domingo, 8 de outubro de 2017

O Reencontro, 2012

Se a Divina Comédia de Dante Alighieri assim é chamada não por ser exatamente engraçada, mas por acabar bem, dar no Paraíso, O Reencontro, com Morgan Friedman, é uma comédia dantesca. "Ninguém liga pro escritor que ninguém lê", e isso é fato, bem como é também um fato que "ninguém lê o escritor que não escreve".

Se é verdade que Ernest Hemingway desafiava às pessoas a lhe dizer um determinado numero de palavras, para que assim ele pudesse, com tal incrível limitação e mais incrível ainda virtuosismo, compor histórias inteiras, com início meio e fim, é também surpreendente imaginar uma mente que de uma rua vazia, aparentemente monótona, consiga extrair de si uma história maravilhosa, certamente mais maravilhosa do que as histórias que Hemingway compôs com duas ou quatro palavras. A imaginação de uma criança, por mais inquieta, criativa e inteligente que seja, não é de forma alguma equiparável à do autor de "Por quem os sinos dobram", que parece teve vivido um numero de vidas bem maiores do que a soma de todas as suas belas palavras. Isso, por si só, é surpreendente.

Hemingway tinha a ciência de possibilidades de vida que nenhum de seus contemporâneos jamais teve, o que o fez também uma das mentes mais criativas da literatura americana, por consequência. O filme não trata dos livros de Monte Wildhorn, a quem Friedman interpreta com a sua já característica excelência numa cadeira de rodas, mas trata do valor da inspiração, do acreditar na vida, do adiar o suicídio sempre até o verão seguinte, de olhar. Simplesmente olhar, olhar como os olhos de criança um elefante cor de rosa, de se deixar impregnar pela beleza que os cerca e que está sempre presente nos detalhes menos perceptíveis, que são o tempero de uma vida feliz.

Uma comédia, de fato, clássica. Um bom filme.

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