesses dois casos. Porém, também, como escrevi não faz muito tempo, o amor não se confunde com a expressão romântica, o que é um traço muito característicos do romantismo, a coisa que mais se vê nos filmes, novelas, livros, seriados, músicas etc. etc. etc. O amor romântico é egoísta precisamente por isso, e, precisamente por isso, é também uma negação do próprio amor. O amor, penso, é bem menos complicado; é um identificar-se, como quando Cristo anuncia: ama o teu próximo como a ti mesmo; e, ainda, quando diz: amai-vos uns aos outros como eu vos amei. A medida do amor, portanto, é o Eu, um Eu sem medidas, para parafrasear Santo Agostinho, isto é, um Eu divino, um Eu necessário, não um eu egoísta. Dizia C.S. Lewis que se você tem a atitude correta diante de Deus, inevitavelmente terá a atitude correta diante do próximo. Essa é a régua!
Amar, portanto, é se identificar (porque nós nos identificamos com Deus é que é possível amá-Lo e essa é uma verdade cristã, um diferencial do cristianismo, por exemplo, em relação ao hinduísmo, onde os sujeitos estão lá, amando um deus com cabeça de elefante; o Deus cristão é humanos demais, transborda humanidade e, exatamente por isso, cumprir com o primeiro mandamento da Lei é mais fácil do seria, sem a revelação do evangelho. O Deus dos judeus era impessoal, vingativo e, também os homens, talvez por isso, fossem tão insensíveis, Mc 10:5). Por que, por exemplo, uma das manifestações mais notórias de ódio é o terrorismo? Porque, justamente, é quase sempre uma das manifestações mais notórias de diferenças entre os seres, de distinção, de intolerância. O sujeito que veste um colete de explosivos e se explode é incapaz de se identificar minimamente que seja com as suas vítimas. É assim, de maneira geral, com os assassinos — os assassinos, como dizia Nelson Rodrigues, são anti-homens, se sentem deuses, seres superiores a todos e principalmente às suas vítimas. Por que, também, eu quase sempre acho uma frescura sem tamanho esse negócio de amor pelos animais? O ser humano só consegue amar aqueles animais que mais se identificam e se relacionam com ele. Ninguém ama o porco espinho, ninguém ama o tatu — excerto o tatu bola, porque é engraçado, mas o tatu tradicional, aquele bicho estranho com um nariz e língua soberbos, ninguém ama! Amamos cachorros e gatos porque em nós despertam empatia (empatia significa sentir de forma parecida), mas o mesmo sentir não é possível com toda a animália, esta muitas vezes distante de nós, hostil.
Nenhum comentário:
Postar um comentário